ENTRE CACIMBO E VERÃO (3)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

1 – Lembrei-me dos Buendía-Iguarána, família retratada magistralmente por Gabriel Garcia Marquezno seu laureado “Cem anos de solidão”. Não foi um acaso, porque no domingo passado, 2 de Agosto, já me havia recordado desse livro inesquecível. Foi em clima de amor filial, que observei atentamente o ambiente que me cercava. E foi dele que emergiram José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, os protagonistas da primeira geração da família criada pela incrível imaginação do escritor colombiano. Recordei a obra fabulosa, nesse dia em que, por feliz iniciativa da família, festejamos o centenário da avó Nena, no linguajar do seu bisneto, neto da Zita, mas, para mim, e para sempre, a Dona Helena Aguiar.

Embora pertença a uma família de centenários, nunca tinha festejado, com presença física, 100 anos de ninguém. A lendária velha Chica, cognome de Francisca Catarina Jorge de Sousa Calado, minha bisavó e primeira mestiça nascida no Libolo, faleceu aos 107 anos, mas eu já estava longe dela e dos seus mimos. Muitos outros da gloriosa família Calado, atingiram, por essa Angola fora, a magnífica meta, que não está ao alcance de qualquer um.

Naturalmente, no domingo pretérito soltaram-se imagens do passado que me levaram aos Aguiares, principalmente aos da minha geração. Zeca SantosCaribalaRicoDulceTinglas e outros foram visitados. Mas não me esqueci, particularmente, de todos os irmãos da tia Helena. Estão marcados na minha memória a Cristina, o João Sérgio, o Carlos, a Alda, a Alice, a Elvira e a Lourença, a mais nova. Ainda tive o privilégio de conhecer o tio Julião e a matriarca da família, a imponente dona Emília Quianga, senhora de boa mão nos cozinhados da terra e mesmo em cozidos à portuguesa. Ela esmerava-se, fazendo tudo “com todos os matadores”, como fazia questão de sublinhar sempre que aprontava uma iguaria à maneira. Em viagem inédita de avião, seguiu a filha Helena para Portugal, quando o mundo se despedia dos fabulosos anos setenta da nova era. Não concebia a vida longe da filha, sempre andou perto dela. Faleceu aqui, na Melói, quando se abeirava dos cem anos. 

Faço uma pausa e abro um parêntesis. Para dizer que a melhor prenda que me ofertou a Dona Helena Aguiar foi o meu irmão Quim. Sim, o Aguiar dos Santos, o jornalista irreverente, era filho da Dona Helena e do meu pai, portanto, meu irmão cassule. O Quim, intransigente como ninguém mais, no meio das suas exigências, não quis esperar pelos Cem Anos da mãe, partiu assim, cercado de jornais, como ele queria. Não deu hipóteses a ninguém e quando avisou já era tarde demais. Deixou uma solidão sem limites em todos nós, idêntica à que as nossas guerras causaram e nos fazem ainda meditar. É da dimensão da nostalgia que em Cem Anos de SolidãoGarcia Marquez nos transmite, numa metáfora sublime, sobre a incapacidade humana de amar e quebrar ciclos.

No momento mais bonito da festa de domingo, pediram-me para falar e eu falei. Emocionado, não citei o Quim, mas ele esteve sempre presente, a meu lado, junto da Fefita, da Zita, do Lau, e da presença ausente da Lígia e do Saraiva, quando eu, falando, olhei bem os olhos da aniversariante Helena Aguiare vi neles o Quim! Ai aqueles olhos vivos, a mente sadia a boca a dizer coisas e a lembrar cem anos passados, não de solidão, mas de muitas provas de amor e solidariedade. Aquele beijo e o abraço, a música e a dança! Jamais esquecerei!

2 – Neste cacimbo, duro e frio como poucos, sou surpreendido com notícias alarmantes. São uma série de mortes de gente nossa. É gente que, desta vida, descontente, se vai despedindo.  Uns, vencidos normalmente, pelo cansaço da vida, outros de forma dramática. Foram, nestes dias que passaram, o Carlos Ferreira, amigo de boas jornadas, e também o Zé Romero, que fazia da alegria de viver, um sacerdócio. Que descansem em paz! Estes foram vítimas de doença, mas outros, de que também vou sabendo, morrem estupidamente. Não tinham de morrer! Não se pode morrer nas condições em que se morre em Angola. A frequência com que se registam assassinatos e outros crimes, acidentes graves nas estradas, obrigam a perguntar pelas prioridades deste País, claramente em vias de desarranjamento. Já se fala agora de uma Cidade dos Kuduristas! Será mesmo verdade? Ou é mentira?! Valha-nos Nossa Senhora dos Aflitos!

3- Chateiam-se alguns amigos meus quando trago para esta coluna, reflexões sobre o futebol. Não se riam. São mesmo reflexões! Deixem-me, pois, falar do futebol, e dizer que o Porto não joga nada e que os lagartos vão ter que dar à sola, para chegarem aonde está o meu glorioso SLB. Ainda me vou rir do moçambicano trocista que, volta e meia, surge em vídeos a gozar com a malta. Viva o futebol! Prefiro-o às maka que se produzem na nossa buala, cada vez mais vítima de um imbróglio político de difícil definição. Sem sentido e com uma falta de dignidade que impressiona. Na nossa terra amada, que uns quantos pretendem privatizar, sem vergonha nenhuma, apetece perguntar a alguém. Mas aonde anda a decência, aquela réstia de pensamento digno que marca os bons dirigentes e as sociedades sadias? Para quando a responsabilidade que pode salvar o futuro de todos nós? Haja alguém que me responda!

Por hoje, deixo-me ficar aqui. Guardando alguma inspiração para a semana. Enquanto isso, envio beijinhos e abraços para todos. Leitores, familiares, amigos, camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 9 de Agosto de 2026  

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