MPLA QUANDO A LONGEVIDADE COMEÇA A ACUSAR DESGASTE

Precisa, por isso, de olhar para além da sua própria estrutura partidária e pensar no país inteiro. E, sobretudo, precisa de dizer aos angolanos, com clareza, o que pretende fazer para melhorar a vida das pessoas caso volte a vencer as eleições de 2027. Não basta pedir confiança.

SAMPAIO JÚNIOR

A longevidade, em qualquer organização, instituição ou sistema político, pode ser sinónimo de experiência, maturidade e capacidade de resistência. Mas também pode produzir desgaste, acomodação e dificuldade em compreender que os tempos mudam e que as sociedades evoluem.

É neste sentido que ouso recorrer, apenas como metáfora, à ideia da testosterona. No organismo humano, esta hormona desempenha funções importantes e está associada, entre outros aspectos, à energia e à vitalidade. No campo político, poderíamos perguntar, com alguma ironia, se será que a longevidade no poder está a provocar no MPLA uma espécie de “baixa de testosterona política”?

A pergunta ganha alguma pertinência diante de determinados episódios que, em vez de fortalecerem a democracia, revelam sinais preocupantes de intolerância política. 

Os acontecimentos de sábado, no Uíge, antiga Vila Marechal Carmona, nome que recebeu em 1955 em homenagem ao ex-presidente português Óscar Carmona, e que, após a independência de Angola, em 1975, voltou a adoptar a designação original de Uíge, em torno da realização de uma actividade política da UNITA, devem merecer uma reflexão séria. Não é saudável para uma democracia que a disputa pelo espaço público se transforme em motivo de tensão, confrontos ou actos susceptíveis de colocar vidas humanas em risco.

Um partido com a dimensão histórica, política e institucional do MPLA, que governa Angola há mais de cinco décadas, tem responsabilidades acrescidas. A sua experiência deveria permitir-lhe compreender que o espaço público pertence a todos os cidadãos e não, exclusivamente, a uma determinada força política.

Se um partido pode realizar actividades políticas em ruas, largos ou outros espaços públicos, os demais partidos, dentro das regras estabelecidas pela lei, devem beneficiar dos mesmos direitos. É uma questão simples, igualdade de tratamento, respeito pela lei e convivência democrática.

Angola precisa de ser um verdadeiro “balaio” de convivência fraterna, onde as diferenças políticas não sejam transformadas em razões para alimentar ódios, intolerâncias ou conflitos entre cidadãos. O país já carrega demasiadas dores. As estradas continuam a ceifar vidas, a pobreza continua a limitar famílias e os problemas sociais continuam a exigir respostas urgentes. Não precisamos de acrescentar a esse quadro, mortes ou ferimentos provocados por confrontos políticos.

A democracia não pode ser uma espécie de território reservado aos vencedores. Ela deve proteger também aqueles que pensam diferente, votam diferente e defendem projectos políticos diferentes.

O MPLA, pela posição que ocupa na história e no Estado angolano, tem uma responsabilidade especial na construção desse ambiente. A maturidade política mede-se também pela capacidade de tolerar o adversário, garantir-lhe espaço e aceitar que a alternância e a competição fazem parte da própria natureza democrática.

A longevidade no poder não deveria significar perseguição aos cidadãos que não comungam da mesma “ostra partidária”. Pelo contrário, deveria produzir mais experiência, mais serenidade e maior capacidade de diálogo.

Se quisermos insistir na metáfora da testosterona, talvez o problema não esteja na falta dela, mas na necessidade de aumentar os níveis de maturidade política. Não precisamos de mais “testosterona” para tornar o discurso político mais agressivo ou o cérebro mais obtuso. Precisamos de melhor bom senso, tolerância, responsabilidade institucional e respeito pelas diferenças.

Um partido que pretende continuar a governar deve olhar para a longevidade não como um direito adquirido, mas como uma responsabilidade renovada perante os cidadãos. E, sobretudo, deve perceber que a juventude angolana não pode ser tratada como ameaça, simplesmente porque pensa de maneira diferente.

A longevidade saudável de uma organização política exige renovação. Tal como acontece com qualquer organismo, envelhecer não deve significar perder vitalidade, mas encontrar mecanismos para continuar funcional, produtivo e capaz de responder às novas exigências.

O MPLA precisa, por isso, de olhar para além da sua própria estrutura partidária e pensar no país inteiro. E, sobretudo, precisa de dizer aos angolanos, com clareza, o que pretende fazer para melhorar a vida das pessoas caso volte a vencer as eleições de 2027.

Não basta pedir confiança. É preciso apresentar propostas. Não basta falar de vitória. É preciso explicar como essa vitória poderá transformar a vida do cidadão comum.

E essa transformação deve incluir todos, os que votam no MPLA, os que votam na UNITA, os que votam noutros partidos e aqueles que simplesmente não se identificam com nenhuma força política. Porque Angola é muito maior do que qualquer partido. E se a longevidade do MPLA pretende continuar a ser uma virtude, terá de demonstrá-lo não pela força da sua permanência, mas pela capacidade de amadurecer politicamente, respeitar as diferenças e construir uma sociedade onde ninguém tenha de temer o adversário por causa da sua bandeira política.

Afinal, numa democracia madura, a melhor “testosterona” política é a tolerância.

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