Talvez esteja na hora de abrir as janelas da República. Deixar entrar o vento da humildade. Sacudir os tapetes da bajulação. Limpar os espelhos da consciência. Porque a fumaça do ridículo pode esconder um homem por algum tempo. Mas nunca consegue esconder a verdade para sempre.

Há um ditado no musseque que diz: “Quando a panela começa a queimar, a fumaça não escolhe nariz”. Em Angola, a fumaça já não entra apenas pelas janelas; entrou nas instituições, nas igrejas, nas repartições públicas, nas empresas e até nas casas onde o espelho já tem medo de reflectir a verdade.
A fumaça do ridículo é aquela névoa invisível que transforma um homem comum numa espécie de semideus logo depois de lhe entregarem uma cadeira almofadada, um microfone ou uma viatura de matrícula oficial. É uma fumaça perigosa. Não mata de imediato. Primeiro tira a visão. Depois tira a audição. Finalmente tira o bom senso. E quando isso acontece, o líder deixa de ouvir o liderado. O chefe deixa de conhecer o subordinado. O pastor deixa de caminhar com o crente.
Começa então o campeonato nacional do “Sim, Chefe”!, modalidade olímpica onde o vencedor é aquele que bate mais palmas e pensa menos.
Em Luanda, dizem que há chefes que já não entram pela porta principal. Entram pela porta do ego. No Kinaxixi, contam que existem dirigentes que precisam de três secretárias apenas para lhes dizerem “Bom dia“. No Rocha Pinto, um funcionário jurava que o director já não bebe água. Só bebe elogios. No Cazenga, outro dizia que o patrão não tem relógio. O tempo é que espera por ele. E no Sambizanga, um kota soltou a sentença: “Meu filho, esse já não fuma cachimbo. Fuma vaidade”.
A relação entre líder e liderado foi sendo substituída por uma estranha distância protocolar.
Antes havia respeito. Hoje há medo. Antes havia autoridade. Hoje há autoritarismo. Antes havia orientação. Hoje há decoração.
O gabinete tornou-se mais importante do que o trabalho. O cartão de acesso vale mais do que a competência. O crachá pesa mais do que o carácter. O título fala mais alto do que a consciência.
Nas empresas, há chefes que tratam os subordinados como se fossem pilhas descartáveis. Quando ainda têm carga, usam. Quando descarregam, deitam fora. Depois aparecem nas conferências a falar de “capital humano”, enquanto o trabalhador continua à espera do salário, da promoção e, sobretudo, do respeito.
Nas igrejas, a fumaça também entrou. Há pastores que esqueceram que o cajado serve para conduzir o rebanho e não para medir a distância entre o altar e o povo. O púlpito virou palco. A humildade virou figurino de domingo. E alguns crentes passaram a competir para descobrir quem consegue dizer o “Amém” mais alto, esperando que Deus confunda volume com fé. O Reino dos Céus nunca funcionou por cartão VIP. Mas há quem tente criar fila preferencial até para a salvação.
Na política, então, a fumaça ganhou estatuto de património nacional. Durante a campanha, o candidato entra no bairro sem escolta. Abraça a mamã Fina. Cumprimenta o kota Mingo. Come funge com mufete. Bebe Quissangua. Dança kuduro. Sorri para toda a gente.
Depois da vitória…
Nem o GPS consegue encontrá-lo. O telefone responde por ele: o número que marcou encontra-se temporariamente indisponível para o povo.
O ridículo é que muitos liderados alimentam essa fumaça.
Quando o chefe chega atrasado duas horas, dizem: “Está em missão de Estado”. Quando o pastor muda de carro pela quarta vez no ano: “É prova da bênção”. Quando o dirigente esquece as promessas: “O programa ainda está em estudo”. Quando o patrão humilha um trabalhador: “É para disciplinar”.
Não. É para humilhar. E quem normaliza a humilhação fabrica futuros tiranos.
O poder não existe sozinho. Existe porque alguém o reconhece. Existe porque alguém o legitima. Existe porque alguém continua a acreditar que servir é mais importante do que ser servido.
O líder sem liderado não lidera. O chefe sem subordinado não chefia. O pastor sem crente prega para cadeiras vazias.
O maior perigo da fumaça do ridículo não é esconder quem manda. É fazer desaparecer quem deveria servir. No fim, todos respiram o mesmo ar. O ministro. O motorista. O general. O soldado. O bispo. O diácono. O patrão. O contínuo…
A morte nunca pediu currículo. Nem perguntou quem tinha gabinete climatizado. A História também não. Ela apenas pergunta: “Quando tiveste poder, serviste ou apenas foste servido”?
Talvez esteja na hora de abrir as janelas da República. Deixar entrar o vento da humildade. Sacudir os tapetes da bajulação. Limpar os espelhos da consciência. Porque a fumaça do ridículo pode esconder um homem por algum tempo. Mas nunca consegue esconder a verdade para sempre.
E como dizia um velho kota amigo sentado à sombra de uma mulemba, enquanto via passar uma longa coluna de viaturas de luxo: “Meu filho, quem sobe num pedestal para parecer maior esquece-se que, quanto mais alto sobe a vaidade, mais longe cai a dignidade”.
E, como não existe fumaça sem um ‘pingo’ de fogo, vou provocar a minha com uma boa cachaça quente.
Bom fim de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu










