A chamada abertura é uma ilusão. É a metamorfose de uma ditadura que troca a farda verde-oliva pelo fato de empresário, mas mantém o dedo no gatilho. O capitalismo de Estado dinástico não é transição, é conservação. É a forma que a família Castro encontrou de sobreviver ao século XXI sem entregar o poder. Enquanto o mundo debater se levanta ou mantém o embargo, a verdadeira decisão está em Havana…

Como as reformas económicas de emergência e a ascensão da terceira geração da família Castro, desenha-se um modelo de enriquecimento duma elite sem liberdades civis.
I- Introdução: A mutação camaleónica do regime
Cuba encontra-se num ponto de não retorno. O colapso sistémico do modelo centralizado, evidente nos apagões diários que paralisam o país, na escassez severa de alimentos e na falência dos serviços públicos, forçou o regime de Havana a abandonar o purismo ideológico. Nesta deriva pragmática, a Direção do Partido Comunista de Cuba já não fala nem dos princípios do Socialismo definidos por Karl Marx, nem muito menos se lembra do Apóstolo José Martí, que falava duma Pátria com todos e para o bem de todos. Confrontado com a bancarrota total e o asfixiante embargo energético e financeiro reconfigurado por Washington, o governo cubano avançou com o mais drástico pacote de reformas desde a revolução de 1959. O plano, composto por cerca de 176 medidas macroeconómicas apresentadas à Assembleia Nacional, autoriza a entrada de bancos privados, elimina o monopólio estatal sobre o comércio externo, permite a contratação livre de pessoal e abre portas à venda de activos estatais a entidades nacionais e estrangeiras.
Contudo, quem antever nestas medidas o prenúncio de uma transição democrática, labora num erro crasso de análise política. Longe de ser uma abertura genuína, o que se está a verificar na ilha, tal como noticiado pela Associated Press em La Habana, no dia 19 de junho de 2026, é uma mutação estratégica. Sob o lema implícito do “fazemos já e legalizamos depois”, o regime avança para a privatização de facto dos bens fundamentais do país. Sem um marco legal robusto ou independente, o objectivo final é claro: transitar da velha ditadura militar comunista para um Capitalismo de Estado dinástico, onde a riqueza muda de mãos e de formato, mas o poder político e as liberdades cidadãs permanecem rigidamente amordaçados.
II- O Embargo vs. o capricho do modelo interno: a verdadeira raiz da crise
Neste debate, a narrativa oficial de Havana apressa-se sempre a apontar o dedo ao embargo económico norte-americano, o chamado bloqueio, como o único culpado de todas as misérias da ilha. Embora a aplicação de medidas de carácter extraterritorial contra um país soberano seja alvo de legítima contestação no xadrez diplomático internacional, a sua utilização como justificação universal não resiste a uma análise económica rigorosa. O embargo actua, indiscutivelmente, como um agravante externo; contudo, a causa fundamental do fracasso histórico da economia cubana não reside fora das suas fronteiras, mas sim no capricho ideológico de manter um modelo económico falido, que tem dilapidado sistematicamente inúmeras oportunidades de desenvolvimento.
A crise cubana é o resultado directo da asfixia da iniciativa privada, da hipertrofia burocrática e da recusa em descentralizar a produção. Cuba não faliu por estar isolada do mundo; faliu porque as suas dinâmicas internas impedem a criação de riqueza, preferindo a escassez igualitária à liberdade económica. O regime sufoca as forças produtivas internas, para evitar que a autonomia financeira dos cidadãos se transforme, eventualmente, em contestação política.
III- O caso paradigmático dos bilhões russos e o buraco negro da energia
O exemplo mais escandaloso e flagrante desta incapaciade de gestão, ou desvio deliberado de fundos, encontra-se na actual ruína do sistema energético nacional, responsável por mergulhar a população em apagões intermináveis. Conforme ratificado formalmente pela Duma Estatal da Rússia e detalhado em relatórios financeiros de Moscovo, o governo de Vladimir Putin perdoou formalmente 90 por cento da dívida bilateral histórica de Cuba, um montante totalizado em 31,7 mil milhões de dólares, do total de 35,2 mil milhões de dólares herdados do período soviético. Além disso, contratos bilaterais assinados a partir de 2015 e ratificados em comissões intergovernamentais, injectaram créditos adicionais específicos de 1,2 mil milhões de euros, geridos por bancos estatais russos e destinados estritamente à reabilitação dos blocos energéticos obsoletos, das centrais termoeléctricas de Máximo Gómez e Este Habana. A realidade actual, porém, desmitifica por completo a desculpa do bloqueio.
– Falta de transparência absoluta: até ao dia de hoje, ninguém na administração cubana consegue explicar, de forma auditável e pública, onde foi parar o dinheiro enviado por Moscovo. O capital simplesmente esfumou-se.
– O colapso por ineficiência: enquanto os fundos milionários desapareciam nos meandros opacos do Estado, a infraestrutura eléctrica nacional colapsou por completo.
– Prioridades invertidas: Em vez de canalizar o capital injectado pelos aliados para salvar o fornecimento eléctrico do povo, o modelo cubano priorizou investimentos milionários na construção de hotéis de luxo, através do GAESA. Esta desconexão expõe uma elite que prefere salvaguardar os seus negócios turísticos, a garantir o bem-estar básico dos seus cidadãos.
O caso dos fundos russos prova que, quando o capital existiu e veio em abundância de parceiros estratégicos, o modelo encarregou-se de o neutralizar sem gerar qualquer retorno.
IV- A ilusão dos salvadores estratégicos: China e Rússia
A propaganda de Havana sustenta-se, frequentemente, na esperança perene de que aliados de peso global, como a China ou a Rússia, actuarão como os eternos salvadores da pátria económica. No entanto, a ideia de que Cuba constitui um parceiro estratégico capaz de absorver e rentabilizar investimentos destas potências, não resiste mais à mínima análise económica ou geopolítica.
Nem Pequim nem Moscovo operam como instituições de caridade; ambos os países regem-se por um pragmatismo estrito, e esperam um retorno financeiro ou uma vantagem geopolítica clara. O que o modelo cubano oferece, em contrapartida, é um histórico crónico de incumprimento de contratos, ineficiência na execução de projectos e falta de garantias jurídicas. O sistema cubano comporta-se como um verdadeiro buraco negro para o investimento estrangeiro. O medo político de que o sucesso de investimentos sérios crie espaços de liberdade económica, faz com que o próprio regime sabote a eficácia desses capitais. Consequentemente, o salvamento nunca aparece, porque nenhuma potência económica, por mais aliada que seja, está disposta a subsidiar indefinidamente um modelo que destrói o valor do dinheiro que recebe.
V- O GAESA e a ascensão da terceira geração
Para compreender quem herdará a nova Cuba privatizada, é necessário olhar para os bastidores financeiros do regime: o GAESA (Grupo de Administração de Empresas S.A.). Este gigantesco e secreto conglomerado militar, fundado sob a égide de Raúl Castro, controla as joias da coroa da economia cubana. Estima-se que o GAESA seja responsável por gerir entre 40 a 70 por cento dos sectores produtivos e do PIB do país, controlando desde os hotéis de luxo e redes de supermercados dolarizados, até aos portos, bancos e sistemas de transferências de remessas.
A privatização em curso não obedece a concursos públicos legítimos, funcionando antes como um jogo de cartas marcadas. Conforme publicado pela Associated Press em La Habana, no dia 19 de Junho de 2026, os activos e as novas autorizações para fazer negócios estão a ser estrategicamente direccionados para manter a sobrevivência da elite. No centro desta engrenagem surge a terceira geração da revolução. Em reportagens do Miami Herald, publicadas em Miami no dia 6 de Agosto de 2025, familiares directos de Raúl Castro têm defendido, publicamente, a necessidade inevitável de diversificar a economia e a forma de fazer negócios, afirmando procurar um modelo económico “muito cubano”.
Esta movimentação confirma diagnósticos publicados no Diário de Cuba, a partir de La Habana, e analisados por Pavel Vidal Alejandro em elTOQUE, em 8 de Agosto de 2025: sem a legitimidade histórica dos que combateram na Sierra Maestra, a descendência biológica da liderança castrista posiciona-se para ser a proprietária directa das riquezas do país. O antigo aparato estatal transforma-se num negócio privado de compadrio oligárquico, onde os laços de sangue garantem a imunidade jurídica e o controlo do capital.
VI- O modelo franco-vietnamita e o sacrifício do bode expiatório
A liderança cubana não esconde as suas referências. O próprio Presidente Miguel Díaz-Canel, admitiu perante jornalistas que as medidas de emergência económica se inspiram explicitamente, nos modelos da China e do Vietname. A fórmula é conhecida: introduzir o dinamismo económico de mercado para atrair divisas estrangeiras e aliviar a pressão interna, mas manter o monopólio absoluto do Partido Comunista sobre a sociedade, rejeitando liminarmente o pluralismo político e as liberdades civis.
Contudo, a transição cubana opera num cenário de extrema fragilidade socioeconómica, exigindo uma válvula de escape para o descontentamento popular. É aqui que reside a utilidade política de Miguel Díaz-Canel. Por não possuir consanguinidade castrista nem linhagem histórica, o actual Presidente funciona como o pára-raios ideal para a crise. Díaz-Canel é a face visível associada à inflação galopante, ao desmantelamento dos subsídios estatais tradicionais (como a eliminação gradual da libreta de racionamento) e à repressão policial violenta que esmaga os protestos dos cidadãos.
Como o poder fáctico reside nas Forças Armadas e na família Castro, Díaz-Canel é uma peça burocrática descartável. Se a panela de pressão social ameaçar explodir de forma incontrolável, o núcleo duro militar sacrificará o Presidente sem hesitação. O seu descarte será vendido à comunidade internacional e ao povo, como uma punição por má gestão, servindo de fusível para aliviar a tensão sistémica, enquanto os herdeiros e generais do GAESA preservam o seu império financeiro intacto e livre de culpas.
VII- O dilema estratégico do exílio cubano
Esta reconfiguração de Cuba rumo ao Capitalismo de Estado, coloca a vasta diáspora cubana, sediada principalmente nos Estados Unidos, perante um dilema histórico monumental. Ao autorizar o investimento de cubanos residentes no estrangeiro nas novas Pequenas e Médias Empresas (MIPYMES), o regime de Havana tenta lançar uma rede de cooptação financeira sobre o exílio.
Este cenário gerou um debate intenso nas instâncias políticas norte-americanas. Conforme documentado em audiências da Comissão de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes dos EUA em Washington, existem fortes suspeitas de que muitas das novas MIPYMES independentes são, na realidade, fachadas controladas por indivíduos vinculados ao aparelho estatal cubano, o chamado MIPYMES Loophole. Conforme publicado pelo The Wall Street Journal em Nova Iorque, figuras da política externa de Washington têm alertado, que o GAESA continua a usurpar as riquezas e a reter o controlo de mais de 40 por cento dos sectores económicos fundamentais, tornando o surgimento de um sector privado verdadeiramente livre, uma quimera sem a prévia destruição deste império militar.
O exílio enfrenta assim uma bifurcação ética: por um lado, o desejo legítimo de enviar remessas e investir para aliviar a miséria de familiares na ilha; por outro, o risco de funcionar como a banca privada de emergência que oxigena o regime. Investir nesta Cuba renovada sem exigir, em contrapartida, a libertação dos presos políticos, a legalização de sindicatos independentes e reformas políticas profundas significa, na prática, financiar a transição da elite castrista para uma nova oligarquia corporativa.
VIII- Conclusão: um negócio de família
A análise crua e factual dos acontecimentos desmistifica tanto a narrativa oficial de continuidade socialista, como a ilusão ocidental duma transição democrática pacífica orientada pelo mercado. Cuba está a ser privatizada à pressa nas sombras, sob uma lógica opaca de conveniência política.
O futuro que se vislumbra para a ilha não contempla a consagração dos direitos humanos ou o respeito pelas liberdades civis. Quando a poeira da crise assentar, as reformas económicas de mercado terão cumprido o seu papel de salvaguarda dinástica. O cidadão cubano comum continuará empobrecido e privado de voto, mas o cenário terá mudado: a ilha deixará de ser uma ditadura ideológica clássica, para passar a operar formalmente como uma corporação privada de capital fechado, cujo controlo accionista pertence inteiramente à família Castro, aos seus descendentes e à sua cúpula militar.
IX- O Futuro Imediato: O Custo da Resignação
Se a transição para o Capitalismo de Estado dinástico se consolidar, o custo social para o povo cubano será ainda mais alto do que o da década de 1990. A abertura económica sem abertura política, cria uma nova classe de cidadãos de segunda categoria: os que não têm remessas em dólares, os que não têm parentes no GAESA e os que não têm acesso aos novos negócios dolarizados.
O resultado será um apartheid económico interno, onde hospitais para turistas convivem com clínicas sem antibióticos, onde hotéis de luxo têm luz 24 horas, enquanto bairros inteiros ficam às escuras, e onde o sonho de uma Cuba livre é substituído pela resignação de uma Cuba privatizada em família. O regime já não precisa do apoio ideológico da população. Precisa apenas da sua exaustão. O silêncio das ruas não será sinal de consenso, mas de fome, de medo e de desesperança.
A pergunta que fica não é se Cuba vai mudar. É quem vai ser dono de Cuba quando a mudança terminar. E pelo caminho que as coisas tomam, a resposta já está escrita nos contratos que nunca foram publicados, nas empresas que nunca foram a concurso e nos herdeiros que nunca foram eleitos.
X- Epílogo: a escolha que Havana recusa fazer
A encruzilhada cubana não é técnica, é moral. O regime pode escolher entre dois caminhos: abrir a economia e abrir a sociedade, ou privatizar o Estado e fechar ainda mais o país. A primeira via exige eleições livres, imprensa independente, tribunais sem partido e direito de greve. A segunda via exige apenas silêncio.
Até agora, Havana escolheu a segunda via com determinação. Cada medida de mercado vem acompanhada de uma nova lei para controlar as redes sociais. Cada autorização para uma MIPYME, vem com um fiscal do Partido na porta. Cada dólar de remessa que entra na ilha, fortalece o mesmo GAESA que controla os quartéis.
Por isso, a chamada abertura é uma ilusão. É a metamorfose de uma ditadura que troca a farda verde-oliva pelo fato de empresário, mas mantém o dedo no gatilho. O capitalismo de Estado dinástico não é transição, é conservação. É a forma que a família Castro encontrou de sobreviver ao século XXI sem entregar o poder. Enquanto o mundo debater se levanta ou mantém o embargo, a verdadeira decisão está em Havana: libertar o povo cubano ou libertar apenas os negócios da família. Até que essa escolha seja feita, tudo o resto é teatro. E o povo, como sempre, paga o bilhete com apagões, fome e exílio.
Em última análise, é imperativo que os leitores compreendam a real magnitude desta transformação. Este caminho, traçado com pinças pela elite militar, não conduz a uma prosperidade partilhada nem a uma economia de oportunidades justas; pelo contrário, este modelo de compadrio e privatização assimétrica leva, impreterivelmente, a que os ricos de hoje em Cuba sejam cada vez mais ricos, e os pobres, desprovidos de direitos e de moeda forte, sejam cada vez mais pobres.
Fontes Consultadas e Referências
– Associated Press (La Habana, 19 de junho de 2026): “Cuba passes sweeping free market reforms in biggest economic shift since revolution”.
– Europa Press (Madrid, 19 de junho de 2026): “La Asamblea Nacional de Cuba da luz verde a un paquete de reformas para liberalizar su economía”.
– Miami Herald (Miami, 6 de agosto de 2025): “Los dos gobiernos de Cuba: la economia secreta de GAESA a la sombra del Estado”.
– elTOQUE (8 de agosto de 2025): Análise de Pavel Vidal Alejandro, “Cuánto controla Gaesa de la economía cubana”.
– Bloomberg Línea (19 de junho de 2026): “Cuba aprueba 176 reformas para abrir su economía en medio de la pressão de Trump”.
– The Wall Street Journal (Nova Iorque): Artigos sobre dolarização da economia cubana e papel das remessas no financiamento do GAESA.
– US House Committee on Foreign Affairs (Washington): Relatórios e actas de audiências sobre Mipyme Loophole e financiamento indirecto a empresas ligadas ao regime cubano.
– US Department of State e US Department of the Treasury (Washington): Relatórios de monitorização e sanções financeiras aplicadas ao conglomerado militar GAESA.
– Reuters (Londres): Cobertura sobre créditos russos à modernização do sistema elétrico cubano, ratificação da Duma sobre perdão de dívida e falta de transparência na execução.
– Diario Estrategia (Madrid, 19 de junho de 2026): “La Asamblea Nacional de Cuba da luz verde a un paquete de reformas para liberalizar su economía” (Ref: 2d57f4f8379cbd094a9c060d).










