AO CONTRÁRIO DO CORNO, ANGOLA É SEMPRE A PRIMEIRA A SABER

Uma sociedade cresce quando aprende a trocar a curiosidade pela responsabilidade, a fofoca pela verdade e o julgamento precipitado pelo respeito.

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Em Angola há duas instituições que nunca entram em greve: a zunga da informação e a Rádio Candongueiro FM. Não têm antena, não pagam licença, mas têm uma cobertura nacional que faria inveja a qualquer estação televisiva.

O velho ditado diz que “o corno é o último a saber”. O pobre homem anda todo vaidoso, compra flores, paga o jantar, leva a esposa ao salão e ainda diz aos amigos: “A minha dama é séria”. Enquanto isso, o bairro inteiro já sabe o nome do “cunhado de serviço”, o taxista já conhece os horários, a mamã da quitanda já faz descontos ao visitante frequente e até o segurança do prédio cumprimenta o amante com um sorriso diplomático.

Só falta o marido. 

Mas há um detalhe que os especialistas da Rádio Candongueiro raramente analisam.

O dia em que o corno começa a desconfiar dos movimentos da esposa, dos telefonemas atendidos na varanda, das reuniões que terminam sempre “mais um bocadinho”, dos “primos” que aparecem de repente e dos sorrisos acompanhados de um “não é nada”, esse dia já ninguém controla o desfecho.

A reacção nem sempre é aquela que a plateia esperava. Afinal, ele foi o último a saber. Enquanto todos riam, comentavam e faziam apostas, ele continuava a viver uma realidade fabricada. Quando a verdade lhe bate à porta, chega carregada de humilhação, vergonha, revolta e, por vezes, de decisões imprevisíveis. Há quem chore, há quem perdoe, há quem abandone a casa e, infelizmente, há quem transforme a dor em tragédia.

Por isso, o velho ditado não é apenas motivo de gargalhada. Também é um aviso de que a mentira tem um prazo de validade e de que toda a verdade escondida acaba por cobrar juros.

E,  Angola resolveu contrariar o ditado do Corno ser o último a saber.

Aqui, quando acontece alguma coisa, o país inteiro sabe antes do protagonista. Basta um espirro em Luanda para, em Benguela, alguém já estar a dizer: “Eu já desconfiava”. No Huambo, garantem que têm provas. No Uíge aparece quem diz que já tinha avisado. Em Cabinda surge um áudio de cinco minutos com uma análise “profunda”. E, quando a notícia chega ao Bié, já vem acompanhada de fotografias, testemunhas e até de uma versão remixada.

Aqui, quando o assunto é política, economia, futebol, igrejas ou vida social, o país prefere sentir a dor da notícia, mas recusa-se a ser o último a saber. Pode doer, pode revoltar, pode até tirar o sono, mas o angolano gosta de dizer: “Ao menos já sei”.

É um protagonismo curioso: a notícia ainda nem ganhou certidão de nascimento e Angola já lhe organizou o baptismo, a confirmação e o funeral.

É o famoso “ouvi dizer”, esse ministro sem pasta que governa conversas desde os tempos da fuba e do funge.

No Roque Santeiro de antigamente, no São Paulo, no Asa Branca, no Catinton, no Palanca ou no Benfica, a notícia não caminha: corre de chinelos.

Há sempre um Kota Chico Esperto, uma Mana Fina Quiosa ou um Zeca Fofoca prontos para abrir uma conferência de imprensa debaixo da mangueira.

— Eh pá, não espalha!

Cinco segundos depois, o segredo já atravessou três municípios.Na política acontece o mesmo. Antes de um ministro cair, o povo já comenta. Antes de uma exoneração sair em Diário da República, o candongueiro já pergunta ao passageiro:

— Então, já arrumaste as gavetas?

No futebol, antes do treinador anunciar a convocatória, o taxista já sabe quem vai ficar no banco.

Nas igrejas, antes do pastor terminar o jejum, algumas mamãs da comissão já conhecem o motivo da campanha espiritual.

Até nas famílias acontece o milagre da informação instantânea. A tia do Sambizanga telefona para a prima do Cazenga, que liga à sobrinha do Kilamba, que envia um áudio para o primo em Viana. Resultado: a família inteira sabe da novidade… menos quem a protagonizou.

Angolano não gosta apenas de notícias. Gosta de lhes colocar tempero. Uma história simples entra magra e sai gorda. Entra de bicicleta e sai de avião. Entra como boato e sai como verdade absoluta.

É um verdadeiro campeonato nacional de imaginação. Mas, por trás da gargalhada, mora uma lição. Nem toda informação merece ser repetida. Nem toda conversa merece plateia. Nem todo segredo deve virar espetáculo.

Uma sociedade cresce quando aprende a trocar a curiosidade pela responsabilidade, a fofoca pela verdade e o julgamento precipitado pelo respeito.

Mas esse protagonismo só terá utilidade se vier acompanhado de responsabilidade. Porque o verdadeiro antídoto não é saber primeiro. É saber melhor. É confirmar antes de divulgar; é trocar a fofoca pelos factos; é substituir o boato pela verdade; é usar a informação para construir soluções e não para destruir reputações. Uma nação madura não se mede pela velocidade com que espalha notícias, mas pela sabedoria com que as trata.

Porque, no fim das contas, ser o primeiro a saber pode alimentar o ego por alguns minutos. Mas ser o primeiro a compreender, a reflectir e a agir com responsabilidade é o que constrói um país para muitas gerações. 

O ÚLTIMO CONSELHO AO CORNO… E A ANGOLA

Ao corno, fica um conselho de kota: não vivas apenas de confiança cega, mas também não vivas prisioneiro da desconfiança. O amor precisa de fidelidade, diálogo e verdade. Quem fecha os olhos para todos os sinais pode acabar por ser o último a saber; mas quem transforma cada sombra numa suspeita acaba por destruir aquilo que talvez nunca estivesse perdido.

E a Angola?

A Angola fica um conselho ainda maior.

Não basta ser a primeira a saber. É preciso ser a primeira a corrigir. Não basta descobrir o problema; é preciso resolvê-lo. Não basta denunciar a corrupção; é preciso combatê-la. Não basta identificar as assimetrias entre ricos e pobres, entre Luanda e as províncias, entre quem manda e quem obedece, entre o discurso e a realidade; é preciso ter a coragem de as reduzir.

Porque as assimetrias são como uma infiltração numa casa: quem passa todos os dias acaba por se habituar à mancha na parede, até que um dia o teto desaba.

Que Angola não seja apenas campeã da informação, mas também da transformação. Que deixe de ser apenas a primeira a saber e passe a ser a primeira a agir. Afinal, notícia nenhuma mata a fome, tapa um buraco na estrada, cria emprego ou devolve esperança. O que muda um país não é o boato; é a decisão.

E assim termina esta conversa de sábado: ao contrário do corno, Angola raramente é a última a saber. O desafio é outro: que também deixe de ser uma das últimas a resolver aquilo que toda a gente já sabe há muito tempo.

Que continuemos alegres, bem-humorados e donos desse calão que dá cor à nossa maneira de viver. Mas que saibamos usar a língua para construir pontes, e não para incendiar reputações.

Porque, no fim das contas, o verdadeiro sábio não é aquele que sabe tudo antes dos outros. É aquele que sabe quando deve falar… e, sobretudo, quando deve calar. 

E, como se diz na gíria; “onde se encontra um angolano há Angola”. Nunca fui corno. Tal como Angola, serei sempre o primeiro a saber o sabor de um bom mujimbo e capacidade de digeri-lo sem fazer estrago. 

Daí, o meu banzelo sabe o bom vinho tinto. 

Bom final de semana.

*Menga-Ma-Kimfumu

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