BONIFÁCIO TCHIMBO, O “SAPO”, E A DEFESA DA IDENTIDADE LINGUÍSTICA

SAMPAIO JÚNIOR

Não se trata apenas de debater palavras, gramáticas ou classificações linguísticas. Trata-se de reafirmar identidades, resgatar memórias e garantir que os saberes acumulados ao longo de gerações continuem a ser transmitidos.

A VII Conferência sobre Línguas e Culturas, promovida pelo Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, afirmou-se como um importante espaço de valorização das línguas, culturas e saberes angolanos. Pela diversidade dos participantes, pela riqueza das abordagens e pela profundidade das reflexões apresentadas, tornou-se evidente que o debate em torno das línguas nacionais está a ser conduzido numa perspectiva de integração plena e de afirmação identitária. O próprio lema da conferência “Dizer o Mundo em Línguas Angolanas: Etnolinguística, Memória e Transmissão dos Saberes” traduz a necessidade de reconhecer as línguas nacionais como instrumentos vivos de pensamento, memória colectiva e continuidade cultural.

Durante o encontro, o professor Adriano Safuanda levantou uma questão pertinente: a ausência de uma designação oficial clara para as línguas nacionais. “Como devemos tratá-las: línguas nacionais, dialectos ou línguas locais?”, questionou. Para o académico, é fundamental que exista uma definição consensual e institucionalizada, capaz de conferir prestígio, reconhecimento e integração efectiva a estas línguas no espaço nacional.

O que se pôde aferir é que o PIAGET reconhece a importância de investir na formação especializada de académicos nos domínios da linguística africana, sociolinguística, etnolinguística e áreas afins. Estas conferências, realizadas no âmbito das celebrações do Dia de África, oferecem à comunidade académica ferramentas de análise e investigação ajustadas à complexidade da realidade linguística e cultural angolana.

Sobressaiu, igualmente, a consciencialização de que Angola é uma comunidade plurilingue, e que o domínio de duas ou mais línguas deve ser encarado como motivo de orgulho e riqueza nacional. Como sublinhou o professor Bonifácio Tchimbo, “a língua é sempre propriedade de um grupo e, para esse povo, ela será sempre o princípio da identificação”.

Angola não é apenas um território, é identidade viva. A sua história ecoa nas ruas, nos portos de passagem, na mistura dos povos, nos gestos e nas expressões culturais que atravessam gerações. Em Benguela, danças tradicionais como o Tchipuete, Lundungo, Tchinganji e Kaviúl revelam não apenas movimentos coreográficos, mas autênticas linguagens culturais. Interpretadas por instrumentos musicais ancestrais e acompanhadas por indumentárias carregadas de simbolismo, estas manifestações traduzem códigos próprios de comunicação, pertença e memória colectiva.

Nas danças, é a estrutura rítmica que orienta o corpo, determina os movimentos e impulsiona a animação popular. Cada passo, cada som e cada indumentária contam histórias silenciosas de resistência, ancestralidade e identidade cultural. Preservar as línguas e culturas angolanas é, acima de tudo, preservar a alma plural de Angola.

O que mais me anima neste momento, é a resistência cultural e académica protagonizada pelo professor Bonifácio Tchimbo. Curiosamente, em umbundu, tchimboto designa o sapo, esse batráquio cuja sonoridade ecoa nos lamaçais e nas águas paradas, anunciando a sua presença com persistência e vitalidade. Talvez não seja apenas uma coincidência linguística, pois também o professor faz ouvir a sua voz de forma firme e constante na defesa de um património que muitos insistem em ignorar.

Graças ao seu empenho, os estudos das línguas angolanas, em particular do umbundu, continuam a encontrar espaço de valorização e desenvolvimento, sobretudo através da instituição Piaget de Benguela. Num tempo em que a globalização tende a uniformizar culturas e idiomas, esta dedicação representa um verdadeiro acto de resistência intelectual e de afirmação identitária.

A preservação de uma língua é muito mais do que a conservação de palavras. É a salvaguarda de uma visão do mundo, de uma memória colectiva e de uma forma singular de compreender a existência. Por isso, iniciativas como estas renovam a esperança de que as línguas nacionais não apenas sobrevivam, mas também conquistem o lugar de dignidade que merecem na academia, na tecnologia e na sociedade angolana.

Foi igualmente reconfortante saber que as tranças desenhadas na cabeça de uma mulher, podiam transportar mensagens codificadas. Cada traço, cada curva e cada padrão continham informações preciosas para aqueles que lutavam pela liberdade. Diz-se que algumas dessas tranças indicavam rotas de fuga para os que procuravam alcançar os guerrilheiros no norte do país ou nas chanas do leste. Aquilo que aos olhos distraídos parecia apenas um adorno estético era, na verdade, um mapa vivo, tecido na coragem e na esperança.

Também a natureza possuía a sua própria voz. Os rios falam, as montanhas ensinam e as florestas guardam segredos. Para os nossos antepassados, estes elementos não eram simples componentes da paisagem. Eram entidades carregadas de significado, participantes dos rituais, depositários de sabedoria e pontes entre o mundo visível e o invisível. Compreender essa linguagem é aproximar-se de uma visão do mundo mais rica, mais humana e mais harmoniosa.

Por isso, considero fundamental estudar, preservar e aprofundar o conhecimento destes tesouros da nossa oralidade ancestral. Neles repousam histórias, valores, estratégias de sobrevivência e formas de compreender a existência que não podem ser reduzidas ao esquecimento. Cada palavra perdida, cada tradição abandonada e cada língua silenciada representam uma parte da nossa alma colectiva que se apaga.

O umbundu é a língua dos meus antepassados, a raiz da minha identidade. Contudo, não o falo. E essa ausência habita-me como uma saudade de algo que me pertence, mas que não cheguei a conhecer plenamente. Sinto que perdi um património valioso, uma chave capaz de abrir portas para a compreensão mais profunda da minha própria história.

Curiosamente, não me inquieta não dominar o inglês, o francês, o russo ou o espanhol. Para essas línguas existem tradutores automáticos, aplicações digitais e uma infinidade de recursos tecnológicos. Antes recorríamos aos dicionários; hoje, basta um telemóvel. O mundo globalizado encontrou formas de preservar, difundir e tornar acessíveis essas línguas.

O que me entristece é perceber que muitas das nossas línguas nacionais continuam ausentes dos grandes sistemas tecnológicos que definem a comunicação contemporânea. Permanecem invisíveis aos algoritmos, ignoradas pelas plataformas digitais e afastadas dos espaços onde o conhecimento circula em maior escala. É como se uma parte significativa da nossa herança cultural estivesse condenada ao silêncio num mundo cada vez mais conectado.

É precisamente por isso que encontros como esta VII Conferência sobre Línguas e Culturas assumem uma importância tão grande. Não se trata apenas de debater palavras, gramáticas ou classificações linguísticas. Trata-se de reafirmar identidades, resgatar memórias e garantir que os saberes acumulados ao longo de gerações continuem a ser transmitidos. Defender as línguas nacionais é defender a diversidade cultural de Angola e assegurar que as futuras gerações possam reconhecer-se na riqueza das suas próprias raízes.

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