NUNDA, NO SEU TARDIO SIMPLISMO ANTI-SAVIMBI

XAVIER DE FIGUEIREDO

A entrevista à TPA, que só agora tive oportunidade de ver, é, ressalvadas algumas incursões por banais assuntos, um libelo acusatório contra Savimbi. Entre os “mitos” com que muitos olham para Savimbi, vem à cabeça algo como o seu carácter intratável e violento. As bruxas mandadas para a fogueira também vêm à baila. 

Anos a fio, foi sempre respeitosa a maneira como olhei para Geraldo Sachipengo Nunda. Sabendo o que a vida profissional me ensinou sobre dissimulações e habilidades do MPLA, entre elas a sua “mão” sistematicamente presente em quase todas as dissidências da UNITA, nunca tive dúvidas de que também com Nunda foi assim. Ainda lhe concedo o benefício da dúvida de não o ver como um simples aliciado; antes como alguém cuja propensão para o dissídio foi aproveitada pelo regime.    

Nunda desertou da UNITA em 1992. Nos mais de trinta anos que até agora se seguiram cultivou quase sempre uma atitude de discrição e comedimento no que toca ao passado deixado para trás. Distanciou-se assim da estridente conduta de outros desertores, em geral sempre prontos a remeter para Jonas Savimbi, antes por eles venerado, todos os males de Angola e do mundo.  A quantas pressões não deve ter resistido para não entrar no coro? Vinha daí a minha consideração por Nunda.     

Conheci alguns desertores da UNITA, com um deles, Nzau Puna, posso agora revelá-lo, estabelecendo uma boa amizade, estendida no tempo até ao fim da sua vida. Nunda não fez parte desse rol. No seu caso por não ter correspondido a nenhuma das duas ou três manifestações de vontade de com ele conversar, que nesse sentido lhe fiz chegar. Fiquei sempre com a impressão de que não se quis “comprometer” ante aqueles a que responde.  

Ora da parte de desertores que conheci, ora por meio de próximos de outros que não conheci, mas ainda de outros que não entram em nenhuma das categorias, fiquei a saber o suficiente acerca do que o MPLA e as diferentes branches dos seus serviços especiais pretendiam daqueles que a sua engrenagem conseguia apanhar, em geral através de aliciamentos: pô-los a falar mal de Savimbi. Isso acima de tudo. 

A entrevista de Nunda à TPA, que só agora tive oportunidade de ver, é, ressalvadas algumas incursões por banais assuntos, um libelo acusatório contra Savimbi. Entre os “mitos” aos quais atribui o bom conceito com que muitos olham para Savimbi, vem à cabeça algo como o seu carácter intratável e violento, patente nas eliminações físicas de figuras como Valdemar Chindondo, Jorge Sangumba, Wilson Santos, Tito Chingunji.  As bruxas mandadas para a fogueira também vêm à baila. 

O conhecimento da história da UNITA de que é seguramente a de Nunda, a isso juntando a capacidade que até há pouco parecia exibir de olhar serenamente para ela,  não lhe devem suscitar dúvida alguma, repito, dúvida alguma, de que nenhuma de todas as mais proeminentes figuras que passaram pelo partido se iguala à de Jonas Savimbi, considerado sua dimensão de grande líder político – carismático, inteligente, destemido, guiado pelo exemplo.. 

É por isso que, a contrario sensu do que insinua Nunda, não se pode ver em nenhuma daquelas personalidades cujo desaparecimento físico insinua ter sido da responsabilidade de Savimbi, a condição de seus rivais políticos.  É o que um mínimo de honestidade intelectual manda fazer. Descrever algumas dessas figuras como “grandes referências” da UNITA, é uma maneira de as referenciar como “rivais políticos” de Savimbi. E deixar intuído que terão pago por isso. 

A grandeza real de Savimbi, reconhecida e exaltada por homens da estatura de Mandela ou Boigny, nenhum deles obedecendo a qualquer necessidade de o fazer, fez dele, isso sim, rival figadal do MPLA. Ao princípio como movimento de libertação que via nele ou na sua sombra um estorvo à sua afirmação ou, como também aconteceu, à sua sobrevivência. Depois como parti-Etat revolucionário, aplicado em dar-lhe caça como condição essencial para a seguir acabar com a UNITA por ele criada. 

Não sei se algum líder político terá sido tão persistente e implacavelmente perseguido como Savimbi o foi. No seu caso enfrentando um adversário, sempre o mesmo, o MPLA e o seu regime, determinado a recorrer aos meios que fosse preciso e sempre pronto a fazer seus os aliados ou cúmplices externos que lhe parecessem os melhores. Soviéticos, cubanos, leste-alemães, sul-africanos e israelitas, todos, à vez, desempenharam esse papel.    

Daquela imensidão de livros impecavelmente alinhados nas prateleiras da biblioteca pessoal de Nunda (a mesma que serve de backdrop à sua entrevista à TPA), deve haver obras que se debrucem sobre planos do MPLA para matar Savimbi descobertos ainda no tempo colonial e/ou de atentados à sua pessoa, como o que ocorreu na velha Silva Porto, esse estando já em curso o turbulento processo de descolonização de Angola. 

Já a vida que foi a de Nunda depois da independência, primeiro como alto quadro da UNITA, depois como grande oficial das Forças Armadas, essa deve ter-lhe servido de fonte de conhecimento preciso de planos posteriores do regime visando eliminar Savimbi, a começar pela destruição do seu prestígio através de campanhas de propaganda em que tudo valeu. Chefe terrorista, foi o último apodo que lhe colaram e com qual morreu.

O dedo em riste apontado a Savimbi, assim erigido em mandante ou autor das eliminações físicas de quadros dirigentes da UNITA, não deveria antes ser apontado a indivíduos próximos de si ou a órgãos internos incumbidos da missão de o proteger das ameaças que pairavam sobre a sua cabeça? É o que a racionalidade analítica manda fazer. O sentido de responsabilidade e a pressão com que exerce uma tão delicada missão tende a conduzir a excessos de zelo e às vezes pior.  É o que manda fazer uma análise fria de dados.  

O menos respeito por Nunda que a sua entrevista à TPA me levou a passar a ter por ele, vem também do seu alinhamento público com versões sobre realidades da tormentosa história de Angola, apresentadas de forma a atender a interesses do MPLA e do seu regime. Como a da ordem sub-repticiamente dada por Savimbi para, já em plena aplicação do acordo de Bicesse, fazer do curso do Luembe num valhacouto de boas unidades militares, porventura prontas para “actuar”.

O manancial de coisas que de ciência certa Nunda deve saber acerca de procedimentos de natureza semelhante também subliminarmente adoptados pelo regime do MPLA, no seu caso mobilizando meios e apoios muito mais substanciais! Que papel foi o dessa “máquina” nas matanças de Outubro de 1992, na voragem da qual milhares de pessoas, entre quadros da UNITA ou meros simpatizantes, perderam a vida em Luanda? 

Nunda, para mal dele, não ganhou nada com a entrevista. A oportunidade escolhida e o “disco rachado” a que se resumiu o seu discurso, serviram de pasto a conjecturas para ele desabonatórias. Uma delas a de que precisou de “mostrar serviço”. Ou como forma de renovar laços de lealdade ao regime ou como artifício destinado a favorecer um qualquer propósito de vida. O regime, determina a sua escola, nunca é indiferente a arengas contra Savimbi. 

Melhor fora que Nunda tivesse imitado Conrado, aquele cuja sabedoria o levava em certos momentos a guardar “prudente silêncio”. Nzau Puna, esse foi mais longe, levado por de certo sentimentos de grandeza e humildade. Não se coibindo de manifestar arrependimento por ter “traído” Savimbi ou marcando presença em Lopitanga para as cerimónias que em 2019 culminaram com a inumação das ossadas do velho líder da UNITA, finalmente libertadas da custódia em que o regime as mantinha desde 2002.   

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