A ARQUITECTURA DA GOVERNAÇÃO ECONÓMICA: A SOLUÇÃO PRAGMÁTICA QUE ANGOLA PRECISA

A extinção do Ministério da Economia e a centralização dos fundos de fomento no Ministério das Finanças, foram os maiores erros estratégicos da governação económica recente.

JOAQUIM JAIME

Nos labirintos da governação angolana, poucas reformas provocaram distorções tão profundas e silenciosamente destrutivas quanto a extinção do Ministério da Economia. Não é saudosismo institucional, mas um reconhecimento lúcido de que a arquitectura do Estado importa – e importa decisivamente – quando o desafio é transformar uma economia dependente do petróleo num tecido produtivo diversificado, resiliente e inclusivo.

Os três níveis da governação económica e a falha estrutural

Importa distinguir, com clareza, os três níveis de actuação que todo o Estado moderno deve assegurar para uma gestão económica prudente e articulada.

nível estratégico pertence, por natureza, ao Ministro de Estado para a Coordenação Económica – a função de concepção, orientação política e visão de longo-prazo. Quem ocupa este lugar define as grandes linhas da política económica nacional, garante a coerência entre os diferentes sectores e assegura que as decisões governativas convergem para os objectivos estruturais do Estado. É uma função de cúpula, de síntese – não de execução directa.

nível táctico e operacional é, precisamente, a missão que deveria caber ao Ministério da Economia. É aqui que as orientações estratégicas se transformam em políticas concretas, em programas sectoriais, em instrumentos de fomento. O Ministério da Economia seria o braço executor da visão económica do Estado – aquele que articula, no terreno, as políticas de diversificação, apoio ao investimento privado, promoção da competitividade e estímulo ao empresariado nacional.

O que a extinção do Ministério da Economia produziu foi um vazio institucional gravíssimo: manteve-se a função estratégica de topo, mas eliminou-se o instrumento operacional que deveria dar-lhe corpo. Como construir uma locomotiva sem carruagens – a energia existe, mas não há estrutura para transportar a carga.

A falta de distinção clara entre estes níveis resulta em falhas de execução constantes. Sem esta clareza, o Estado angolano tem vivido uma confusão permanente: o nível estratégico afoga-se em tarefas operacionais, o nível operacional carece de orientação estratégica clara, e o resultado é a paralisia ou a execução fragmentada.

A transversalidade ignorada e a dissonância no Ministério da Indústria e Comércio

A falha torna-se ainda mais notável quando consideramos a natureza transversal da actividade económica. Todos os ministérios sectoriais são, na sua essência, ministérios económicos. O das Finanças gere os recursos públicos e define a política fiscal. O da Agricultura garante a segurança alimentar. O da Indústria e Comércio fomenta a produção nacional e regula os mercados. O dos Transportes constitui a espinha dorsal logística da economia.

Todos estes ministérios executam funções económicas sectoriais. Precisam, por isso mesmo, de um centro de coordenação horizontal que garanta a coerência entre as suas políticas. Esse centro era o Ministério da Economia. Sem ele, cada ministério sectorial actua na sua própria lógica, gerando fragmentação, duplicação de esforços, desperdício e ausência de uma narrativa económica unificada.

A situação agrava-se quando observamos o destino das funções que pertenciam ao extinto ministério. Parte das suas atribuições de nível táctico e operacional foi herdada pelo Ministério da Indústria e Comércio – um caso paradigmático de dissonância institucional interna. Por natureza, a função Indústria exige, para que Angola possa diversificar a sua base produtiva, uma política económica de pendor proteccionista, com defesa da produção nacional e incentivos estratégicos. Já a função Comércio, por sua essência, tende para uma posição liberal, de abertura de mercados e harmonização com as regras do comércio internacional.

Colocar estas duas visões antagónicas na mesma estrutura ministerial é garantir a paralisia decisória ou, pior ainda, a vitória silenciosa do liberalismo sobre as necessidades industriais do país. O resultado prático tem sido a perpetuação da dependência externa e a fragilização de qualquer tentativa consistente de industrialização.

O financiamento da diversificação: a falha que perpetua a dependência

A economia angolana confronta-se com dois grandes constrangimentos estruturais que se alimentam mutuamente. O primeiro é a economia informal, que concentra mais de 70% da riqueza efectivamente produzida no país e 80% por cento da população empregada, operando à margem do sistema fiscal, do sistema financeiro e das políticas públicas de fomento. O segundo é a industrialização da economia, fortemente dependente da indústria petrolífera, que gera uma ilusão de riqueza enquanto a base produtiva real permanece frágil, desarticulada e pouco competitiva.

A reconversão da economia informal só será possível com financiamento adequado, direccionado e ágil. A industrialização exige capital paciente, linhas de crédito adaptadas ao ciclo produtivo e instrumentos de fomento que acompanhem o investidor desde a concepção do projecto até à sua maturação comercial. Resolver estes dois constrangimentos é a chave para aumentar a base tributária, reduzir o desemprego, incrementar as exportações, diminuir as importações e, consequentemente, melhorar a política fiscal e monetária.

Ora, a arquitectura institucional actual comete um erro crasso ao colocar todos os fundos destinados ao fomento da diversificação económica e todos os instrumentos de financiamento inerentes à actividade produtiva sob a tutela do Ministério das Finanças. Esta opção retira operacionalidade à política económica, submetendo decisões de financiamento produtivo a lógicas eminentemente fiscalistas e orçamentais que pouco ou nada conhecem das dinâmicas sectoriais, das necessidades específicas de cada cadeia produtiva e dos ciclos reais do investimento.

Não faz qualquer sentido que o Ministério das Finanças detenha a chave do cofre da diversificação enquanto o Ministério da Indústria e Comércio detém a responsabilidade política pela sua execução. A separação entre a responsabilidade de executar e a responsabilidade de financiar é uma receita segura para a ineficácia, para a burocratização e para o desperdício de recursos escassos.

Uma solução estrutural para a agilidade do financiamento produtivo

Impõe-se, por isso, uma correcção institucional indispensável: a transferência de todos os fundos destinados ao fomento da diversificação económica e de todos os instrumentos de financiamento inerentes à actividade produtiva para a tutela do Ministério da Indústria e Comércio. Esta medida visa tornar o financiamento mais ágil, menos burocrático e efectivamente orientado para os objectivos de desenvolvimento produtivo.

Esta transferência permitirá alavancar com eficácia programas estruturantes como o PRODESI (Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações), o PLANAPESCA (Plano Nacional de Fomento das Pescas), o PLANAPECUÁRIA (Plano Nacional de Fomento e Desenvolvimento da Pecuária), o PLANAGRÃO (Plano Nacional de Fomento para a Produção de Grãos), o PREI (Programa de Reconversão da Economia Informal) e outros programas sectoriais que, actualmente, padecem da falta de articulação entre a responsabilidade política e os meios financeiros para a concretizar.

A centralização dos recursos de fomento no Ministério da Indústria e Comércio permitirá:

  1. Articular financiamento e política sectorial – as decisões de alocação de recursos serão tomadas por quem conhece as prioridades, as oportunidades e os estrangulamentos de cada sector produtivo.
  1. Reduzir a burocracia e acelerar o desembolso – eliminando a dupla validação (técnica e financeira) que actualmente alonga os prazos e desmotiva os investidores.
  1. Alinhar os instrumentos financeiros com os ciclos produtivos reais – em vez de submeter o financiamento da agricultura, da indústria ou da pesca a lógicas orçamentais concebidas para a gestão da despesa pública.
  1. Criar sinergias entre programas – permitindo que o PRODESI dialogue com o PLANAGRÃO, que o PLANAPESCA se articule com a industrialização do pescado, e que o PREI encontre nos programas industriais a porta de saída para a formalização sustentável.
  1. Responsabilizar o Ministério da Indústria e Comércio pelos resultados – quem detém os recursos deve ser responsabilizado pelos resultados, criando um círculo virtuoso de prestação de contas e eficácia.

A solução pragmática: uma Secretaria de Estado da Economia com competências financeiras alargadas

Neste quadro, a solução mais pragmática e imediatamente exequível passa por instituir uma Secretaria de Estado da Economia no âmbito do Ministério da Indústria e Comércio, dotando-a não apenas das competências de coordenação económica e diversificação, mas também da gestão directa dos fundos e instrumentos financeiros de fomento produtivo.

Esta Secretaria de Estado seria responsável por:

  1. Coordenar as políticas de diversificação económica – articulando com os ministérios sectoriais (Agricultura, Pescas, Finanças, Transportes, etc.) para garantir coerência estratégica e operacional.
  1. Gerir todos os fundos de fomento à diversificação – assegurando que os recursos do PRODESI, PLANAPESCA, PLANAPECUÁRIA, PLANAGRÃO, PREI e demais programas chegam efectivamente aos promotores e empresas com agilidade e transparência.
  1. Promover a reconversão da economia informal – através de uma abordagem integrada que combine financiamento, simplificação administrativa, incentivos fiscais e formação empresarial.
  1. Assegurar a articulação entre reforma tributária e ambiente de negócios – garantindo que as reformas fiscais são acompanhadas de reformas na regulação dos mercados e na promoção da concorrência.
  1. Operacionalizar a política industrial – transformando a visão estratégica em programas concretos de fomento à produção nacional, apoiando o investimento privado e estimulando o empresariado nacional.

Considerações finais

A história da governação económica ensina que as grandes transformações não acontecem por decreto – acontecem pela arquitectura institucional. Angola tem os recursos, tem o potencial humano e tem a visão política. Falta-lhe, em parte, a estrutura que transforme essa visão em realidade.

A reconstituição plena do Ministério da Economia seria o ideal. Mas enquanto essa decisão de Estado não for tomada, a criação de uma Secretaria de Estado da Economia no âmbito do Ministério da Indústria e Comércio, com competência para gerir os fundos e instrumentos financeiros de fomento produtivo, constitui uma correcção indispensável – e urgente – para devolver à governação económica angolana a coerência e eficácia que o desenvolvimento do país exige.

A extinção do Ministério da Economia e a centralização dos fundos de fomento no Ministério das Finanças foram os maiores erros estratégicos da governação económica recente. A sua correcção – ainda que sob a forma de uma Secretaria de Estado com competências financeiras alargadas – será o primeiro grande acto do próximo ciclo de governação e o ponto de partida para a Angola económica que o país merece.

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