A INDÚSTRIA É O ÚNICO DESTINO: POR UMA ANGOLA QUE TRANSFORMA, PRODUZ E EMPREGA

NÃO APENAS EXTRAI E EXPORTA (*)

JOAQUIM JAIME

Industrializar não significa repetir modelos ultrapassados ou ambientalmente insustentáveis. Angola tem a oportunidade de seguir uma via moderna, gradual e estratégica, baseada nas suas vantagens comparativas. Entre as prioridades destacam-se a transformação local de recursos naturais, o desenvolvimento da agro-indústria, as indústrias de substituição de importações, os materiais de construção e bens essenciais

Durante muito tempo, Angola foi apresentada ao mundo como um país abençoado pelos recursos naturais. Petróleo, diamantes, gás, terras férteis e rios caudalosos compõem um retrato de abundância que poucos países africanos podem reivindicar. Contudo, a experiência acumulada nas últimas décadas impõe uma constatação que causa desconforto: a riqueza do subsolo tarda a traduzir-se em desenvolvimento sustentável, nem em prosperidade duradoura, nem em estabilidade social.

O modelo de crescimento baseado na exportação de matérias-primas atingiu os seus limites. E é por essa razão que se impõe uma escolha estratégica e histórica: continuar a depender de um recurso cujo preço é definido fora do país, ou transformar a economia através da industrialização. Para Angola, a resposta não é mero capricho ideológico – é existencial.

O limite estrutural da economia extractivista

O sector petrolífero desempenhou um papel decisivo na reconstrução nacional e no financiamento do Estado. As receitas permitiram investir em infra-estruturas e inserir Angola nos fluxos da economia global. Mas essa mesma dependência criou fragilidades profundas: baixo nível de transformação local, reduzido valor acrescentado e fraca capacidade de geração de emprego.

Sempre que o preço do petróleo sobe, a economia beneficia temporariamente. Quando cai, surgem pressões cambiais, défices fiscais, inflação e dificuldades sociais. Esta dinâmica cíclica coloca em evidência que a riqueza baseada exclusivamente em recursos é instável e imprevisível. Mais ainda: uma economia excessivamente dependente de recursos tende a negligenciar o desenvolvimento de outros sectores produtivos, enfraquecendo a base industrial e tecnológica do país.

A industrialização como mudança qualitativa

Industrializar significa alterar a natureza do modelo económico. Em vez de exportar recursos em estado bruto, a indústria permite transformá-los, agregar valor e criar cadeias produtivas completas dentro do território nacional.

Um barril de petróleo exportado gera uma receita única. Mas quando esse petróleo é transformado localmente em combustíveis, produtos petroquímicos, plásticos, fertilizantes ou materiais industriais, passa a gerar valor de forma contínua – criando empregos, competências técnicas e receitas fiscais recorrentes. O mesmo princípio aplica-se aos minerais, à agricultura e a outros recursos naturais. A diferença entre um país rico em recursos e um país desenvolvido reside justamente na capacidade de industrializar esses recursos.

As múltiplas vantagens de uma economia industrial

A industrialização não responde a um único problema – responde simultaneamente a vários, e é essa multidimensionalidade que a torna insubstituível.

Diversificação e autonomia económica. Angola tem uma dependência histórica do sector petrolífero. O foco na indústria permite criar novos sectores – agro-indústria, produção de materiais de construção, têxteis – quebrando a dependência de uma única matéria-prima e estruturando uma economia real e auto-sustentável.

Emprego em larga escala. A indústria é um dos sectores que mais absorve mão-de-obra. Ao contrário do sector financeiro ou do petrolífero, altamente tecnológicos e intensivos em capital, as fábricas necessitam de trabalhadores de diversos níveis de qualificação. Técnicos industriais, operadores, mecânicos, engenheiros, gestores de produção e profissionais de logística são os pilares de uma economia moderna – e a base de uma classe média sólida, que não surge da distribuição de rendas de recursos, mas do trabalho produtivo.

Redução das importações e fortalecimento cambial. Angola importa grande parte dos bens de consumo final. O facto de produzir localmente bens essenciais – alimentos processados, vestuário, ferramentas -, o país retém divisas que antes saíam para pagar fornecedores estrangeiros, fortalecendo o Kwanza e reduzindo a vulnerabilidade externa.

Aumento e sofisticação das exportações. Com uma base industrial sólida, Angola deixa de exportar apenas petróleo bruto e passa a exportar produtos manufaturados e de valor acrescentado, tanto para o mercado regional – aproveitando a Zona de Comércio Livre Continental Africana – como para o mercado global, aumentando as receitas do Estado.

Estabilidade social e soberania económica. A industrialização cria rendimentos estáveis, previsíveis e baseados no mérito e na qualificação. Fortalece a coesão social, reduz desigualdades extremas e cria expectativas de progresso. Além disso, gera uma base fiscal mais diversificada e previsível do que as receitas voláteis dos recursos naturais. No actual contexto caracterizado por tensões geopolíticas e rupturas nas cadeias globais de abastecimento, a industrialização é também uma questão de segurança nacional.

O papel complementar (e subordinado) do capitalismo financeiro

É importante clarificar uma distinção fundamental: enquanto o capitalismo financeiro lida com a circulação de capital, acções e títulos, frequentemente gerando riqueza abstracta, o capitalismo industrial foca na produção tangível de bens. Para Angola, é este último que responde directamente às necessidades de diversificação, industrialização, emprego e redução de importações.

Isto não significa dispensar o sistema financeiro. Ele é necessário – mas deve funcionar como meio, e não como fim. Angola precisa de um sector financeiro forte, incluindo a bolsa BODIVA, especificamente para conceder crédito de longo-prazo com juros sustentáveis aos industriais, atrair Investimento Directo Estrangeiro (IDE) e financiar as infra-estruturas necessárias – energia, água e estradas – para que as indústrias operem.

A política multissectorial de industrialização: uma exigência estratégica

Um erro recorrente no debate sobre o desenvolvimento angolano consiste em tratar a industrialização como uma pasta isolada – responsabilidade exclusiva de um ministério ou de um conjunto restrito de incentivos fiscais. Esta visão minimalista está condenada ao fracasso. A indústria não nasce por decreto nem floresce num vácuo institucional: ela é o produto de um ecossistema complexo que envolve educação, formação técnica, infra-estruturas, finanças, comércio, energia, agricultura, transportes e administração pública. Por isso, a industrialização de Angola exige uma política multissectorial -articulada, coerente e devidamente financiada.

Aprovar e financiar essa política não é um luxo de governação; é uma condição de sobrevivência económica. Sem uma abordagem integrada, os investimentos isolados perdem eficácia: uma fábrica moderna não funciona se não houver técnicos qualificados para a operar; um parque industrial não atrai investidores se não tiver energia estável e água assegurada; uma linha de produção não é competitiva se as estradas e os portos encarecerem o escoamento; e um empresário não investe se não tiver acesso a crédito de longo-prazo.

A educação e a formação técnica como alicerce

O primeiro pilar desta política multissectorial é, sem dúvida, o capital humano. Angola possui uma população jovem e em rápido crescimento – uma vantagem estratégica apenas se for convertida em competências. A indústria exige desde operadores de máquinas e soldadores até engenheiros, gestores de produção e especialistas em logística. Isto implica:

• Reforma do ensino técnico-profissional, alinhada com as necessidades reais das indústrias existentes e das que se pretende criar, incluindo parcerias entre escolas, empresas e centros de formação;

• Fortalecimento do ensino superior nas áreas de engenharia, química industrial, agronomia, tecnologia e gestão industrial, com incentivos à investigação aplicada;

• Formação contínua e requalificação profissional, para que os trabalhadores acompanhem a evolução tecnológica e para que a transição de uma economia extractivista para uma economia produtiva não deixe populações para trás;

• Alfabetização e competências básicas, sem as quais nenhuma política industrial pode ser inclusiva.

Sem este alicerce, qualquer plano de industrialização será uma casca vazia: fábricas sem trabalhadores qualificados, máquinas sem quem as compreenda, investimentos sem retorno.

A articulação com todos os sectores que influenciam a industrialização

A política multissectorial deve abranger, de forma explícita e coordenada, todos os domínios que condicionam a competitividade industrial:

• Energia e água – garantir fornecimento estável e a preços competitivos, condição primeira para qualquer operação industrial;

• Transportes e logística – estradas secundárias e terciárias, caminhos-de-ferro, portos e cadeias de frio, sem as quais a produção não chega ao mercado;

• Agricultura – enquanto fornecedora de matérias-primas para a agro-indústria e garante da segurança alimentar;

• Finanças – crédito de longo-prazo, instrumentos de garantia e um mercado de capitais funcional que sirva a economia real;

• Comércio e política aduaneira – protecção inteligente e temporária das indústrias nascentes, sem cair em proteccionismos que penalizem os consumidores;

• Ciência, tecnologia e inovação – transferência de tecnologia, digitalização e modernização produtiva;

• Administração pública e justiça económica – desburocratização, previsibilidade regulatória e combate à informalidade;

• Ordenamento do território e ambiente – parques industriais funcionais e uma industrialização ambientalmente sustentável.

Nenhum destes sectores, isolado, industrializa um país. Mas qualquer um deles, se falhar, pode inviabilizar a industrialização.

O financiamento como compromisso de Estado

Uma política multissectorial sem financiamento é uma simples declaração de muito boas intenções. Angola precisa de consagrar recursos estáveis e plurianuais a esta estratégia, através de instrumentos como um Fundo Soberano de Desenvolvimento Industrial (FSDI), linhas de crédito bonificadas, parcerias público-privadas e incentivos ao Investimento Directo Estrangeiro com transferência efectiva de tecnologia. O financiamento deve ser encarado como investimento estrutural – e não como despesa corrente -, com metas mensuráveis, avaliação independente e responsabilização política.

Para lá de ser um plano, trata-se de um compromisso nacional: o Estado, o sector privado, as universidades, os centros de formação e a sociedade civil devem partilhar objectivos e responsabilidades. A industrialização é um projecto de geração – e exige a coerência de uma política que atravesse todos os ministérios, todos os sectores e todos os orçamentos.

Os desafios estruturais que é preciso enfrentar

Seria desonestidade intelectual ignorar os obstáculos. A industrialização em Angola enfrenta desafios complexos que encarecem a produção nacional e reduzem a competitividade face aos produtos importados.

O défice no transporte e distribuição de energia eléctrica é o primeiro. Apesar da elevada capacidade de geração – graças a barragens como Laúca e Cambambe -, a maior parte da energia é produzida no sistema Norte, e as ligações para o Sul e o Leste continuam incompletas. Quebras de tensão obrigam as indústrias a depender de geradores a gasóleo, aumentando drasticamente os custos operacionais.

A escassez e o abastecimento de água industrial constituem o segundo obstáculo. Muitas zonas de desenvolvimento industrial não possuem redes de distribuição com caudal ou pressão suficientes, forçando as fábricas a investir em sistemas complexos, de armazenamento, bombagem e tratamento, elevando o investimento inicial.

A logística e a degradação de estradas secundárias e terciárias – que ligam os campos agrícolas e as minas às indústrias – agravam o problema, sobretudo na época das chuvas. A escassez de infra-estruturas de armazenamento e cadeias de frio faz com que grande parte da produção agrícola se perca antes de chegar às fábricas ou aos mercados informais.

A integração portuária e ferroviária permanece incompleta. Apesar do potencial do Corredor do Lobito, o desalfandegamento de máquinas e matérias-primas nos portos nacionais continua caracterizado por lentidão burocrática e custos elevados, e o transporte ferroviário ainda não está massificado nem integrado com os parques industriais.

Por fim, muitos parques industriais foram projectados e inaugurados sem que as ligações internas de saneamento, telecomunicações, água e luz estivessem totalmente operacionais, deixando lotes de terra inutilizáveis para investidores imediatos.

Estes desafios não são argumentos contra a industrialização – são o roteiro do que é preciso resolver para a concretizar. E resolvem-se precisamente através de uma política multissectorial, articulada e financiada.

Uma industrialização adaptada à realidade angolana

Industrializar não significa repetir modelos ultrapassados ou ambientalmente insustentáveis. Angola tem a oportunidade de seguir uma via moderna, gradual e estratégica, baseada nas suas vantagens comparativas. Entre as prioridades destacam-se a transformação local de recursos naturais, o desenvolvimento da agro-indústria, as indústrias de substituição de importações, os materiais de construção e bens essenciais, a criação de zonas económicas especiais funcionais, a atracção de investimento estrangeiro com transferência de tecnologia, a formação técnica e profissional alinhada com as necessidades industriais e a integração regional através da SADC e da Zona de Comércio Livre Continental Africana.

O sucesso exige políticas públicas coerentes, estabilidade institucional, investimento em capital humano e uma parceria estratégica entre o Estado e o sector privado. Não se trata de opor indústria à agricultura ou aos serviços: um modelo equilibrado exige a integração dos três sectores. A agricultura fornece matérias-primas e segurança alimentar; a indústria transforma, agrega valor e cria emprego; os serviços avançados surgem como consequência natural de uma economia produtiva forte. Nenhum país alcançou o desenvolvimento sustentável ignorando a industrialização – saltar directamente de uma economia primária para serviços sofisticados é uma ilusão que raramente se concretiza.

O futuro constrói-se com indústria

Os recursos naturais podem definir o ponto de partida de uma nação, mas não determinam o seu futuro. O verdadeiro desenvolvimento nasce da capacidade de transformar, produzir, empregar e inovar. Sem indústria, a riqueza esgota-se e a economia permanece vulnerável. Com indústria, os recursos tornam-se a base de um crescimento inclusivo, soberano e sustentável.

Angola dispõe dos recursos, da juventude e do potencial necessários. O desafio é transformar essas vantagens em capacidade produtiva real. O destino do país não será decidido pelo que extrai do subsolo, mas pelo que consegue produzir com inteligência, trabalho e visão de longo-prazo.

Para Angola, a industrialização não é uma opção ideológica nem uma escolha entre várias alternativas equivalentes. É uma necessidade histórica e estratégica. A indústria é o caminho – e o tempo para o percorrer é agora.

(*) Artigo de opinião elaborado a partir do ensaio “Apenas a industrialização pode salvar Angola”, de João Shang, investigador associado ao CEDESA (área China-África), disponível em: https://www.cedesa.pt/2026/01/04/apenas-a-industrializacao-pode-salvar-angola/

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