
Neste Dia dos Finados, não levemos apenas flores aos que partiram. Levemos presença, carinho e humanidade aos que continuam connosco.
Hoje é Dia dos Finados. Em Luanda, Barra do Dande, Golungo Alto e tantos outros lugares, há cemitérios cheios de flores, famílias reunidas diante de campas, pessoas que rezam em silêncio e outras que regressam a casa com uma saudade que não cabe nas palavras.
Há quem recorde uma voz, um sorriso, uma maneira de caminhar ou até uma pequena teimosia que, enquanto a pessoa vivia, nos tirava a paciência e que hoje daríamos tudo para voltar a encontrar.
A saudade nem sempre faz barulho. Às vezes, aparece à hora de pôr a mesa, quando a mão procura um prato a mais. Outras vezes, surge perante uma boa notícia, quando pensamos: “Tenho de lhe contar”, e só depois nos lembramos de que já não podemos.
É assim que os nossos mortos continuam entre nós: numa expressão que herdámos, numa receita que nunca conseguimos reproduzir, numa história que repetimos e num lugar que ninguém conseguiu voltar a ocupar.
Mas há uma pergunta que este dia nos devia deixar: estaremos a cuidar suficientemente daqueles que ainda podemos abraçar?
Não é preciso alguém morrer para começar a desaparecer da nossa vida. Há pais que conhecem os filhos pelas fotografias das redes sociais, amigos que só se encontram em funerais, casais que partilham a mesma casa, mas já não partilham os seus sentimentos. Há pessoas que deixam de insistir numa chamada porque não querem incomodar, enquanto outras adiam eternamente uma visita porque estão sempre ocupadas.
Continuamos a gostar umas das outras, mas, por vezes, esquecemos de demonstrá-lo.
E o tempo não espera que resolvamos todas as nossas ocupações.
Estamos no final de mais um ano. Uns fazem contas ao dinheiro, aos negócios, às viagens e aos objectivos alcançados. Outros fazem contas às dívidas, às oportunidades perdidas e às dificuldades que conseguiram suportar. Há ainda quem tenha passado o ano a cuidar de alguém, a procurar emprego, a enfrentar uma doença, a sobreviver a uma perda ou simplesmente a tentar manter a família de pé.
Nem todas as conquistas aparecem nas fotografias. Para algumas pessoas, vencer foi conseguir levantar-se mais uma manhã. Para outras, foi manter os filhos alimentados, pedir ajuda, reconhecer que estavam cansadas ou encontrar forças para continuar depois de uma despedida.
Por isso, não acrescentemos humilhação à dificuldade.
Quem não pode oferecer um presente não tem menos carinho. Quem não pode contribuir financeiramente não é menos amigo. Não contraiamos dívidas para impressionar pessoas que não pagarão as nossas contas. Não nos destruamos para agradar a todos. Ajudemos quando pudermos, mas compreendamos que até quem sempre ajuda tem direito a precisar de ajuda.
Aprendamos a dizer “não” sem culpa, a pedir desculpa sem vergonha, a estabelecer limites sem perder a dignidade e a afastar-nos daquilo que nos rouba a paz.
Também precisamos de aprender a cuidar da saúde. O corpo não é uma máquina que podemos obrigar a funcionar indefinidamente. Há quem não durma para trabalhar, não coma para poupar, esconda a dor para não preocupar a família e adie uma consulta porque acredita que ainda consegue aguentar.
Depois, quando o corpo reclama, chamamos-lhe azar.
Não ignoremos os sinais. Controlemos a pressão arterial, respeitemos os tratamentos, procuremos assistência médica quando necessário, alimentemo-nos com equilíbrio e movimentemos o corpo dentro das nossas possibilidades. Descansemos sem culpa. Cuidemos também da saúde emocional, porque há sofrimentos que não aparecem nos exames, mas que precisam de atenção, companhia e tratamento.
E não façamos da vida uma sucessão de discussões. Nem toda a provocação merece resposta. Nem toda a divergência precisa de se transformar numa guerra. Às vezes, preservar uma relação ou a própria tranquilidade vale muito mais do que provar que temos razão.
Há uma imagem que me acompanha: o meu avô Manuel Porfírio dos Santos guardava a manta do Ndembu numa arca de mutoba, protegida do sol. Sabia que aquilo que é precioso precisa de cuidado, sombra e descanso. Nós, muitas vezes, fazemos o contrário: expomos o coração ao trânsito, às intrigas, às exigências, às preocupações e às maldades do mundo, sem lhe concedermos sequer tempo para recuperar. Depois estranhamos quando já não conseguimos suportar o peso.
Que aprendamos a proteger o que temos de mais precioso: a vida, a saúde, a família, a amizade e a paz.
E não nos esqueçamos de que ainda há lugar para rir. A velhice não deve ser uma condenação à tristeza, nem a saudade uma proibição de voltar a sorrir. Podemos recordar os que partiram e contar as suas histórias com lágrimas nos olhos e gargalhadas pelo meio. Quem amámos não deve ficar reduzido à doença, ao sofrimento ou ao último dia. Deve continuar a viver também nas suas alegrias, nas suas manias e nas pequenas coisas que nos faziam felizes.
Neste Dia dos Finados, não vos peço que chorem mais. Peço-vos que vivam melhor.
Telefonem aos vossos pais enquanto ainda podem atender. Visitem os amigos sem esperar por um funeral. Abracem os filhos. Perguntem aos companheiros como realmente se sentem. Sentem-se à mesa com a família. Peçam desculpa. Agradeçam. Levem flores aos vivos. E, quando alguém vos disser que está cansado, não respondam imediatamente que precisa de ser forte. Perguntem antes: “Queres conversar? Posso ajudar-te em alguma coisa?”
Nem sempre precisamos de grandes discursos. Por vezes, uma refeição, uma boleia, uma visita ou simplesmente ficar ao lado de alguém em silêncio vale mais do que mil conselhos.
Hoje recordamos os que partiram. Mas amanhã haverá novamente trabalho, trânsito, contas, responsabilidades e pressa. Que alguma coisa deste dia consiga ir connosco.
Que o próximo ano nos encontre menos arrogantes e mais humanos, menos preocupados em parecer felizes e mais empenhados em sê-lo, menos disponíveis para julgar e mais dispostos a compreender.
Não sabemos quantos Natais ainda teremos, quantos abraços ainda poderemos dar ou quantas oportunidades a vida nos reservará. Não precisamos de viver cada encontro como se fosse uma despedida. Precisamos, sim, de permitir que os encontros sejam verdadeiramente vividos.
A morte não nos pede licença para chegar. Mas a vida ainda nos oferece oportunidades para fazer diferente.
Os que partiram merecem a nossa memória, o nosso respeito e as nossas orações. Os que permanecem merecem a nossa presença, o nosso carinho e a nossa solidariedade.
Que Deus conforte os corações que hoje choram, acolha os que partiram e dê saúde, serenidade e sabedoria aos que continuam.
E, quando chegar a nossa vez de deixar este mundo, que não sejamos lembrados apenas pelo que tivemos, pelos cargos que ocupámos ou pelo dinheiro que acumulámos, mas pelo bem que fizemos, pelas vidas que tocámos e pelo amor que soubemos oferecer.
Não esperemos que a saudade nos ensine a valorizar aquilo que ainda temos. Não esperemos que a morte nos ensine a importância da vida.
Ainda estamos aqui. Ainda podemos ligar, visitar, abraçar, perdoar, ajudar e recomeçar.
Ainda estamos a tempo uns dos outros.










