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Sente-se a incómoda presença de uns certos passarões, do tipo kilombelombe, sobrevoando cercanias do poder. São figuras de estilo que chegam a assustar o medo. Desavergonhadas, nascidas do acaso, perderam o respeito por todos e por si mesmas, inclusive.

“O Estado não é neutro, nem representa o bem comum”
(Karl Marx)
1 – O conceito de Estado na visão da sociologia, presta-se a várias interpretações. Leigos, como eu, sujeitam-se a erros ao atreverem-se a aplicar conceitos sociológicos de Povo e Estado na Angola dos nossos dias. Estudiosos como o meu amigo Mário Duarte, facilmente topam essas lacunas. E identificam-nas, naturalmente. Portanto, não posso deixar de agradecer o reparo do Mário Duarte. Daí, o sinal na abertura da minha crónica de hoje. Propositado, puxando a máxima do velho Marx, ainda hoje debatida e refutada por várias correntes filosóficas. Prometo que, fugindo ao liberalismo, tentarei melhorar o estudo das diferenças existentes entre a sociologia e a filosofia, tão tarde e precariamente abraçado.
2 – O Mundial de Futebol perdeu, para mim, a sua pouca graça, agora que os africanos foram totalmente ruados da prova. Na semana passada, em que ainda se dava alguma luta, falei do Marrocos e do Egipto, referindo-me a esses países do Norte do nosso Continente, como representantes da África branca. Felizmente, tenho bons amigos, sempre atentos ao que escrevo. A Maria João e o Pepe chamaram-me a atenção, pelo facto dessa designação ser cada vez mais evitada por especialistas, por derivar de lógicas coloniais, que ignoram a diversidade cultural e étnica do continente. O Pepe ainda ajudou mais, lembrou os muitos indivíduos escuros com que se cruzou nos desertos da Argélia. Obrigado, amigos, pelos pertinentes reparos.
3 – O Jornal de Angola, na sua edição do dia 8, destaca nas suas páginas dedicadas a Política: a) “José Eduardo dos Santos morreu há quatro anos”. A notícia relata acções e méritos que elevaram o antigo Chefe de Estado, atitudes até agora muito pouco mencionados na comunicação estatal, desde o seu passamento.
b) Ainda nessa página, noticia-se a abertura do “Seminário sobre Contratação Pública” promovido pela Assembleia Nacional. Do acto solene, ficou registada a alocução, devidamente sublinhada no texto, do doutor Adão de Almeida, Presidente do Parlamento angolano: “Se não houver integridade, não há eficiência, não há boa governação”. Sinceramente, gostei de ler ambas as notícias.
4 – Este é um modelo prático e sem custos. Uma forma de marketing que adoptei. Ofereço assim, aos meus leitores, mais uma curta mostra do meu relato crítico romanceado “Viva este povo maravilhoso”, prestes a sair em livro:
“…A tasca do Maculusso situa-se nas imediações do antigo “Bar Paraíso”. Funciona no rés-do-chão dum prédio velho, do tempo do colono. Confina com um largo onde antigamente, lembram os kota, os pássaros se juntavam em bandos barulhentos no cimo de frondosas acácias rubras, que enchiam o quarteirão. Hoje, naquele sítio, quase já não se vêm árvores, nem sequer passarinhos.
Longe vai o tempo em que se dava importância à raiz, ao tronco e à flor, sustentáculos da vida das árvores. Tratavam-se com cuidado os seus ramos e dava-se especial atenção à sua posição na floresta. Hoje, parece que ninguém mais se preocupa com elas. É dessa ausência que nasce a saudade do arvoredo denso daquele tempo dos paus fortes, vistos sempre como símbolos da força de uma Nação.
Numa analogia da vida, sente-se as árvores como se sente a política. Fica-se com a sensação de já não interessarem às pessoas. Não merecem a importância do antigamente. Hoje em dia, entre muitas más-vontades, está a revelar-se o espírito maldoso que as maltrata, só comparável ao rude golpe desferido pelo madeireiro, quando as derruba sem dó nem piedade. Os cortadores de árvores, tal como os políticos, são hoje, mais do que ontem, os inimigos da floresta. Tem sido assim, nessa viragem estranha da vida, que as árvores têm perdido espaço no nosso imaginário. Delas, tal como da política, já não se espera nada, só se espera o zero, nalguns casos, o nada absoluto. Infelizmente, parece já não haver, nem esperança nem bons exemplos que ajudem a pensar o contrário.
Perderam-se as dúvidas. Nesse fenómeno particular da floresta, a época dos milagres passou!
Não há troncos nem se vêm, de nenhuma espécie, as árvores que constituíam a floresta do nosso contentamento. Parece terem sido arrasadas das matas. Mas, sabe-se, elas não acabaram. Existe muita árvore no imenso bosque da Angola profunda!
Vive-se apenas uma época, um dilema!
Para além da sombra que vai faltando, escasseiam também as flores. E ainda as plantas de apoio com as suas folhas em forma de biombo que sempre valem a pena ver crescer. Mostram-se pormenores, como a greve dos passarinhos que deixaram de cantar lá em cima, no alto das acácias rubras. Andam agora dispersos, despassarados, inseguros, por rumos incertos e em voos desarticulados. Parecem incapazes de levantar voo e bater asas com a alegria de antigamente. Não transmitem mais felicidade a quem anda cá por baixo, a vê-los voar alto, ao lado da esperança. Já não se ouve aquele chilrear cantado para a gente e para a terra. Nem os assobios sibilinos e malandros se escutam mais, não há som que modifique o tristonho panorama. Sente-se, isso sim, a incómoda presença de uns certos passarões, do tipo kilombelombe, sobrevoando cercanias do poder. São figuras de estilo que chegam a assustar o medo. Desavergonhadas, nascidas do acaso, perderam o respeito por todos e por si mesmas, inclusive. Emporcalham o ambiente no convívio estreito que estabelecem com outras aves agoirentas, particularmente com as da família dos abutres. Mostram o quanto o mundo está a mudar. Perigosamente, e para péssimo. Angola já faz parte desse mundo miserável.”
Despeço-me dos meus estimados leitores, dos meus familiares, amigos, camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 12 de Julho de 2026










