
“Entre Trump e sus muchachos, o Papa Leão, Lula e os nossos habituais bifes políticos”
Meus caros mwangolês, sábado é dia de crónica. E, desta vez, o mundo está tão complicado que até o GPS da política internacional parece ter perdido o norte!
Donald Trump, o homem que entrou na Casa Branca com a convicção de que o planeta precisava de um administrador imobiliário, anda a descobrir que governar o mundo não é exactamente como comprar um terreno, levantar um muro e colocar uma placa com os dizeres: «Propriedade privada. Proibida a entrada!».
O “mwadié” prometeu “pulungunza”, grandeza, força e autoridade. Mas a realidade, essa senhora mal-educada que não respeita discursos presidenciais, começou a apresentar-lhe algumas facturas.
Trump e sus muchachos parecem ter descoberto que o mundo não é uma extensão do salão Oval, onde basta levantar o dedo, fazer uma publicação nas redes sociais e esperar que todos batam continência.
Até o Vaticano entrou na lista dos seus desentendimentos. O Papa Leão XIV, em vez de se limitar às orações à “Ngana Nzambi” e às bênçãos, resolveu lembrar ao poderoso inquilino da Casa Branca que a paz não se constrói com ameaças, bombas e demonstrações de musculatura militar.
E Trump, que não parece muito habituado a receber sermões sem poder interromper o pregador, também resolveu medir forças com o sucessor de Pedro.
Ora, meus irmãos, quando um Presidente quer ter sempre a última palavra, mas encontra um Papa que não precisa de votos americanos para falar ao mundo, a coisa começa a ficar interessante!
No capítulo brasileiro, Lula, o “Kota dos nove dedos”, também não parece disposto a receber lições de soberania por correspondência. O velho sindicalista, que já conhece os corredores da política como quem conhece os caminhos do seu bairro, continua a desafiar a arrogância trumpista. E o Brasil não é propriamente uma república de bananas para aceitar que Washington lhe escolha o cardápio político.
No Médio Oriente, a situação também não está para brincadeiras. O conflito com o Irão transformou a região num verdadeiro barril de pólvora. Entre operações militares, ameaças, retaliações e negociações que avançam dois passos e recuam três, a paz continua a ser aquela convidada que todos anunciam, mas que raramente aparece à festa.
E os muchachos de Trump? Alguns parecem soldados de uma banda musical que ainda não conseguiu decidir se vai tocar o hino da vitória, ou a marcha fúnebre das expectativas frustradas!
Mas, atenção: não estamos aqui a festejar “quitotas”, derrotas militares ou sofrimentos de povos. Estamos a rir da soberba dos poderosos e a lembrar que nenhum homem, por mais poderoso que seja, tem o monopólio da razão.
A política internacional está a ensinar uma velha lição: “quem confunde poder com omnipotência, acaba por tropeçar na própria sombra”.
E, como não podia deixar de ser, depois de passearmos pela Casa Branca, pelo Vaticano, pelo Brasil e pelo Médio Oriente, temos de regressar à nossa querida Angola. Porque aqui também há matéria suficiente para alimentar três temporadas de uma novela política, sem necessidade de importar actores!
E por falar em política interna, o MPLA já começou a aquecer os motores para o IX Congresso Ordinário, marcado para 9 e 10 de Dezembro. O camarada João Lourenço viu a sua candidatura à presidência do partido aprovada pelo Comité Central e, depois da exclusão das candidaturas de Higino Carneiro e António Venâncio, ficou como candidato único validado.
Ora, meus camaradas, a fotografia política ficou interessante! A corrida começou com vários interessados, mas, à medida que se aproximava a meta, alguns concorrentes foram ficando pelo caminho. No fim, o árbitro apitou e só um jogador permaneceu em campo!
Há quem veja nisso o cumprimento rigoroso das regras estatutárias. Outros levantam questões sobre a democracia interna e a competitividade do processo. O certo é que um congresso não deve servir apenas para confirmar quem já está sentado na cadeira. Deve também permitir discutir ideias, avaliar caminhos e preparar o futuro.
Porque, convenhamos, unidade partidária não pode significar unanimidade obrigatória, nem disciplina deve ser confundida com silêncio colectivo.
E a UNITA? Também anda com os seus termómetros políticos a medir temperaturas. O desagrado, as críticas e as inquietações fazem parte de uma democracia partidária que precisa de amadurecer. E, com agravante de insultos, ameaças e diatribes aos jornalistas e outros “stakeholders” que tentam questionar a verdadeira matriz politica do Galo Negro, tal como já fizeram a mim, e recentemente, a minha kamba Amélia Aguiar. Mas a oposição tem igualmente de perceber, que denunciar os problemas do adversário não substitui a obrigação de apresentar soluções credíveis para o País.
Não basta apontar o dedo ao MPLA. É preciso mostrar o que se faria de diferente, como se faria e com quem se faria. O eleitor de 2027 não quer apenas ouvir quem grita mais alto. Quer saber quem tem melhores respostas para os problemas da sua vida.
E depois temos a nossa histórica FNLA, que parece ter decidido transformar a sucessão partidária numa verdadeira novela de televisão!
Carlito Roberto, filho de Holden Roberto, foi eleito presidente num congresso extraordinário, mas a direcção ligada a Nimi a Nsimbi contesta a legitimidade do conclave e mantém a sua própria posição. Temos, portanto, uma organização histórica com duas legitimidades reclamadas e um só partido à procura de sossego.
Meus kambas, a FNLA corre o risco de transformar a memória gloriosa do seu fundador, numa disputa permanente pelo comando da herança política. Holden Roberto merece uma organização capaz de honrar a sua história, não uma formação eternamente ocupada a discutir quem manda na casa.
Afinal, quando os dirigentes passam mais tempo a disputar a chave da sede do que a conquistar a confiança dos cidadãos, o partido acaba por ficar fechado por dentro e esquecido por fora!
Mas voltemos ao assunto principal: a inércia política angolana.
Enquanto Trump recebe uma lição eleitoral dos americanos, Lula insiste na defesa da soberania brasileira, o Papa Leão XIV lembra que a paz também exige coragem e o Irão continua no centro de uma crise internacional perigosa, nós, em Angola, precisamos de perguntar: “onde está a grande discussão nacional sobre o futuro do País?”
Estamos a aproximar-nos de 2027. É tempo de sair da política dos aplausos automáticos, das conferências de imprensa para consumo interno, das reuniões intermináveis e das declarações que fazem muito barulho, mas deixam pouca transformação.
O MPLA precisa de compreender que a continuidade da liderança também exige renovação de ideias, práticas e resultados. A UNITA precisa de transformar o descontentamento numa alternativa governativa convincente. A FNLA precisa de resolver os seus bifes internos. E os restantes actores políticos precisam de perceber, que Angola não é propriedade privada de nenhuma organização.
O cidadão quer emprego, saúde, educação, água, energia, segurança, justiça e dignidade. Não quer passar mais cinco anos a assistir a dirigentes a disputarem microfones, cadeiras e fotografias de família.
Trump perdeu terreno político apesar de se considerar dono da razão. E a lição é simples: nenhum partido, nenhum Presidente e nenhum dirigente deve confundir aplausos dos seus apoiantes com aprovação de toda a sociedade.
“O poder não é uma herança vitalícia, a oposição não é uma profissão de protesto e a política não é um campeonato de egos”.










