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A Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde era entidade não grata ao regime, por isso. Destinada a morrer. Há muito se decidira que era instituição para abater, mais cedo ou mais tarde! Determinado por quem mandava! Dúvidas? Um rol de evidências…

Óbanga mbote, sakidila xôto
Tradução: Fazes o bem e o agradecimento é um peido (Provérbio kimbundu)
1 – Hoje vou falar brevemente da vida e da morte. Elas não são contrárias, são irmãs. O que não provoca a minha morte, faz com que eu fique mais forte. Há milhares de frases sobre esse conceito. Lembrando a vida porque a morte é certa, preparo-me para a festeja do centenário da mais-velha Helena de Aguiar, que acontecerá daqui a poucos dias. 100 anos de cabeça fresca e lúcida. Viva a vida! A velha Helena é a mãe do meu irmão Quim, o Aguiar dos Santos, o que se antecipou, partiu sem avisar.
Na quarta-feira, apanhei o metro na Estação do Oriente. Linha vermelha. Inesperadamente, travagem bruta, ferro-com-ferro a chiar, gritos, pessoal assustado. Tremenda confusão. Horas depois, a notícia a circular. Um suicida atirou-se à linha. Linha vermelha interdita. No dia seguinte, a Filomena Espírito Santo, querida amiga, enviou mensagem. Lacónica. O meu irmão Ruy suicidou-se. Atirou-se na linha do metro. Caraças! Precisamente no comboio em que eu viajava. Que coincidência. Tristeza não tem fim. Paz à sua alma!
2 – À hora em que esta crónica circular, ainda não será conhecido o novo campeão mundial de futebol. Critiquei a qualidade do jogo ao longo do torneio. Porém, as meias-finais, foram duas grandes partidas. Viva o futebol bem jogado! Por razões objectivas, detesto o comportamento cívico dos futebolistas argentinos. Isso não tem nada a ver com a genialidade do Messi ou com a qualidade do Enzo e do Lautaro, e dos outros, inclusivamente do Prestianni, do meu Benfica! Quem vai ganhar o Mundial? Gostaria que fosse a Espanha. Por tudo e mais alguma coisa.
3 – Vem a propósito. Por isso, segue mais um respigo do meu livro “Viva este povo maravilhoso”. Este, retirado do capítulo “Maldito preconceito”:
“… Houve neste percurso um momento negativo, ainda hoje recordado, passados tantos anos. Não conseguiam esquecer. Aconteceu num dia em que os sete, incluindo até o mais velho Firmino Da Silva, se juntaram à porta do Nacional Cine-Teatro. Estavam ali, ansiosos, na esperança de assistir à estreia da peça “As Orações de Mansata”, obra do guineense Abdulai Sila. Inspirada por Macbeth, de William Shakespeare, que abordava o tema da corrupção. A expectativa da estreia levou público considerável à velhinha sala de espectáculos. Um público selecto, com embaixadores e figuras da cultura e da intelectualidade local presentes, aguardando a entrada na sala. Inesperadamente, pelas vinte horas, foi anunciada uma ordem superior, que deixou toda a gente perplexa! A peça não seria exibida porque a sala não oferecia condições de segurança aos espectadores!
– O edifício tem fissuras, o tecto não oferece segurança, corre o risco de desabar – uma série de explicações mal forjadas foram lançadas para justificar a cena.
Caramba! Como foi que não se deu pelo perigo no período de ensaios? Que vergonha, que triste figura! Os artistas desencantados e o público frustrado, todos reunidos na rua, frente à porta do Nacional, comentando a bizarra cena, não deixando de reclamar e mostrar a sua indignação.
As ordens superiores expressas pela Senhora Ministra da Cultura, doutora Rosa da Cruz e Silva, não convenceram nem encontraram respaldo em nenhuma das verdades inventadas. Ficava bastante claro que tudo o que se relacionasse com denúncias da corrupção devia ser vetado. Não se incomodavam com o escândalo. E relativamente à Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, que para lá da cedência da sala nada tinha a ver com o espectáculo, havia uma ordem que já não podia ser ocultada. Devia ser impedido o seu trabalho, tudo o que lhe desse visibilidade! Obedecia-se cegamente a uma ordem superior, emanada há bastante tempo. Era entidade não grata ao regime, por isso. Destinada a morrer. Há muito se decidira que era instituição para abater, mais cedo ou mais tarde! Determinado por quem mandava! Dúvidas? Um rol de evidências: a escondida orientação às petrolíferas para negarem apoios à agremiação; a proibição à Comunicação Estatal de destacar actividades da Associação; a permanente negação do Estatuto de Entidade Pública à Caxinde, mesmo apoiada por pareceres favoráveis dos Ministérios das Finanças e da Justiça; a vergonhosa exclusão do grupo de Carnaval “Unidos do Caxinde” dos festejos da inauguração do Estádio 11 de Novembro, e os ridículos argumentos públicos, pobres, preconceituosos e discriminatórios, do responsável provincial da Cultura, doutor Manuel Sebastião, para além das dissimuladas mas nunca assumidas tentativas de retratação, de fazerem regressar à Festa do Carnaval, o “Unidos do Caxinde”, vencedor da competição em 2005 e 2010. Enfim, uma vergonha sem paralelo no domínio da cultura angolana!
A vida continuou, “As Orações de Mansata” não subiram à cena, mas o Nacional Cine-Teatro não caiu. O castigo prosseguiu na sua maldade, com a sala a não ser reaberta ao público. A mentira e as suas pernas muito curtas, foram apanhadas, mais uma vez, em flagrante delito. Tristemente, nas ruas da amargura e do descaramento. Passaram-se mais de dez anos e o Nacional Cine-Teatro manteve-se de pé, para merecer nos dias que correm, honras de restauração e de apoteótica glória a novos figurantes. Angariou-se dinheiro do Estado e foi-lhe dado, felizmente, tratamento merecido, o novo rosto que necessitava. As obras de restauro estão praticamente concluídas, mas têm, contudo, uma marca que as desvirtua e que jamais será apagada. Um conjunto de gestos inqualificáveis, inamistosos, repletos de atitudes impensáveis, numa mistura em que o esquecimento e o modo grosseiro como foi tratada a entidade que cuidou do edifício e o suportou durante trinta e muitos anos tiveram realce; sem o aviso prévio, sem negociação, sem a prestação de contas que a Lei estabelece e obriga todos, o Estado inclusive, quando existem contratos estabelecidos; sem o respeito a que se obrigam os subscritores de contratos legais que defendem quem geriu dignamente, num passado de prestígio, cuidando durante o longo período, a relíquia cultural, sem nenhum apoio estatal, hoje ostentada como se fosse obra particular de um Ministério que, a bem da verdade, esteve sempre alheio a tudo o que dissesse respeito à velha sala de espectáculos.
Apesar de todos os pressupostos, nunca foi reconhecido o merecido mérito à entidade que a protegeu, desconhecendo-se o motivo dessa decisão, embora se desconfie dela por óbvias razões. Jamais mereceu quaisquer pedidos de desculpas de ninguém e nessa maka, venceram apenas e como sempre, o oportunismo, a arrogância e as vaidades conhecidas dos eternos mestres da prepotência, do oportunismo e da exclusão.”
Fico por aqui. Com os habituais cumprimentos aos parentes, amigos, camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 19 de Julho de 2026










