
Geralmente, tenho publicado as minhas crónicas no sábado. Porém, hoje, 25 de Maio, o continente africano celebra o Dia Mundial de África. E, vou abrir uma excepção. Não se trata apenas de uma data simbólica. É um momento de reflexão profunda sobre o passado de resistência, o presente de desafios e o futuro que continua a ser disputado entre sonhos de soberania e as velhas correntes da dependência.
A África é o berço da humanidade, mas continua paradoxalmente a ser tratada como periferia do mundo. O continente que ofereceu ouro, diamantes, petróleo, cobre, cobalto, urânio, manganês, coltan e até força humana para alimentar o desenvolvimento das grandes potências, permanece ainda marcado por pobreza estrutural, conflitos armados, corrupção e desigualdades gritantes.
A ironia histórica é dolorosa: os países mais ricos em recursos naturais são muitas vezes os mais pobres em condições de vida para os seus povos. A República Democrática do Congo possui minerais essenciais para a tecnologia moderna, mas milhares de crianças continuam a crescer no meio da violência e da miséria. Angola exporta petróleo há décadas, mas ainda luta contra enormes fragilidades sociais. O Sahel africano vive sob a ameaça permanente do terrorismo, enquanto multinacionais estrangeiras continuam a explorar riquezas estratégicas da região.
Mas reduzir a África à tragédia seria igualmente uma injustiça histórica.
O continente africano vive também uma transformação silenciosa, mas poderosa. A juventude africana começa a redefinir o futuro com criatividade, tecnologia, empreendedorismo e consciência política. Lagos, Nairobi, Kigali, Joanesburgo, Cairo e Accra tornaram-se centros emergentes de inovação digital, cultura urbana e novas economias criativas. A música africana conquistou o mundo. O afrobeat, a literatura africana contemporânea, o cinema e a moda passaram a ocupar espaços globais antes monopolizados pelo Ocidente.
No entanto, o maior desafio de África talvez continue a ser político e institucional.
Muitos Estados africanos herdaram fronteiras artificiais impostas pela Conferência de Berlim de 1884-1885, onde as potências coloniais dividiram o continente como quem reparte um mapa sem povos nem culturas. Décadas depois das independências, várias lideranças africanas ainda governam com mentalidade colonial: concentração excessiva do poder, culto da personalidade, repressão das vozes críticas e instituições frágeis. O saudoso Dr. António Agostinho Neto defendia uma África unida, soberana e culturalmente consciente. Kwame Nkrumah sonhava com os “Estados Unidos de África”. Thomas Sankara falava de dignidade económica e libertação mental. Patrice Lumumba alertava contra o neocolonialismo. Muitos desses sonhos continuam incompletos.
Hoje, o neocolonialismo já não chega apenas com soldados e bandeiras estrangeiras. Surge através da dívida externa sufocante, dos acordos económicos desiguais, da manipulação geopolítica, da dependência alimentar e até do controlo tecnológico. África exporta matéria-prima barata e importa produtos caros. Continua muitas vezes consumidora daquilo que poderia produzir.
A questão central permanece: quando é que a África deixará de ser apenas fornecedora de riquezas para se tornar plenamente dona do seu destino? Ainda assim, há razões para esperança.
A criação da Zona de Comércio Livre Continental Africana representa um passo importante para a integração económica. O crescimento demográfico africano poderá transformar o continente na maior força de trabalho jovem do planeta até 2050. A consciência pan-africanista ressurge entre as novas gerações. Cada vez mais africanos exigem transparência, boa governação e respeito pela dignidade humana.
O futuro de África dependerá menos das promessas estrangeiras e mais da capacidade dos próprios africanos em reconstruírem instituições fortes, investirem seriamente na educação, ciência, agricultura, industrialização e sobretudo na valorização da identidade cultural africana.
Porque nenhum continente se desenvolve verdadeiramente odiando a sua própria memória.
O Dia Mundial de África deve ser mais do que celebração folclórica de tecidos coloridos e discursos protocolares. Deve ser um grito de consciência continental. Um apelo à unidade. Um compromisso colectivo contra a corrupção, contra os conflitos internos e contra a eterna dependência externa.
A África não precisa de piedade. Precisa de justiça histórica, liderança visionária e coragem política.
O continente berço continua jovem, vibrante e cheio de possibilidades. Apesar das feridas, África permanece de pé. E talvez o maior sinal da sua grandeza seja precisamente este: depois de séculos de escravidão, colonização, pilhagem e guerras, ainda continua a acreditar no amanhã.
Viva África. Viva a dignidade dos seus povos. Viva o sonho inacabado de uma África verdadeiramente livre, unida e próspera.
Tenho dito.










