O MILAGRE DE SÁBADO À MESA DOS OVIMBUNDU

SAMPAIO JÚNIOR

Albert Einstein terá dito que “há duas maneiras de viver a vida: acreditando que milagres não existem ou que tudo é milagre”. Por aqui, num sábado tranquilo, diante de uma panela fumegante de lomby de abóbora, a segunda hipótese parece fazer mais sentido.

Hoje vou viajar pela gastronomia indígena dos Ovimbundu, por estas bandas onde os sabores tradicionais continuam a desafiar o tempo e a conquistar até os paladares mais exigentes. Há pratos que não precisam de publicidade nem de chefes estrelados para serem reconhecidos como autênticas obras-primas da culinária popular.

Na mesa de hoje temos o famoso lomby de abóbora, uma deliciosa combinação de folhas de abóbora com quiabos. Dependendo da região e da riqueza das variantes linguísticas do umbundo, esta iguaria recebe diferentes designações. Em Undyungu, por exemplo, é conhecida por um nome próprio que os mais velhos pronunciam com orgulho, como quem apresenta um património de família.

Mas o verdadeiro encanto está nos acompanhamentos. Este lomby de abóbora pode ser servido com peixe seco, desde a modesta kabuenha até à majestosa garoupa que, depois de escalada e cuidadosamente seca ao sol, adquire um sabor e uma personalidade única. E não são apenas os peixes que passam por essa transformação; certas carnes secas também ganham um estatuto especial à mesa. Há quem diga que, depois de enfrentarem o sol africano, estes alimentos deixam de ser simples ingredientes para se tornarem autênticos tesouros gastronómicos. Pode parecer exagero, mas quem já os provou sabe que há tradições que não se explicam, apenas se saboreiam.

E como falar desta refeição sem mencionar o inseparável pirão (funge) de milho? Ele não é apenas acompanhamento; é parceiro de longa data, amigo fiel e, para muitos, a razão pela qual o prato fica completo. Sem ele, a refeição seria como um soba sem bengala ou um batuque sem tambor.

Existe uma frase atribuída a Albert Einstein que diz: “Há duas maneiras de viver a vida: acreditando que milagres não existem ou que tudo é milagre”. Por aqui, num sábado tranquilo, diante de uma panela fumegante de lomby de abóbora, a segunda hipótese parece fazer mais sentido. Afinal, ver folhas, quiabos, peixe seco e milho transformarem-se numa refeição capaz de reunir gerações à mesma mesa, tem qualquer coisa de milagroso.

E o melhor milagre nem está apenas na comida. Está na conversa que se prolonga, nas histórias repetidas pela centésima vez como se fossem novas, nos risos, nas provocações entre familiares e naquela tia que jura cozinhar melhor do que toda a gente, embora ninguém lhe tenha pedido prova disso.

No fim, o milagre de sábado cumpre-se como manda a tradição: uma mesa cheia, barrigas satisfeitas, copos erguidos com qualquer produto etílico ou não, e a certeza de que a felicidade, às vezes, não mora em lugares complicados. Mora simplesmente numa boa panela de lomby de abóbora, num pedaço de peixe seco e numa família reunida à volta da mesa.

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