
O que se espera do Estado angolano não é apenas um gesto simbólico de luto, nem discursos emocionados. O que se espera é coragem política para enfrentar a verdade histórica, por mais dolorosa que ela seja.
A comunicação ao país feita pelo Presidente da República de Angola, anunciando o dia 22 de Maio de 2026 como Dia de Luto Nacional, foi em resumo o apontamento de menor utilidade proclamado. Enquanto as bandeiras dos edifícios públicos desciam a meia haste, o povo permanecia entregue à luta diária pela sobrevivência.
À falta de coragem para enfrentar assuntos tão delicados, resolveu o Presidente, mais uma vez, fazer troar o pregão da reconciliação. Como substituto da verdade, e impingir o perdão e o abraço como se quem perdeu familiares, — sobretudo da maneira desumana como o desaparecimento se deu — estivesse na disposição de estreitar os ossos com os carrascos.
É lamentável que se queira, desta forma quase festivaleira, mas transmitida num tom grave e solene, dar por encerrado um assunto doloroso para os familiares das vítimas, incómodo para o Estado, displicente para o MPLA, o qual, até hoje, sobre o assunto, não tugiu nem mugiu.
Que contrariedade atemoriza este poder, que não quer resolver a questão recorrendo à verdade?
Disse o Presidente, na primeira parte da sua comunicação à Nação, já se ter entregue algumas ossadas dos até então desaparecidos. Contudo, como é sabido, o que os familiares receberam não passou de uma artimanha enganadora, pois, concluído o teste do ADN, não houve correspondência. Quer dizer que as ossadas que se diziam de A, afinal eram de B; com a agravante de não se conhecer o B. Então, o que se entregou não constitui uma reparação, mas antes um novo sofrimento, agravado pela dúvida e pela desconfiança, que resvala para a identidade dos que foram entregues em caixão fechado, permanecendo a dúvida; senão, provem-no.
Diz a sabedoria popular que “Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita”, então, imagine-se a trapalhada quando o número de ossadas se ampliou, “aparecendo” mais de seiscentas. Um número concordante com outros tantos nomes de uma lista, onde se descobrem pessoas que estão vivas. Será a ressurreição? Outras há que foram assassinadas noutras províncias do país, mas que migraram para o Catorze. Outro milagre? E talvez seja por isso que João Lourenço, finalizou a sua comunicação à nação qualificando-a: próspera e abençoada.
No quadragésimo nono aniversário do “27 de Maio de 1977”, vou ater-me nos meandros da antropologia forense.
A verdade histórica não pode ser conseguida com base em incertezas, e é aqui que a antropologia forense assume uma importância determinante. Num processo sério de exumação, especialmente em valas comuns, cada etapa exige um rigor absoluto; no Catorze terá sido assim? O local foi escavado cuidadosamente para preservar evidências; os restos humanos foram catalogados, analisados e submetidos a testes científicos? Quais? Os vestígios deixados pelos corpos foram analisados para se poder determinar a identidade e as circunstâncias da morte?
Todas estas interrogações não são demais quando se trata de direitos humanos. Aqui, os restos mortais transformam-se em testemunhos silenciosos contra aqueles — os carrascos — que acreditaram ter eliminado para sempre as suas vítimas. Um corpo exumado pode desmontar versões oficiais ao revelar práticas de tortura, execuções tétricas, intenções de ocultação, mas também pode devolver nome aos desaparecidos e dignidade às famílias. É essa competência para revelar a verdade que geralmente incomoda os poderes políticos. O que se espera do Estado angolano não é apenas um gesto simbólico de luto, nem discursos emocionados. O que se espera é coragem política para enfrentar a verdade histórica, por mais dolorosa que ela seja.
Não existe reconciliação sem verdade.
Não existe perdão sem justiça.
Não existe paz duradoura construída sobre dúvidas, silêncio e memória amputada.










