Quando o “empate” é a ordem do dia
Num campo de futebol, o árbitro é a autoridade máxima. A sua decisão é inapelável, o seu critério, lei. Mas o que acontece quando esse juiz deixa de apitar faltas e passa a ditar o placard? Quando, independentemente do número de golos marcados, o resultado final já está escrito nas entrelinhas dos balneários e nos corredores das federações?
Bem-vindos ao fenómeno da arbitragem mafiosa. Aqui, o óbvio é ofuscado pelo estratégico. Não importa se a equipa A marca três golos de belíssimo efeito; se a ordem é para que o jogo termine empatado ou com vitória da equipa B, o apito soará nos momentos precisos. Um penálti duvidoso aos 90 minutos, um fora de jogo milimétrico que anula um golo legal, um cartão vermelho transformador ou a falta deste. O espectáculo é uma fachada; a gestão do resultado, uma ciência oculta. Os organismos gestores, em conivência silenciosa, olham para o lado. Afinal, o negócio é mais rentável quando o imprevisível é domesticado e a emoção das massas é gerida como um rebanho.
Este enredo não é estranho ao mundo da política. Imaginemos um país hipotético onde o poder executivo actua como esse árbitro de topo. Um governo que, em vez de governar, se dedica a “gerir resultados”. As crises sociais, económicas e políticas não são acidentes de percurso; são ferramentas de controlo. Tal como no futebol, o número de “golos”: sejam eles empregos criados, índices de inflação ou indicadores de paz social. É irrelevante. O que importa é a narrativa final.
Cria-se uma crise social para justificar o aumento da vigilância. Fomenta-se uma crise económica para ditar resgates que favorecem os “amigos do apito”. Despoleta-se uma crise política para remodelar o tabuleiro e eliminar adversários incómodos, sempre sob o manto sagrado da “excepção” ou da “salvação nacional”. A corrupção não é um desvio; é o próprio motor. É o suborno pago ao “árbitro” para que o fora de jogo seja marcado, ou para que o penálti sobre o ministro da oposição seja ignorado.
A analogia é cruelmente perfeita. Em ambos os cenários, a verdade factual é substituída pela verdade autoritária. O povo (ou o adepto) é mantido na ignorância através do ruído: discussões sobre a “falta de braço” ou sobre o “orçamento de Estado” tornam-se cortinas de fumo para o acto central: a manipulação.
A arbitragem mafiosa no futebol e o desgoverno executivo partilham a mesma essência: a perversão do sistema em benefício de uma minoria que detém o apito. Enquanto a massa se digladia nos debates sobre se foi ou não penálti, ou sobre se o défice é culpa do partido X ou Y, os “gestores” sorriem nos camarotes, contando os lucros de mais um resultado combinado.
O que é mais assustador? Saber que o jogo está viciado, ou perceber que, mesmo sabendo, continuamos a comprar o bilhete e a entrar no estádio? Enquanto não houver VAR para a política, e enquanto a ética for apenas uma regra do jogo que se pode contornar com um bom advogado, continuaremos a assistir, resignados, ao espectáculo de um país onde o resultado final já se conhece antes do apito inicial.
O apito soa. O jogo termina. O placard marca o que sempre esteve planeado. E nós, como bons adeptos, vamos para casa a discutir a arbitragem, enquanto o verdadeiro resultado, o nosso futuro, é desviado nos bastidores.
O rei vai nu.
Viva o rei!










