ENTRE VERÃO E CACIMBO (11)

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS
– JAcQUEs TOU AQUI!

“Certos políticos erram, pensando que alguns dos seus inimigos são obrigatoriamente inimigos dos outros todos”.

Nelson Mandela

1 – Ao abrir esta página, medito sobre os mistérios da morte. Como é possível que a partida de duas pessoas tão distintas, deixe em mim um vazio tão grande, esta tristeza sem fim? Deixou essa dor, mas também, um rasto de inspiração que me leva, no meio de lágrimas, à escrita desta mensagem de despedida. Uma faleceu em Luanda, outra em Lisboa, partiram com uma diferença de poucos dias. Uma era natural do meu chão, do Kwanza-Sul querido, outra das lonjuras do Moxico por onde andei, ligada pelo casamento e pelas ideias da Liberdade, a um dos mais ilustres filhos da nossa terra. Refiro-me à Maria da Conceição Barata, a São Barata para os muitos amigos, mãe do sempre lembrado Pedro Lima e da Xana, e filha da quase centenária, mas eternamente bela, D. Bernardete. A São, era uma das minhas amigas favoritas, porque era amiga do peito, conselheira e cúmplice de muitos mambos e segredos. A seguir, cito D. Maria Eugénia Cruz, mãe da Marília e sofrida esposa e viúva do grande Viriato Francisco Clemente da Cruz. Também era, por afinidade, tia da dra. Regina Queiroz, sobrinha de Viriato e pessoa que muito estimo e respeito. Quero que saibam todos, que partilho a mesma dor pela perda de ambas!

A São era o símbolo da amizade desinteressada. Seguindo-me nas lides associativas, mostrou-se nos muitos anos da nossa convivência e vizinhança, sempre como pessoa leal, que sabia cativar e juntar outras, tanto para abordar causas justas, como para dar vida a encontros que eram sempre festa. Nos muitos almoços e jantares – que só ela sabia organizar – criou e cimentou amizades, não negando nunca favor a amigos, foi dividindo respeito e carinho, nunca os negou, fosse em momento enfeitado com ritmo de semba ou saboreando a frescura de um bom copo de cerveja!

D. Maria Eugénia viveu na sombra, muitos dos anos que constituíram o resto dos seus dias. Acumulou dias de incompreensão, incerteza, solidão, tristeza, todas essas marcas de dor, muito visíveis no seu rosto e na sua forma de estar. Apesar disso, esteve sempre na linha da frente de uma luta maior que ela própria. A luta pela dignidade! Hoje, no meio da dor que me magoa, sinto-me feliz ao recordar o modo como a conheci e a convenci, num certo dia, a sair de casa, aceitando visitar a Chá de Caxinde, num dia de actividade recreativa com momento cultural. Dias antes, em sua casa e na presença dos camaradas Ingo, Cassé e Cristina Pinto, já me havia contado em desabafos doridos, coisas inacreditáveis do seu percurso, que marcavam bem aquela presença forte, mas triste e infeliz. Fiquei a saber coisas que desconhecia e já me tinham chegado e, que, ao longo dos anos, fui confirmando!

Não podendo fazer mais nada neste momento, vergo-me perante a dor destas perdas irreparáveis e homenageio tanto a coragem política, quanto enalteço a dor causada pela amizade. Ofereço, pois, com estas palavras e com o mesmo sentimento de tristeza, flores feitas de dor e de ternura, presas a um laço com dedicatória: memória a duas mulheres maravilhosas marcadas pelo destino!

2– O empresário Bartolomeu Dias mostrou-se zangado, disse umas coisas desagradáveis que há uns dias, escutei em gravação de áudio. Resultado: agora está, aparentemente, metido em problemas! Será julgado, juntamente com o ex-ministro das Relações exteriores, Georges Chikoty. Só pode ser por maka grossa. Independentemente das suas razões, o facto leva a pensar. Será que a Justiça angolana segue novos caminhos ou, contrariamente, avisa que os cidadãos que se mostrem zangados e manifestem descontentamento pelo modo como o País está a ser dirigido, abraçam causa passível de ser julgada? É bom estar-se atento e saber-se destas coisas!

Enquanto isso, a elevada voltagem emocional para as contas eleitorais na liderança do MPLA, levam certos doutorados em Direito e da moderna História de Angola a mostrarem-se. Especializam-se, em questões da justiça política que mais lhes convém. Descobrem estratégias que obrigam, num contexto específico, a entregar a bola bem jogada aos capitães que estejam em alta, mesmo que estes sejam antigos adversários. Temos de gabar a mestria que mostram em distorcer o debate político e as regras que regem o seu universo. Revelam, entre os seus inúmeros dotes, uma outra virtude. Não conhecem o significado da palavra limite!

3 – A grande maka despoletada por Cristiano Ronaldo, o idolatrado CR7, contra Jorge Jesus, atingiu o impensável. Quase sem querer, JJ, que há muito considero um dos melhores treinadores da actualidade, a nível mundial, veio pôr a descoberto uma realidade que nem sempre é bem entendida, muito menos aceite. A idade é imparável, não se compadece com ninguém, seja ele miserável ou milionário. A sua lei é incontornável e é aplicável a todo o ser humano. Não responde aos íntimos desejos de ninguém, por mais legítima que seja a luta que se trave contra a impotência. A maka desnudou, a eterna questão do kumbú. O que me leva a perguntar: se é tanta assim a influência de CR7 na FPF, como será quando ele atingir os 1000 golos ou quando chegar a hora da indesejável reforma, por limite de idade?

O futebol, numa das suas mais tristes demonstrações, onde o ego desmesurado dos protagonistas e a estupidez e vaidade de alguns torcedores, se atiram descaradamente contra a sensatez de gente lúcida.

Ah! Ia-me esquecendo que Benfica não joga esta semana. Falaremos do Glorioso para a outra que vem. Assim sendo, despeço-me dos meus estimados leitores, dos familiares, dos camaradas, companheiros de luta e amigos. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 4 de Outubro de 2026

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