DEMOCRACIA INTERNA: O GRANDE TESTE DO IX CONGRESSO DO MPLA E DA MATURIDADE POLÍTICA DE ANGOLA

POR LUÍS SILVA CARDOSO 

“As instituições não se medem apenas pela forma como exercem o poder. Medem-se, sobretudo, pela forma como aceitam ser desafiadas”.

À medida que se aproxima a realização do IX Congresso Ordinário do MPLA, o debate político não pode ser reduzido à escolha de um nome para a liderança do partido. A questão central é mais exigente e estrutural: que modelo de legitimidade política e que padrão de democracia o país pretende consolidar?

Depois de cinco décadas no poder, o MPLA ultrapassou a condição de simples organização partidária. Tornou-se uma instituição com impacto directo no funcionamento do Estado, na estabilidade política e na confiança dos cidadãos. Por isso, o que estiver em causa neste congresso transcende a esfera interna do partido e projecta-se, inevitavelmente, sobre as eleições gerais de 2027 e sobre a própria qualidade da democracia angolana.

O momento exige, por isso, mais do que posicionamentos táticos. Exige maturidade institucional, respeito pelas regras e clareza de princípios.

O VERDADEIRO DEBATE

Muito se tem discutido sobre possíveis candidaturas e equilíbrios internos. Contudo, centrar o debate em nomes é reduzir a complexidade do momento.

O verdadeiro debate não deve ocorrer entre pessoas, mas sim entre dois fundamentos de legitimidade política.

Por um lado, a legitimidade histórica, construída ao longo da luta de libertação, da consolidação do Estado e da governação. Por outro, a legitimidade procedimental, baseada no respeito pelos estatutos, na transparência, na igualdade de oportunidades e na confiança nos mecanismos institucionais.

No contexto contemporâneo, estas duas dimensões não se excluem, complementam-se. Mas é cada vez mais a legitimidade procedimental que determina a credibilidade das instituições perante uma sociedade mais informada e exigente.

A DEMOCRACIA COMEÇA DENTRO DOS PARTIDOS

Há um princípio essencial que não pode ser ignorado: a qualidade da democracia de um país depende, em larga medida, da qualidade da democracia praticada nos partidos políticos., porque são instituições de interesse público. É neles que se formam lideranças, se definem políticas e se estruturam alternativas de governação.

Por isso, quem pretende governar democraticamente deve demonstrar, antes de mais, capacidade para organizar processos internos transparentes, previsíveis e inclusivos.

CONGRESSO DE CONFIRMAÇÃO OU DE ESCOLHA? 

É esta a questão que se coloca no actual contexto.

Se os estatutos definem prazos e procedimentos para apresentação e validação de candidaturas, é fundamental que esses mecanismos sejam integralmente respeitados antes de qualquer conclusão sobre o desfecho do processo.

Declarações antecipadas sobre a existência de um único candidato podem traduzir preferências políticas legítimas, mas não substituem as decisões dos órgãos competentes nem contribuem para reforçar a percepção de imparcialidade.

Em democracia, a forma é parte do conteúdo.

A força de uma liderança não resulta apenas da vitória, mas da confiança generalizada na forma como essa vitória é alcançada.

 A CENTRALIDADE DA IMPARCIALIDADE 

Qualquer processo eleitoral depende de um princípio elementar: não basta que as regras sejam justas, é necessário que sejam percebidas como tal.

Os órgãos responsáveis pela organização do congresso têm, por isso, uma responsabilidade acrescida. Devem garantir igualdade de tratamento, clareza de procedimentos e transparência nas decisões.

A credibilidade do processo começa na confiança no árbitro.

Qualquer alteração de regras ou procedimentos deve ser devidamente fundamentada, publicamente comunicada e aplicada de forma uniforme.

POLÍTICA E JUSTIÇA: PLANOS DISTINTOS 

Outro ponto incontornável prende-se com a relação entre política e justiça.

Num Estado de Direito, coexistem dois princípios fundamentais: ninguém está acima da lei e ninguém pode ser considerado culpado sem decisão judicial definitiva.

A aplicação destes princípios deve ser rigorosa, uniforme e independente de contextos políticos. A confiança na justiça é indissociável da confiança na democracia.

O PESO DA HISTÓRIA E OS LIMITES DA HISTÓRIA 

O percurso histórico das figuras políticas angolanas não pode ser ignorado. Muitos dos actuais protagonistas participaram em momentos decisivos da construção do Estado.

Esse legado merece reconhecimento. Contudo, a história, por si só, já não basta.

A sociedade contemporânea exige também legitimidade procedimental. Quer saber não apenas quem lidera, mas como essa liderança é escolhida.

UMA NOVA GERAÇÃO, NOVAS EXIGÊNCIAS 

Angola mudou profundamente.

É hoje um país mais jovem, mais urbano, mais escolarizado e mais conectado. Esta nova geração valoriza a história, mas exige transparência, prestação de contas, igualdade de oportunidades e previsibilidade institucional.

Nenhuma organização política pode ignorar esta transformação.

PLURALIDADE E UNIDADE 

Durante muito tempo, a competição interna foi vista como sinal de fragilidade. A experiência comparada demonstra o contrário.

Os sistemas mais robustos são aqueles que conseguem integrar divergências dentro de regras institucionais estáveis.

A pluralidade não enfraquece. O que enfraquece é a ausência de regras credíveis para gerir diferenças.

Discordar não é dividir. Concorrer não é desestabilizar. Apresentar alternativas pode, pelo contrário, reforçar a legitimidade colectiva.

 O SIGNIFICADO POLÍTICO DO CONGRESSO

O IX Congresso será observado muito para além do MPLA.

Cidadãos, académicos, parceiros internacionais e investidores procurarão sinais de previsibilidade, maturidade institucional e confiança nas regras.

Mais do que o resultado, será o processo a definir o significado político do momento.

O congresso poderá afirmar o MPLA e, concomitantemente Angola, como um sistema capaz de acomodar competição interna com estabilidade, ou, pelo contrário, reforçar dúvidas sobre a abertura do seu funcionamento político.

RESPONSABILIDADE COLECTIVA 

Este momento exige responsabilidade de todos:

  • ⁠À direção partidária cabe garantir transparência, imparcialidade e respeito pelos estatutos.
  • À militância compete participar livremente e decidir em consciência.
  • ⁠À sociedade civil cabe acompanhar criticamente sem cair em polarizações estéreis.
  • À academia exige-se análise rigorosa, independente e informada.
  • ⁠À comunicação social impõe-se equilíbrio e distinção entre factos e interpretações.

UMA OPORTUNIDADE HISTÓRICA 

O IX Congresso do MPLA pode ser apenas mais um momento partidário. Ou pode afirmar-se como um marco de maturidade institucional, demonstrando que um partido com cinquenta anos de governação é capaz de se renovar através das suas próprias regras.

Nenhuma organização se fortalece fechando o debate. Fortalece-se criando mecanismos legítimos para o organizar.

Nenhuma liderança perde autoridade por competir. Pelo contrário, legitima-se através da confiança que inspira no processo que a escolhe.

A QUESTÃO DECISIVA 

No fim, a pergunta que ficará não será apenas quem venceu. Será outra, mais profunda e duradoura:

O processo fortaleceu ou enfraqueceu a confiança dos cidadãos nas instituições?

É dessa resposta que dependerá não apenas a legitimidade do próximo ciclo político, mas também a qualidade da democracia angolana nas próximas décadas. Porque, em última instância, a maior vitória não será a de um candidato. Será a vitória das regras sobre as conveniências, das instituições sobre os interesses circunstanciais e da democracia sobre qualquer forma de exclusão.

Só assim o MPLA poderá renovar a sua legitimidade. E só assim Angola poderá consolidar plenamente a sua democracia.

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