ENQUANTO O ROVOS RAIL FAZ HISTÓRIA, O CFB DEIXA-A ENFERRUJAR

SAMPAIO JÚNIOR

O turismo em Angola continua a ser marcado por uma forte componente discursiva. Multiplicam-se conferências, fóruns internacionais, estratégias e planos de promoção que, apesar da sua importância institucional, têm produzido resultados ainda pouco perceptíveis na diversificação da economia nacional e na valorização do património turístico.

A chegada, no passado domingo (19), do luxuoso Rovos Rail ao Lobito voltou a demonstrar o potencial do turismo ferroviário em África. Proveniente de Dar es Salaam, na Tanzânia, o histórico comboio transportou dezenas de turistas internacionais, alguns dos quais ficaram hospedados no Hotel Terminus, enquanto outros permaneceram nas elegantes carruagens da própria composição.

A visita reabriu o debate sobre o aproveitamento do extraordinário património ferroviário angolano.

O especialista e promotor do turismo Jorge Nunes, conhecido pelo trabalho de divulgação dos destinos turísticos de Angola, pela valorização do património e pelos artigos de opinião que publica, sobretudo sobre a província de Benguela, manifestou preocupação com aquilo que considera ser uma progressiva descaracterização do turismo em Angola.

Na sua perspectiva, o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) possui um património histórico de valor incalculável que permanece praticamente desaproveitado.

“Cada carruagem abandonada representa uma oportunidade turística desperdiçada”, sustenta.

Enquanto o Rovos Rail percorre vários países africanos utilizando carruagens da década de 1960 cuidadosamente restauradas, proporcionando uma das experiências ferroviárias mais prestigiadas do mundo, o Caminho de Ferro de Benguela conserva carruagens históricas de 1927.

São carruagens mais antigas. São testemunhos da história ferroviária de Angola. São peças que poderiam constituir um dos maiores ex-líbris turísticos da província de Benguela.

Contudo, encontram-se abandonadas, longe do olhar do público e sujeitas à degradação provocada pelo tempo.

Quando deixaram de circular, recorda Jorge Nunes, foi anunciado pelo próprio CFB que estas carruagens seriam enviadas para a África do Sul para recuperação, apesar de, no passado, esse trabalho ser feito nas oficinas centrais da empresa situadas no Huambo, que já gozaram do estatuto de serem as maiores e mais competentes ao nível do continente africano, porque tinham capacidade técnica e humana para suprir todas as necessidades dos meios que operavam na via.

E aquilo que poderia hoje constituir um museu ferroviário vivo, um comboio histórico de referência internacional ou um dos mais diferenciadores produtos turísticos nacionais continua por concretizar.

Para Jorge Nunes, o Caminho de Ferro de Benguela representa um dos maiores activos patrimoniais da empresa ferroviária e do próprio sector turístico nacional.

O Ministério dos Transportes poderia desenvolver um projecto de recuperação e valorização das antigas locomotivas e carruagens, inspirando-se em experiências internacionais de sucesso como a do Rovos Rail. Porque copiar boas práticas não constitui crime de lesa-pátria.

O relançamento poderia começar pelo turismo interno, criando programas regulares de viagens históricas e culturais. Como exemplo, recordo a excursão ferroviária organizada pelo jornalista Ladislau Fortunato até ao Luau, iniciativa que registou grande adesão e proporcionou aos participantes uma experiência amplamente elogiada.

As composições históricas recuperadas poderiam voltar a circular sob designações emblemáticas como o Comboio Malaou Camakove, nomes que ainda permanecem vivos na memória colectiva de várias gerações de angolanos. Mais do que simples locomotivas, simbolizaram uma época em que o caminho-de-ferro ligava pessoas, aproximava regiões e impulsionava o desenvolvimento do país. 

A sua circulação foi interrompida pelo conflito armado, mas a recuperação destas composições representaria não apenas a preservação de um valioso património histórico, como também a oportunidade de transformar a nostalgia num produto turístico de elevado valor cultural e económico.

Na visão de Jorge Nunes, a história ferroviária de Angola não deve permanecer esquecida num parque ferroviário quando possui potencial para se transformar num dos principais embaixadores do turismo nacional.

Apesar do discurso recorrente sobre promoção turística, estratégias e desenvolvimento, considera que continuam por criar produtos turísticos verdadeiramente diferenciadores.

“O turismo não se constrói apenas com campanhas publicitárias. Constrói-se através da criação de experiências, da valorização do património e da preservação daquilo que torna um destino único”, defende.

Neste contexto, o Corredor do Lobito poderá assumir um papel determinante. Para além da sua importância logística e económica, representa uma plataforma com elevado potencial para integrar projectos de turismo ferroviário, cultural e patrimonial.

Imagine um turista chegar ao Lobito e embarcar numa locomotiva histórica impecavelmente restaurada, atravessando as paisagens do interior de Angola, ouvindo histórias dos antigos maquinistas, saboreando gastronomia regional e descobrindo um país através dos carris? Isso vende-se. Isso emociona. Isso cria riqueza. Porque, convenhamos, uma carruagem enferrujada parada num parque ferroviário só desperta interesse às cabras que procuram sombra.

Já um comboio histórico a apitar novamente pelos trilhos seria daqueles sons capazes de acordar não apenas o turismo, mas também a esperança de que nem tudo o que ficou parado precisa de permanecer esquecido.

E talvez, nesse dia, Angola deixe finalmente de falar tanto de turismo, para começar, enfim, a vivê-lo. A fazê-lo.

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