Por que a Alemanha e a Rússia continuam a assombrar o equilíbrio europeu?

As trajectórias económicas da Rússia e da Alemanha estão a formar um espelho com uma ironia histórica: ambas estão a “desacoplar-se” uma da outra, mas com consequências radicalmente diferentes.
Há uma pergunta insistentemente azeda que atravessa a história europeia desde 1871 e que regressa hoje, com a guerra na Ucrânia, sob um novo formato: o que acontece quando a maior potência industrial do continente se articula com a maior potência de recursos naturais do planeta?
A análise estrapola os limites das relações comerciais. Trata-se de geopolítica no sentido mais clássico do termo.
A Alemanha possui tecnologia, engenharia, capital e capacidade exportadora. A Rússia possui petróleo, gás, minerais, metais estratégicos, terras e profundidade territorial. A complementaridade é quase perfeita. E é justamente essa complementaridade que, ao longo de mais de um século, transformou a relação germano-russa numa variável capaz de alterar o equilíbrio de poder europeu.
Bismarck já sabia
Quando Otto von Bismarck unificou a Alemanha em 1871, compreendeu imediatamente o problema. Uma potência industrial e militar no centro da Europa não podia permitir-se enfrentar simultaneamente França e Rússia. O Tratado de Resseguro de 1887 (acordo secreto entre o Império Alemão e o Império Russo, criado pelo chanceler alemão Otto von Bismarck para evitar uma guerra em duas frentes na Europa) foi a tentativa de evitar esse cerco. A não renovação do tratado em 1890, após a saída de Bismarck, abriu o caminho para a aliança franco-russa e, em última instância, para a Primeira Guerra Mundial.
O padrão repetiu-se em 1922, com o Tratado de Rapallo (foi um acordo assinado em 16 de Abril de 1922 entre a Alemanha – República de Weimar – e a Rússia Soviética, pelo qual ambos os países renunciaram a reparações de guerra e reivindicações territoriais ou financeiras mútuas, restabelecendo relações diplomáticas plenas). Alemanha derrotada e Rússia bolchevique isolada – duas potências excluídas da ordem internacional construída pelos vencedores – normalizaram relações e estabeleceram cooperação económica. As potências ocidentais reagiram com preocupação. A historiografia britânica cunhou mesmo a expressão “complexo de Rapallo” para descrever o receio de uma aproximação germano-soviética que alterasse o equilíbrio europeu.
O fantasma de Rapallo nunca desapareceu. Reapareceu com a Ostpolitik de Willy Brandt, com a fórmula “Wandel durch Annäherung” – mudança através da aproximação -, e depois com a construção do gasoduto que ligou a Sibéria à indústria alemã.
A interdependência como arma de dois fios
Entre 1970 e 2000, a Alemanha e a Rússia construíram uma das mais sofisticadas arquitecturas de interdependência energética do mundo. O gás soviético, depois russo, alimentou a indústria alemã. A tecnologia e o capital alemães modernizaram a infra-estrutura russa. O sistema funcionava assim: a Rússia fornecia energia, a Alemanha produzia bens que eram exportados para toda a Europa e para o mundo.
Durante muito tempo, Berlim acreditou que esta interdependência era uma garantia de paz. Mais comércio, mais dependência mútua, mais incentivos à cooperação. A lógica parecia irrepreensível.
A guerra na Ucrânia destruiu essa ilusão
Em 2022, ficou claro que a interdependência económica não elimina conflitos de segurança. Pode até agravá-los, transformando dependências económicas em vulnerabilidades estratégicas. A Alemanha viu-se obrigada a diversificar urgentemente as suas fontes de energia, a reduzir drasticamente as importações russas e a repensar toda a sua política de segurança.
O que dizem os clássicos
Para compreender o que está em jogo, vale a pena regressar aos fundadores da geopolítica.
Halford Mackinder, em 1904, identificou a Eurásia continental como o “pivô” da política mundial. Quem controlasse o Heartland – a região central da Eurásia – controlaria o destino do mundo. Nicholas Spykman, em 1944, corrigiu o argumento: o Rimland, a faixa periférica da Eurásia, era mais importante. A Europa Ocidental, os Balcãs, o Médio Oriente – estas zonas de contacto entre poder continental e poder marítimo eram decisivas.
A Alemanha ocupa uma posição única neste tabuleiro. Está no centro da Europa, possui uma das maiores bases industriais do mundo e faz fronteira com o espaço continental russo. Spykman considerava que o equilíbrio europeu dependia da distribuição de poder entre França, Alemanha e Europa Oriental. Uma Alemanha industrialmente poderosa, integrada economicamente com a Rússia, produziria uma configuração de poder radicalmente diferente da tradicional balança europeia.
Zbigniew Brzezinski, em “The Grand Chessboard” (1997), recuperou esta perspectiva euro-asiática. Para o estratega norte-americano, a Eurásia era o principal espaço de competição estratégica global. Nenhuma grande potência externa poderia ignorar a distribuição de poder neste espaço. E Henry Kissinger, na tradição do realismo diplomático, recordou que a estabilidade internacional depende de uma distribuição relativamente equilibrada de poder – e que a concentração excessiva de poder, em qualquer mão, é uma ameaça à ordem.
Não é uma conspiração, é uma estrutura
É tentador – e historicamente compreensível – interpretar a história europeia como uma conspiração permanente de Londres e Paris contra Berlim e Moscovo. Há evidências de preocupações recorrentes, de resistências a projectos específicos como o Nord Stream, de receios documentados sobre a dependência energética europeia da Rússia.
Mas a análise mais rigorosa não sustenta a tese de uma política secular, uniforme e coordenada da França e Reino Unido para impedir qualquer boa relação entre Alemanha e Rússia. França, Reino Unido, Estados Unidos, Polónia, Ucrânia e os Estados bálticos têm interesses diferentes e nem sempre convergentes. A oposição ao Nord Stream 2, por exemplo, veio de múltiplas direcções, não apenas de Londres e Paris.
O que a história demonstra é algo mais estrutural: a possibilidade de uma concentração de poder económico e estratégico resultante da aproximação entre Alemanha e Rússia, constitui uma variável recorrente no cálculo de equilíbrio das potências europeias e atlânticas. Não é uma conspiração. É geopolítica.
O dilema europeu
A Europa enfrenta hoje um dilema estratégico sem solução fácil.
Pode continuar a diversificar as suas fontes de energia – Noruega, Estados Unidos, Qatar, África – mas isso não resolve o problema de fundo: a indústria europeia continua a necessitar de energia competitiva, de matérias-primas e de minerais estratégicos. A transição energética aumentou a procura de cobre, cobalto, lítio, níquel e terras raras. África tornou-se, novamente, um espaço fundamental.
Pode tentar construir uma autonomia estratégica – energia, minerais, tecnologia, indústria, defesa – mas isso exige décadas de investimento e uma coordenação política que a União Europeia ainda não demonstrou possuir.
Ou pode, no futuro, reaproximar-se da Rússia. Nada garante que isso aconteça. Mas nada garante que não aconteça. A geografia permanece. A Alemanha continuará no centro da Europa. A Rússia continuará a ocupar a maior extensão territorial da Eurásia. A Europa continuará a necessitar de energia e matérias-primas. A indústria continuará a necessitar de recursos.
A questão do século
A verdadeira questão já não se coloca se Alemanha e Rússia se tornarão aliadas. Uma aproximação não precisa de assumir a forma de uma aliança militar. Pode assumir a forma de acordos energéticos, comércio, investimentos, cadeias industriais, infra-estruturas, corredores logísticos.
A questão mais profunda passa por outra formulação: poderá existir novamente uma interdependência económica suficientemente profunda para alterar as condições de autonomia estratégica europeia?
A experiência de 2022 mostrou que a interdependência pode ser uma armadilha. Mas também mostrou que a ruptura tem custos elevados. A Alemanha perdeu acesso a energia barata, enfrenta custos energéticos mais altos e vê a sua indústria reconfigurar-se sob pressão.
A história não terminou. A energia pode mudar de origem. As tecnologias podem mudar. As rotas comerciais podem mudar. As alianças podem mudar.
Mas a geografia permanece. E é por isso que a questão Alemanha-Rússia não pertence apenas ao passado. É uma questão estrutural da geopolítica da Eurásia no século XXI.
O fantasma de Rapallo continua a assombrar a Europa. Não porque haja uma conspiração, mas porque a estrutura do poder europeu continua a produzir as mesmas perguntas insistentemente azedas.
As duas trajectórias opostas
As eleições para a Duma russa (de 18 a 20 de Setembro de 2026) e as eleições estaduais alemãs do mesmo mês oferecem um retrato cru das duas trajectórias divergentes que a Europa vive hoje.
Na Rússia, o Rússia Unida obteve 57,83% dos votos e 355 mandatos, a maior maioria desde 2003, contra 324 mandatos em 2021. A participação foi de 59,32%, também a mais elevada dos últimos anos. A União Europeia classificou o escrutínio como “uma farsa”, mas o resultado consolida o poder de Moscovo num momento em que a economia russa acelera a sua reorientação para Leste.
O comércio bilateral entre a China e a Rússia atingiu aproximadamente 227,9 mil milhões de dólares em 2025, consolidando a China como o maior parceiro comercial da Rússia pelo 16.º ano consecutivo. Nos primeiros sete meses de 2026, o comércio sino-russo cresceu 26,3% em termos homólogos, alcançando 159,2 mil milhões de dólares. Exportações da Rússia para a China aumentaram 23,7%, somando 86,4 mil milhões de dólares. Já as exportações da China para a Rússia registaram uma subida ainda mais acentuada de 29,5%, alcançando 72,8 mil milhões de dólares. Dados ainda mais recentes de Janeiro a Agosto de 2026 mostram que esse ritmo acelerou após o período mencionado. Nos primeiros oito meses do ano, o volume total de trocas comerciais escalou para os 185 mil milhões de dólares, o que representa uma expansão acumulada de 28,4% face ao ano anterior. Esse forte desempenho coloca as duas nações no rumo certo para estabelecer um novo recorde histórico até ao final de Dezembro, impulsionado pela transição estrutural da Rússia rumo aos mercados asiáticos. O primeiro vice-primeiro-ministro russo, Manturov, afirmou claramente que o crescimento dos projectos de cooperação representarão a injecção no objectivo de alcançar os 300 mil milhões de dólares de comércio até 2030.
Entretanto, o comércio russo-indiano também se expande rapidamente. No primeiro semestre de 2026, o comércio bilateral atingiu 38,35 mil milhões de dólares, um crescimento homólogo de 15,89%, e os dois chefes de Estado fixaram a meta de 100 mil milhões de dólares até 2030. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Lavrov, declarou explicitamente que fará “todos os esforços para impedir que a concorrência desleal do Ocidente sabotasse os acordos entre a Rússia e a Índia”.
A “desdolarização” financeira avança igualmente. A liquidação em moedas nacionais no comércio sino-russo já atinge 99%, e os BRICS discutem a plataforma de pagamentos transfronteiriços “BRICS Bridge”, destinada a reduzir a dependência do SWIFT. O Novo Banco de Desenvolvimento aprovou, até Março de 2026, 139 projectos, num total de 42,9 mil milhões de dólares de financiamento.
A “viragem para Leste” da economia russa, deixou de ser um slogan e actualmente é um facto estrutural quantificável.
Na Alemanha, o quadro é radicalmente diferente. No primeiro trimestre de 2026, o número de insolvências de empresas alemãs atingiu 4.573, o valor mais elevado desde o terceiro trimestre de 2005, superando mesmo o pico da crise financeira de 2009. Só em Março, 1.716 empresas faliram, mais 18% em termos homólogos e 71% acima da média do mesmo período pré-crise de 2016-2019. A indústria transformadora foi a mais afectada: em Fevereiro de 2026, as insolvências no sector cresceram 39,1% em termos homólogos. A Associação da Indústria Automóvel Alemã alertou que o sector poderá perder mais 125 mil postos de trabalho até 2035.
O próprio chanceler alemão, Merz, teve de reconhecer a realidade. Numa intervenção este mês (Setembro de 2026), afirmou: “Estamos a perder um número enorme de empregos industriais”, sublinhando que “a Alemanha tem de se manter um país industrial”. Um estudo da Allianz Trade demonstrou que, no primeiro semestre de 2026, mais de 30 empresas alemãs com receitas anuais não inferiores a 50 milhões de euros pediram insolvência, mais 10% do que no ano anterior.
A crise económica traduz-se directamente num tremor político. Nas eleições federais de 2025, a AfD duplicou a sua votação, de 10,4% em 2021 para 20,8%, tornando-se o segundo maior partido do Bundestag. Mas isso foi apenas o prólogo. As eleições estaduais de Setembro de 2026 foram o verdadeiro choque: na Saxónia-Anhalt, a AfD obteve 43,8%, tornando-se o maior partido, enquanto a CDU ficou pelos 17,2%, praticamente reduzida a metade; em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD obteve 38,2% e a CDU ficou pelos 4,9%, ficando pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial fora do parlamento estadual.
Merz classificou o resultado como “uma catástrofe”, mas afirmou que continuará a governar. A co-presidente da AfD, Weidel, declarou que o partido “fez história” e recebeu “um mandato de governo muito claro”. O programa político da AfD – rejeição da imigração, Alemanha primeiro, posição pró-russa – tem muita atracção nos estados do Leste ex-comunista, precisamente os que sentem mais directamente o declínio industrial alemão e o descontentamento com o governo federal. As sondagens pré-eleitorais na Saxónia-Anhalt mostravam que mais de 80% dos eleitores estavam insatisfeitos com o governo federal.
O significado do cruzamento das duas trajectórias
As trajectórias económicas da Rússia e da Alemanha estão a formar um espelho com uma ironia histórica: ambas estão a “desacoplar-se” uma da outra, mas com consequências radicalmente diferentes.
A Rússia, por redireccionar as suas exportações de energia e matérias-primas para a China e a Índia, manteve o volume comercial e até cresceu. A China e a Índia, como beneficiárias, obtiveram fornecimentos energéticos estáveis a preços com desconto, ao mesmo tempo que exportam bens industriais e de consumo para a Rússia. As estimativas mais recentes do FMI apontam para um crescimento de 4,6% para a China e de 6,4% para a Índia em 2026, continuando a liderar entre as principais economias mundiais. A reorientação energética russa forneceu, objectivamente, uma vantagem de custos adicional ao crescimento das duas grandes economias asiáticas.
A Alemanha perdeu o suporte do gás natural russo barato. A vaga de insolvências na indústria transformadora, a expectativa de contracção da indústria automóvel, a perda de competitividade das indústrias intensivas em energia – nada disto são problemas estruturais reversíveis com políticas de curto-prazo. E a ascensão política da AfD é, justamente, o produto directo desse sofrimento económico.
A cadeia causal entre ambas não se quebrou. Apenas inverteu de direcção: outrora era o ciclo complementar recursos russos para a indústria alemã que alimentavam as exportações europeias; agora é o ciclo alternativo recursos russos para a indústria chinesa e indiana que exportam para o mercado global, no qual a Alemanha é marginalizada.
A história não terminou. A energia pode mudar de origem. As tecnologias podem mudar. As rotas comerciais podem mudar. As alianças podem mudar. Mas a geografia permanece. E é por isso que a questão Alemanha-Rússia não pertence apenas ao passado. É uma questão estrutural da geopolítica da Eurásia no século XXI.
O fantasma de Rapallo continua a assombrar a Europa. Não porque haja uma conspiração, mas porque a estrutura do poder europeu continua a produzir as mesmas perguntas insistentemente azedas – agora com uma nova urgência: enquanto a Rússia se reorienta para a Ásia e a Alemanha se afunda na crise industrial e política, o equilíbrio de poder que durante século e meio definiu a Europa está a ser reescrito por forças que já não dependem apenas das capitais europeias.











