
“Quem não aprende com a ressaca, volta sempre à garrafa”. Provérbio que podia muito bem ter nascido num quintal angolano.
Em Angola, quando alguém exagera na gasosa, mistura Cuca, Eka, vinho de pacote, maruvo, whiskie The Best e ainda aceita “só mais uma”, até porque ninguém pergunta quanto bebeu. A pergunta é outra: Já chamou o Diogo?
E quando o infeliz dobra os joelhos, abraça a terra e começa a devolver tudo o que o estômago já não suporta, a multidão decreta, entre gargalhadas: Eh pá! Chamou o Diogo!
Curioso… Ninguém conhece o Diogo. Nunca foi candidato. Nunca apareceu no Diário da República. Nunca tomou posse como ministro. Mas sempre aparece quando os excessos cobram a factura.
Talvez por isso o Diogo seja uma das maiores metáforas da nossa existência colectiva. Porque o Diogo não é um homem. É a consciência a chegar atrasada. É a verdade depois da propaganda. É a realidade depois da ilusão. É a conta depois da festa. É o preço depois do desconto. É a factura que ninguém queria pagar.
Na verdade, chamar o Diogo nunca foi apenas vomitar. É expulsar aquilo que já fazia mal por dentro. É o corpo a dizer “basta”. É a natureza a recusar aquilo que a consciência aceitou.
E será que apenas os bêbados chamam o Diogo? Não! Há governos que também chamam o Diogo. Há economias que chamam o Diogo. Há partidos políticos que chamam o Diogo. Há empresas, igrejas, famílias e até povos inteiros que, um dia, descobrem que viveram embriagados pelas próprias ilusões.
Angola conhece bem essa sensação. Durante anos, embriagámo-nos com o petróleo como quem acredita que a garrafa nunca acaba. Pensámos que o crude resolveria tudo. Importámos o que podíamos produzir. Consumimos mais do que criámos. Celebrámos inaugurações como quem celebra finais felizes. Confundimos crescimento com desenvolvimento. Confundimos riqueza com prosperidade. Confundimos discurso com transformação.
E quando o preço do petróleo caiu… chamámos o Diogo.
Também nos embriagámos de promessas. Em cada campanha eleitoral, servem-se copos cheios de esperança. Há emprego para todos. Casas para todos. Água para todos. Luz para todos. Estradas para todos. Hospitais para todos.
No palanque, a música toca alto. As bandeiras dançam. Os aplausos escondem as perguntas. Mas chega o dia seguinte… a ressaca instala-se. É então que o povo, com a sabedoria que só o musseque conhece, murmura: afinal… chamámos o Diogo.
Mas seria justo pensar que esta é uma doença exclusivamente angolana? Nem pensar. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa chamou o seu Diogo. As cidades estavam reduzidas a escombros. Contudo, em vez de permanecer caída sobre o próprio vómito histórico, levantou-se, reconstruiu instituições, investiu na educação, na indústria, na ciência e fez da crise um ponto de partida.
O Japão chamou o Diogo em 1945. Recebeu duas bombas atómicas. Perdeu quase tudo. Mas recusou transformar a tragédia em destino. Transformou disciplina em riqueza, conhecimento em poder e trabalho em identidade.
A Coreia do Sul chamou o Diogo. Nos anos 1950 era um dos países mais pobres do mundo. Hoje exporta tecnologia, automóveis, cultura e inovação.
O Ruanda chamou o Diogo depois do genocídio de 1994. Olhou para o espelho da própria dor, decidiu que o ódio não seria o seu programa de governo e escolheu reconstruir instituições, promover estabilidade e investir no futuro.
Nenhum destes povos esqueceu o passado. Mas nenhum decidiu morar eternamente dentro da ressaca. Porque há duas maneiras de chamar o Diogo: uns vomitam… limpam a boca… e voltam exactamente para a mesma garrafa; outros vomitam… levantam a cabeça… apontam o dedo para o horizonte e dizem: Nunca mais.
A verdadeira diferença entre as nações não está na quantidade de crises que enfrentam. Está na capacidade de aprender com elas.
O Diogo, afinal, é um professor severo. Não fala. Não faz discursos. Não participa em debates televisivos. Mas ensina através da dor.
A política angolana talvez precise menos de quem prometa novas ‘garrafas’ para produzir embriaguez, e mais de quem tenha coragem de fechar as destilarias da corrupção, do desperdício, da incompetência e da impunidade. Porque o desenvolvimento nunca nasce da embriaguez. Nasce da lucidez.
A democracia também não vive de euforia permanente. Vive da vigilância dos cidadãos.
Um povo que perde a capacidade de questionar embriaga-se facilmente. E um cidadão embriagado pela propaganda deixa de distinguir o copo da algema.
No Cazenga, no Rangel, no Sambizanga, em Viana, no Lubango, no Huambo, em Cabinda ou no Moxico, a conversa continua simples.
O povo talvez não conheça todas as teorias económicas. Mas conhece a diferença entre promessa e panela. Entre estatística e prato. Entre conferência e emprego. Entre discurso e resultado.
No fim de contas, a grande pergunta desta crónica não é quem chamou o Diogo. A pergunta é outra: “Depois de chamar o Diogo, teremos a coragem de levantar a cabeça, limpar a boca, olhar para a frente e construir um país onde a ressaca deixe de ser um modo de vida”?
Porque as grandes nações não são aquelas que nunca caíram. São aquelas que, depois de vomitarem os seus erros, tiveram a humildade de aprender, a coragem de mudar e a determinação de caminhar em frente.
E como diria o velho kota Nguami Maka, sentado à sombra da mulemba, com um copo de kaporoto na mão e um sorriso maroto no rosto: “Meu filho, o Diogo não mata ninguém. O que mata é a insistência na mesma bebedeira”.
Numa altura em que há um calor do inferno nesta terra longínqua onde vivo com uma canícula, para torrar o diabo, vou reclamar umas fresquinhas a estalarem. Quem sabe, se depois… curiosamente, não chamo o Diogo!
*Menga-Ma-Kimfumu










