
O Lobito tem grande parte dos seus edifícios construídos por gente que amava a cidade. Numa época em que a “consciência do possível” dava lugar à criatividade, os lobitangas erguiam obras que ainda hoje fazem parte da nossa memória. E é de uma delas que quero falar: o famoso “Bolo de Noiva”, nome pelo qual ficou conhecido o edifício da antiga Rádio Clube do Lobito, situado na Restinga, numa área contígua ao Clube Ferroviário.
A alcunha nasceu da própria arquitectura. O edifício, construído em betão branco, apresentava linhas modernas para a época e vários pisos sobrepostos, que faziam lembrar um bolo de casamento. A população não perdeu tempo. Baptizou-o de “Bolo de Noiva”, e assim ficou.
Nunca foi o nome oficial, mas tornou-se o mais conhecido. Durante décadas, bastava alguém dizer, “vamos ao Bolo de Noiva”, e ninguém perguntava onde era.
Mais do que um edifício bonito, era um ponto de encontro. Ali faziam-se programas de rádio, tocava-se música, divulgavam-se notícias e criavam-se amizades. Para muitas gerações de lobitangas, aquele espaço era parte da vida da cidade.
Confesso que nunca tinha dado grande importância à origem do nome. Pensava que fosse apenas mais uma daquelas estigas dos lobitangas, especialistas em atribuir alcunhas a tudo e a todos. Afinal, os camutangres da Canata, mestres na arte da brincadeira, eram capazes de deixar qualquer marinheiro acabado de desembarcar no Porto do Lobito sem perceber se lhe estavam a dar uma informação ou a pregar uma partida.
Mas certo dia o Marito Kacongo trouxe o assunto de volta numa das suas publicações. A curiosidade falou mais alto e fui consultar um dos meus “arquivos vivos”, o inconfundível E.T.B. o Mister Watela.
Mal ouviu a pergunta, respondeu em tom jocoso. Não és do Lobito como é que queres conhecer o famoso “Bolo de Noiva”?
Desatei a rir. Mas, por dentro, confesso que fiquei gelado. Naquele instante senti-me estrangeiro na minha própria cidade.
Depois explicou-me que o “Bolo de Noiva” era a antiga Rádio Clube do Lobito, fundada na década de 1950 por um grupo de carolas lobitangas. Naquele tempo, quando alguém gostava da cidade, metia a mão no bolso e ajudava a construir património. A rádio nasceu da iniciativa de empresários, comerciantes e amantes do Lobito. O dinheiro veio das quotas dos sócios, de donativos, da publicidade e de actividades culturais. Não consegui confirmar se o projecto teve a mão do arquitecto Canhão Bernardes, um engenheiro e escultor autodidata português que viveu e trabalhou na cidade do Lobito na década de 1960/70.
Depois veio a independência e com ela as mudanças políticas. E pasme-se, de Rádio Clube, o edifício passou a servir as Tropas Guarda Fronteiras de Angola (TGFA) e, como aconteceu com muito património nacional, entrou lentamente em declínio. O tempo faz o resto.
O que se constituiu num símbolo de cultura transformou-se, aos poucos, num espaço ocupado por venda de peixe, casebres improvisados, prostituição, bebidas e ponto de venda de liamba. Tudo isto numa das zonas mais nobres da Restinga, onde toda a gente vê, mas quase ninguém vê oficialmente.
Conta-se ainda que, durante o consulado de José Eduardo dos Santos, um antigo ministro, identificado pelas iniciais M.R, também lançou o olho ao terreno. Em Angola, há quem olhe para o património histórico da mesma forma que uma criança olha para um bolo de aniversário, não pergunta quem o fez, pergunta apenas quem vai ficar com a maior fatia.
Hoje, o velho “Bolo de Noiva” continua ali, de costas para o Atlântico e de frente a Baía do Lobito, como uma testemunha silenciosa de um tempo em que a cidade sonhava mais e construía melhor.
O “Bolo de Noiva” não precisa de discursos, promessas nem placas de inauguração. Precisa apenas de respeito.
Porque as cidades não vivem apenas de estradas novas e rotundas floridas. Vivem, sobretudo, da memória dos seus edifícios. E quando um povo deixa cair os símbolos da sua história, acaba por deixar cair por arrasto, aos poucos, a sua própria identidade.
Ainda há tempo de salvar o “Bolo de Noiva”? A resposta conduz-nos à outra pergunta simples: “haverá também vontade”?










