O PARADOXO DEMOCRÁTICO. POR QUE OS TRABALHADORES VOTAM NOS ABASTADOS?

Em Angola, o sentimento de pertença a um partido sobrepõe-se à análise das políticas económicas, explicando por que comunidades pobres votam consistentemente no MPLA, mesmo em contextos de crise profunda.

POR JOAQUIM SEQUEIRA

Introdução

Nas “democracias” ocidentais contemporâneas, observamos um fenómeno que desafia a lógica elementar: trabalhadores[1] que votam em bilionários; comunidades empobrecidas que elegem defensores ferrenhos da redução de impostos para os mais ricos; e regiões desfavorecidas que se tornam redutos eleitorais dos partidos que mais contribuem para a desigualdade estrutural. Este artigo propõe uma análise aprofundada de seis mecanismos que explicam este paradoxo.

1. A guerra “cultural” vence a guerra económica

O eleitor não é uma calculadora ambulante. A Teoria da Identidade Social, de Henri Tajfel, demonstra que o ser humano prefere perder benefícios materiais a trair o seu grupo de referência. Quando o partido dos ricos assume bandeiras como Deus, pátria e família, e o partido dos trabalhadores se apresenta com programas progressistas (de género, ambiente, igualdade vs desigualdade e imigração), o eleitor tradicional faz uma escolha moral, não económica. A mais das vezes, a identidade religiosa e nacionalista sobrepõe-se à identidade de classe.Estudos sobre participação eleitoral nos PALOP mostram que indivíduos que se sentem próximos de um partido (identificação partidária)

têm maior probabilidade de votar, sugerindo que a lealdade “tribal” ao símbolo partidário é um motor mais forte que a análise económica da proposta. Em Angola, especificamente, a participação de eleitores insatisfeitos e desconfiados chega a superar a dos satisfeitos, o que indica que o voto é usado como instrumento de protesto e afirmação de pertença, não como endosso racional a políticas distributivas[1].

Estudos comparados sobre o “voto económico” mostram que, em países com elevada desigualdade, os eleitores tendem a punir o governo pelo desempenho da economia, mas apenas quando a economia piora. Durante períodos de austeridade, a identidade partidária (ex: PS vs PSD) mostrou-se frequentemente mais determinante do que a avaliação racional dos cortes orçamentais.

Ou seja, o trabalhador vota mais com o coração e a bíblia, do que com a calculadora.

2. A fé no “pingamento” da riqueza

Teoria do Eleitor Médio, de Anthony Downs, ajuda a entender a aposta do trabalhador médio no sucesso alheio. Muitas vezes se acredita que, se o empresário rico for desamarrado de impostos, contratará mais pessoas e o “bolo crescerá para todos”.

É a crença na mobilidade social, o “Sonho Americano” exportado para o mundo. O trabalhador vota em políticas que beneficiam o capital não por masoquismo, mas por uma esperança genuína de que, um dia, ele próprio poderá ser o patrão. Os dados, porém, contrariam essa fé: como demonstrou Thomas Piketty em “O Capital no Século XXI”, o rendimento do capital cresce sempre mais que o rendimento do trabalho, concentrando riqueza no topo.Em Angola, apesar do crescimento económico impulsionado pelo petróleo, a desigualdade mantém-se elevada. A taxa de abstenção entre indivíduos de baixa renda é significativamente maior, especialmente em Angola e Moçambique. Isto sugere que a 

esperança na mobilidade não se traduz em participação activa dos mais pobres, que se sentem excluídos do sistema. Pela cultura gerada ao longo dos anos, esperam poder ter acesso ao “bolo”.

Como exemplo, podemos indicar: as reformas de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA foram vendidas como “modernização”, mas resultaram num aumento brutal da desigualdade, que persiste até hoje.

A análise sobre o “eleitor médio” português mostra que partidos que ocupam o centro político (e não os extremos distributivos) têm vindo a vencer eleições. O eleitor médio português, frequentemente localizado no que é usualmente chamado de centro-direita em matérias económicas, aposta em políticas de estabilidade financeira, mesmo quando estas beneficiam desproporcionalmente os estratos superiores, ou seja, o capital.

Isto é, o pobre vota nos ricos não porque odeia a justiça ou a injustiça, mas porque ainda acredita no conto da mobilidade: “hoje pobre, amanhã patrão”.

3. O dinheiro como atalho cognitivo para a competência

A psicologia evolutiva ensina que seguimos líderes bem-sucedidos porque isso aumentou a nossa sobrevivência. O dinheiro funciona como um atalho mental: se enriqueceu, é inteligente; se é inteligente, saberá governar. A fortuna pessoal é confundida com capacidade política, quando gerir um país não é gerir uma empresa.

Como exemplo, podemos indicar a ascensão de figuras empresariais para a política em diversos países (Berlusconi, Trump, e candidatos em Portugal e a iniciar-se este processo em Angola) para ilustrar este viés.

Ou seja, confundir fortuna com sabedoria política é um pecado original da “democracia”ocidental e de quem a pretende copiar.

4. A lealdade “tribal” que transcende a razão

O voto é, muitas vezes, um acto de fidelidade herdado dos pais, cultivado desde a infância, imune a factos. A Teoria do Eleitorado Americano mostra que o voto é estável ao longo da vida. Mesmo que o partido se transforme num defensor dos ricos ou numa ditadura efectiva, o eleitor permanece porque o rótulo, a “camisola”, não mudou.

A tese de Cassiano Eusébio revela que a identificação partidária é o principal factor de previsão da participação eleitoral nos PALOP. Em Angola, o sentimento de pertença a um partido sobrepõe-se à análise das políticas económicas, explicando por que comunidades pobres votam consistentemente no MPLA, mesmo em contextos de crise profunda.

Tal como nos EUA, certas regiões de Portugal (ex: antigos redutos “social-democratas” no Norte) mantêm votações estáveis ao longo de décadas, independentemente da deriva ideológica dos partidos. Noutras regiões pobres ou de grandes desigualdades, como no Alentejo, a agressividade dos media, com enorme utilização da engenharia social, vai conseguindo alterar a orientação do voto (incluindo o grande centro eleitoral de Lisboa).

Ou seja, o eleitor não vota no candidato; vota na camisola que veste desde criança ou na orientação dos engenheiros sociais. A razão, a maioria das vezes, chega atrasada à cabine de voto.

5. A máquina de definição da realidade

Não se trata de comprar votos, mas de comprar a agenda. A Teoria do Agenda-Setting, de McCombs e Shaw, demonstra que os media não dizem às pessoas o que pensar, mas sobre o que pensar. Se a imprensa debate 24 horas os impostos altos e a corrupção (sempre imputada à esquerda), embora não se possa considerar linear, o pobre vota na direita porque desconhece alternativas distributivas, pois a engenharia social ao seu serviço conduz muito bem as suas campanhas.

Como exemplo: o controlo dos meios de comunicação por magnatas (na Itália, Hungria, e noutros países) molda a visão do mundo do eleitorado rural e pobre, definindo a agenda pública.

Ou seja, o rico não compra o voto do pobre; compra a lente através da qual o pobre vê o mundo.

6. A ilusão do futuro rico

No mecanismo mais trágico, o pobre não se identifica com a sua classe actual, mas com a classe que aspira ser. Vota contra os seus próprios interesses porque acredita que “um dia”será rico e não quer que os impostos, ou as políticas sociais, o prejudiquem então.

A baixa participação eleitoral dos mais pobres em Angola, documentada por Eusébio, pode ser lida como sintoma desta ilusão: ao não se verem representados no presente, muitos abstêm-se ou votam em elites que prometem um futuro de prosperidade que nunca chega.

A classe média-baixa portuguesa, historicamente, votou em partidos que defendem a “estabilidade financeira” em detrimento da expansão do Estado Social, alimentando a expectativa de que a sua situação irá melhorar sem necessidade de redistribuição.

Ou seja, o pobre vota contra si próprio porque se vê no espelho do futuro, não na fotografia do presente.

A saída pela narrativa

Estes mecanismos ajudam a explicar o paradoxo do voto dos trabalhadores nos ricos. Mas a conclusão é mais profunda: não é com mais dados que se vence este ciclo. É com narrativa.

Os ricos vencem a batalha das ideias porque contam uma história simples e poderosa: a do mérito, do empreendedorismo, da ordem e da liberdade individual. Enquanto os partidos que defendem os trabalhadores não os tratarem como heróis, o trabalhador votará em quem o eleva, mesmo que esse “elevar” seja apenas retórico.

A mudança exige, portanto, uma nova gramática política: falar de dignidade, reconhecimento, pertença e orgulho de classe. Só quando os trabalhadores se sentirem orgulhosos da sua classe e não envergonhados por ela, e tiverem melhor informação política, deixarão de votar em quem os despreza para eleger quem verdadeiramente os representa.

[1] Classes e grupos sociais explorados.

[2] Considerando que as eleições são sérias.

Notas

  1. Teoria da Identidade Social (Tajfel, 1983) propõe que a identidade social é uma “parcela do auto-conceito dum indivíduo, que deriva do reconhecimento da sua pertença a um grupo (ou grupos) social, juntamente com o significado emocional e de valor associado àquela pertença”.
  2. Teoria da Identidade Social explica o favoritismo endogrupal: os sujeitos atribuem características positivas ao seu grupo e direccionam atributos negativos a outros grupos, como forma de manter uma auto-estima positiva.
  3. Teorema do Eleitor Médio (Downs, 1957) estabelece que, em eleições maioritárias com duas opções consideradas principais, ambos os partidos convergem para a posição do eleitor médio, que separa o eleitorado em duas metades.
  4. Teoria do Agenda-Setting (McCombs & Shaw, 1972) estabelece que os meios de comunicação têm a capacidade de influenciar a importância atribuída pelos públicos aos temas da agenda: “a imprensa pode não ter sucesso em dizer às pessoas o que pensar, mas é extraordinariamente bem-sucedida em dizer aos leitores sobre o que pensar”.
  5. Dados sobre participação eleitoral em Angola: estudo com 22.747 observações nos PALOP (2001-2023) mostra que baixos rendimentos estão associados a menor participação eleitoral, particularmente em Angola e Moçambique.

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