QUANDO PERDER AINDA É POSSÍVEL

LUÍS SILVA CARDOSO 

A democracia começa verdadeiramente quando aqueles que governam compreendem que podem ser substituídos, e quando aqueles que são governados se organizam para garantir que ninguém possa impedir essa substituição.

Há uma imagem que merece ser olhada com atenção: um Presidente que fez da força da sua liderança uma promessa política, vê os eleitores lembrarem-lhe que o poder tem limites e que nenhuma ambição pessoal se sobrepõe à soberania popular.

Nas eleições intercalares americanas de Novembro de 2026, Donald Trump não estava a disputar a Presidência. O que estava em causa era a composição do Congresso, numa disputa entre republicanos e democratas. Os resultados deram aos democratas o controlo das duas câmaras, retirando ao partido do Presidente a maioria parlamentar. Trump, cuja influência política esteve no centro da campanha republicana, reconheceu o resultado e manifestou disponibilidade para trabalhar com os adversários democratas.

É importante perceber o significado deste episódio. Não foi uma derrota pessoal de Trump numa eleição presidencial, mas uma derrota política do seu partido numa disputa parlamentar, que limita a capacidade de acção da sua administração. O Presidente continua no cargo, mas passa a ter de conviver com um Congresso controlado pela oposição.

Eis uma das características fundamentais da democracia: o poder não precisa de desaparecer para ser limitado. Basta que as instituições funcionem e que os eleitores possam alterar a correlação de forças políticas.

Isto não transforma a governação de Trump num exemplo irrepreensível. As suas decisões controversas, as posições questionadas quanto à sua compatibilidade com o direito internacional e os confrontos com instituições e aliados internacionais, continuam sujeitos ao escrutínio. Aceitar um resultado eleitoral não absolve uma governação, assim como uma vitória nas urnas não confere licença para governar sem limites.

Mas é precisamente nesta distinção que reside a lição que importa transportar para África.

A democracia não é um ritual

Em diferentes países africanos, a competição política tem sido progressivamente condicionada por mecanismos destinados a proteger quem governa. Quando a oposição ganha expressão, surgem os discursos sobre ameaças à segurança nacional, conspirações, agentes estrangeiros e tentativas de desestabilização.

O adversário deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser apresentado como inimigo do Estado. O jornalista incómodo torna-se desestabilizador. O activista passa a ser suspeito. O crítico é acusado de servir interesses externos. E, por vezes, a justiça é instrumentalizada para retirar da disputa aqueles que deveriam poder disputar livremente o poder.

Detenções arbitrárias, processos judiciais selectivos, intimidação, restrições à liberdade de imprensa e obstáculos à participação eleitoral não podem ser tratados como meros incidentes da vida política. Quando servem para neutralizar adversários, tornam-se instrumentos de perpetuação no poder.

A perversidade deste expediente está na inversão dos papéis: em vez de o poder prestar contas aos cidadãos, exige que os cidadãos prestem contas ao poder.

O perigo dos homens indispensáveis

Um dos discursos mais perigosos da política é o do governante insubstituível. Diz-se que só ele garante a estabilidade, que só ele conhece os caminhos do desenvolvimento e que, sem ele, o país mergulharia no caos.

Mas nenhuma nação pertence a um homem, a uma família ou a um partido. A continuidade de um país não pode depender da permanência dos mesmos dirigentes. Depende de instituições que funcionem independentemente de quem governa.

Quando um Presidente se confunde com a pátria, qualquer contestação passa a ser apresentada como ameaça à nação. E quando um partido se considera proprietário do Estado, a alternância deixa de ser entendida como um direito democrático e passa a ser tratada como uma afronta.

A democracia também se defende fora das urnas

Não basta esperar que os governantes respeitem voluntariamente os limites do poder. É necessário que a sociedade esteja organizada para os fazer cumprir.

Partidos políticos, igrejas, universidades, sindicatos, associações profissionais, organizações cívicas, jornalistas, empresários e cidadãos comuns têm responsabilidades que não podem ser delegadas exclusivamente à oposição.

Precisamos de tribunais independentes, comissões eleitorais credíveis, parlamentos fiscalizadores e forças de segurança ao serviço da Constituição, não dos interesses de quem ocupa temporariamente o poder.

Precisamos também de uma cidadania que não confunda estabilidade com silêncio, patriotismo com obediência e divergência com traição.

A democracia pode desaparecer sem um golpe militar. Pode ser esvaziada lentamente, através de leis feitas à medida, instituições capturadas e pequenas transgressões que, pela repetição, acabam por parecer normais.

Por isso, a resposta não pode resumir-se à indignação nas redes sociais ou à esperança de que apareça um salvador. Exige organização cívica, vigilância permanente, solidariedade entre os diferentes sectores da sociedade e rejeição inequívoca de qualquer tentativa de utilizar o Estado para eliminar a concorrência política.

A justiça não pode ser uma arma de arremesso. A polícia não pode ser guarda pretoriana de um partido. E as forças armadas não podem ser confundidas com a segurança pessoal de um Presidente.

Nem vencedores nem proprietários

Quem ganha eleições deve governar para todos, incluindo os que votaram contra. Quem perde deve poder continuar a participar, fiscalizar e preparar-se para uma nova disputa. E quem exerce o poder deve compreender que o mandato é temporário.

Não se trata de importar modelos estrangeiros nem de idealizar democracias que também enfrentam as suas próprias contradições. Trata-se de exigir que os princípios fundamentais da democracia sejam respeitados nas nossas próprias sociedades.

A alternância não é uma ameaça à estabilidade. A verdadeira ameaça é um sistema em que a estabilidade depende da permanência dos mesmos homens, dos mesmos partidos e dos mesmos interesses.

A beleza da democracia reside precisamente na possibilidade de perder sem deixar de pertencer ao país, de discordar sem ser perseguido e de substituir governantes sem destruir o Estado.

Porque um país não se salva pela permanência de um líder. Salva-se quando consegue mudar de líderes sem perder as suas instituições, a sua liberdade e a sua dignidade.

A democracia começa verdadeiramente quando aqueles que governam compreendem que podem ser substituídos e quando aqueles que são governados se organizam para garantir que ninguém possa impedir essa substituição.

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