O DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Que se preparem aqueles que pensam que a história pode resumir-se a uma hora e meia de filme americano, em que se comem pipocas enquanto se vêem catástrofes: o declínio pode durar décadas dilacerantes. E aquele que assiste não está fora do filme – é o filme.

(Adaptado do artigo original de Pino Arlacchi publicado no Il Fatto Quotidiano?

JOAQUIM JAIME

Há quem ainda acredite que o Ocidente atravessa apenas uma “crise passageira”. Que basta ajustar algumas políticas, trocar alguns líderes, injectar mais capital nos mercados, e tudo voltará ao seu curso natural de prosperidade e expansão. Esta crença, confortável e ilusória, é o primeiro sintoma daquilo que Arnold Toynbee identificou como o momento crítico no ciclo das civilizações: a recusa em reconhecer que o tempo passou, que o contexto mudou, e que as receitas do passado já não funcionam.

Toynbee, o grande historiador britânico cujo nome permanece indissociavelmente ligado ao estudo das civilizações, ensinou-nos uma verdade constrangedora: as civilizações morrem mais por suicídio do que por homicídio. Poderíamos acrescentar: morrem por inadaptação progressiva. E a civilização ocidental está a dar provas diárias dessa inadaptação, teimosa e cega.

O ciclo que o Ocidente não quer ver

Uma civilização nasce, afirma-se, expande-se. É o período dos “tempos dourados”, em que tudo parece possível, em que a criatividade floresce e a confiança no futuro é ilimitada. Mas depois, insidiosamente, começam as contradições. O contexto em que essa civilização prosperou modifica-se – o ambiente, a demografia, as relações de poder globais, as tecnologias, as aspirações humanas. Tudo muda. Excepto a civilização, que persiste em aplicar os mesmos métodos, como se o problema fosse quantitativo e não qualitativo.

As elites que governam o sistema encontram-se num conflito de interesses ontológico. As adaptações necessárias são estruturais – exigem a mudança das próprias regras que as mantêm no poder. Ser uma “elite” significa estar bem adaptado a um sistema; não significa compreender esse sistema, a sua dependência do contexto, ou como alterá-lo quando necessário. É pedir a um peixe que redesenhe o aquário.

A cumplicidade das massas ocidentais

Mas não culpemos apenas as elites. O psicólogo social John T. Jost, num estudo de 2020, demonstrou aquilo que poderíamos chamar de “teoria da justificação do sistema”: são muitas vezes as camadas mais baixas da sociedade que sustentam o status quo, por medo da mudança. Mesmo quando as coisas estão mal, encontram formas de se adaptarem. Uma condição penosa, mas familiar, é preferida ao desconhecido de uma transformação radical. Este quietismo social é o verdadeiro motor do declínio.

As pessoas têm medo. E os líderes, os ocasionais, os oportunistas, exploram esses medos. Chegam ao poder com promessas vagas de mudança, mas a inércia dos hábitos, a pressão do sistema, a falta de visão – tudo isso os traga de volta à mediocridade. A direita refloresce, alimentando-se dos medos que ela própria ajuda a cultivar. A esquerda, entretanto, desapareceu, transformada num liberalismo progressista que se limita aos direitos civis, porque os direitos sociais são incompatíveis com o neoliberalismo que abraçou.

Os anos 80: o início do fim

Quando começou o declínio? É sempre difícil definir um momento preciso, mas pode ser situado nos anos 80. Foi então que o neoliberalismo começou a impor-se, cultivado em silêncio com aquela “paciência estratégica” que as elites sabem ter. Foi então que a globalização e a financeirização abriram as comportas, permitindo que o resto do mundo se apropriasse dos princípios da economia moderna e desenvolvesse a sua própria via.

O Ocidente era um terço da população mundial no início do século XX; hoje mal representa um sexto. A taxa de natalidade caiu abaixo do limiar de reposição. A classe média empobrece progressivamente. A economia produtiva definha, enquanto o sector financeiro prospera criando bolhas que inevitavelmente explodem. E as massas, no meio disto tudo, parece que não vê.

A mediocridade dos líderes

Olhemos para os líderes ocidentais. A sequência Bush-Clinton-Bush-Obama-Trump-Biden-Trump ilustra melhor do que qualquer tratado o declínio americano. Na Europa, Merkel foi o último nome com alguma estatura; os britânicos tiveram uma sucessão de dirigentes improváveis, depois de acreditarem que poderiam vender “serviços” ao resto do mundo em crescimento – enganando-se redondamente. Macron defende a última trincheira francesa antes da chegada de uma direita cujos programas são ainda desconhecidos. Quanto à Itália, nem vale a pena falar.

Os críticos escolhem alvos fáceis: este líder é vendido, aquele é inepto, o outro é desequilibrado. Mas os líderes não são senão a expressão de uma parte do povo. São os ocidentais que constituem a alma do declínio. Uma civilização declina no seu conjunto, em todos os seus aspectos. Caso contrário, haveria ruptura, rebelião, pelo menos atrito. Mas há décadas que não vê-se senão quietismo social total.

A cultura em regressão

O declínio cultural é igualmente profundo. A única forma cultural que parece em relativa boa saúde é o pensamento técnico, a tecnociência. Mas a grande “inovação” da segunda metade do século XX – a informação digital – demonstra -se uma bolha. O seu impacto económico é muito menor do que o prometido; o seu impacto no emprego é claramente negativo; culturalmente, aproxima-os da distopia; economicamente, está concentrada em muito poucas mãos americanas, um monopólio que até Adam Smith teria horrorizado.

Os intelectuais, que deveriam iluminar este cenário, estão estruturalmente impedidos de o fazer. Dependem do sistema para obter cátedras e reconhecimento. Formam-se como “especialistas” – em economia, geopolítica, sociologia, história, filosofia – e falta-lhes sistematicamente a visão de conjunto. Não veem que as coisas estão “urdidas em conjunto” (cum-plexus) e que só uma abordagem integrada pode compreendê-las. E quando tentam dizer algo diferente, são ostracizados. A Inquisição, recorde-se, surgiu no “Outono da Idade Média”.

A voz do Sul: Luanda e a Aliança das Civilizações

Enquanto o Ocidente se debate na sua inércia, outro mundo se move. Vale a pena recordar que, nos mesmos dias em que esta análise se escrevia, a capital de Angola – Luanda – acolheu, a 16 e 17 de Julho de 2026, a 3.ª edição da Iniciativa da Aliança das Civilizações das Nações Unidas (UNAOC). Sob o lema “Apelo à Paz, ao Fim das Guerras e ao Respeito pelo Direito Internacional”, o evento reuniu Chefes de Estado e de Governo, líderes religiosos, representantes da sociedade civil e organizações internacionais para discutir estratégias de promoção da paz e prevenção de conflitos.

O Presidente angolano, João Lourenço, na qualidade de Campeão da União Africana para a Paz e Reconciliação, presidiu à cerimónia de abertura. No seu discurso, sublinhou que “a paz se constrói dando primazia à diplomacia”, num momento em que o mundo continua caracterizado por conflitos prolongados e tensões geopolíticas crescentes. Angola propôs ainda o desenvolvimento de um Programa Global de Educação e Cultura para a Paz e a Cidadania, envolvendo a UNAOC, a UNESCO e outras organizações internacionais, com enfoque no diálogo intergeracional e no respeito mútuo entre culturas.

O Alto Representante da UNAOC, Miguel Ángel Moratinos, justificou a escolha de Luanda para sediar o evento, como um reconhecimento internacional da trajectória de Angola na consolidação da paz e do seu crescente papel como mediador de conflitos em África. Recordou que a iniciativa começou em Guernica, Espanha – cidade marcada pelo bombardeamento de 1937 -, passou por Sarajevo e chega agora a Luanda, “símbolo de reconstrução, reconciliação e recuperação após décadas de guerra civil”.

É sintomático que, enquanto o Ocidente se fecha sobre si mesmo, refém dos seus medos e das suas elites incapazes, o chamado “Sul Global” – ou, mais precisamente, o “Sul” que geograficamente se situa a Sul e a Leste – se mobilize em torno de valores que o Ocidente parece ter abandonado: o diálogo intercultural, a mediação, a diplomacia preventiva, o respeito pelo direito internacional. Angola, que viveu quase três décadas de guerra civil antes de alcançar a paz em 2002, é agora exemplo de que a reconciliação é possível. A Declaração de Luanda, aprovada no final da cimeira, apela às grandes potências mundiais para que preservem a vida humana e promovam a coexistência pacífica entre os povos.

Enquanto os europeus se rearmam sem compreender porquê, e os americanos oscilam entre líderes medíocres, Angola lembra-nos que a paz não é a mera ausência de guerra, mas “reconciliação, inclusão e propósito nacional partilhado”.

O futuro que nos espera

Dirigem-se, assim, para um triste “fim de jogo”. Os idosos europeus querem rearmar-se, sem que se compreenda racionalmente porquê. A democracia, mesmo que relativa, está em coma profundo. Todo o Ocidente se reduz a interesses financeiros estreitos. A “cultura” geral regrediu significativamente. Ninguém sabe como relançar a economia.

Mas a história não produz leis. Cinco mil anos de civilização não são nada comparados com os três milhões de anos da espécie humana. Se, até hoje, as civilizações nasceram, desenvolveram-se e entraram em declínio, nada indica que seja impossível encontrar um meio de mudar profundamente para evitar uma inadaptação catastrófica.

No entanto, que se preparem aqueles que pensam que a história pode resumir-se a uma hora e meia de filme americano, em que se comem pipocas enquanto se vêem catástrofes: o declínio pode durar décadas dilacerantes. E aquele que assiste não está fora do filme – é o filme.

O que fazer?

Para tentar salvar a civilização Ocidental, é preciso tempo, paciência, competências muito amplas e disseminadas. É preciso uma imaginação realista, ciclos de ideias e prática com tentativas, erros e recomeços. É preciso ousar pensar o sistema na sua totalidade, sem se refugiar na especialização confortável.

É preciso, sobretudo, recuperar o que perderam: a capacidade de fazer política. A política verdadeira, não a gestão administrativa do status quo. A política que ousa perguntar “para onde vamos”? em vez de apenas “como gerimos o que temos”? A política que não teme a mudança porque compreende que a alternativa é pior.

Menos “inteligência” artificial, mais inteligência humana partilhada. Menos medo, mais coragem. Menos resignação, mais imaginação. Porque, no fim, ou eles adaptam-se, ou desaparecem. E a adaptação não é um processo passivo – é um acto de criação colectiva.

[Nota: Este artigo de opinião foi adaptado a partir do texto original de Pino Arlacchi, incorporando a referência à 3.ª Cimeira da Aliança das Civilizações da ONU em Angola, ocorrida em Luanda a 16 e 17 de Julho de 2026.]

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