
O problema nunca foi falta de capacidade. Foi excesso de resignação. Talvez tenha chegado a hora de recuperar a visão colectiva. Não a visão dos olhos, mas a visão da consciência. Aquela que permite distinguir patriotismo de fanatismo. Liderança de oportunismo. Serviço público de negócio familiar.
O “Ensaio sobre a Cegueira”, do saudoso escritor e Prémio Nobel de literatura em 1998, o José Saramago, talvez tenha sido escrito em Portugal, mas o espírito da obra tirou residência permanente em Angola, com direito a Bilhete de Identidade, cartão de militante e lugar cativo num gabinete climatizado. Porque aqui, meus senhores, a cegueira não é doença. É sistema operativo.
E o mais grave é que ninguém ficou cego de repente. Não. Em Angola a visão perde-se devagarinho, tipo saldo de dados da UNITEL. Primeiro, desaparece a capacidade de indignação. Depois a vergonha. Mais tarde a coerência. E, finalmente, sobra apenas a habilidade olímpica de dizer: “Deixa andar…”
O pula José Saramago falava de uma cegueira branca. Modernizámos a teoria. Aqui temos cegueira multicolor: cegueira partidária, cegueira tribal, cegueira religiosa, cegueira económica e até cegueira amorosa, sobretudo quando a namorada arranja emprego naquele gabinete do “Chefe–Ordens Românticas”.
Angola tornou-se um País onde todo mundo vê, mas ninguém quer enxergar. O povo vê estradas inauguradas cinco vezes. Vê dirigentes a combater pobreza dentro de carros que parecem apartamentos suíços. Vê concursos públicos ganhos por primos que ainda confundem currículo com certificado de baptismo.
Mas mesmo assim, o cidadão coça a cabeça e diz: “É complicado…”. Complicado nada, kota. Isso já é catarata patriótica.
Hoje em Angola até o vocabulário entrou em corrupção activa. Roubo virou “desvio administrativo”. Mentira chama-se “narrativa política”. Bajulação atende pelo nome de “diplomacia estratégica”. E incompetência agora é “desafio conjuntural”.
Há ministros que falam tanto difícil que o povo sai da televisão mais pobre e mais burro ao mesmo tempo. “Implementamos mecanismos transversais no âmbito da sustentabilidade macroeconómica…” Traduzindo para português da praça: “Nem nós sabemos o que estamos fazer.”
Mas o angolano também é génio da sobrevivência psicológica. Já aprendeu a rir da própria tragédia.
Falta água?
— “Pelo menos o mosquito também sofre”.
Falta luz?
— “Hoje vamos namorar à moda antiga”.
O salário não caiu?
— “Talvez o dinheiro também esteja em greve”.
Esse humor mwangolé, é a nossa macumba nacional. Sem ele, metade do País já tinha pedido asilo emocional no Reino do Eswatini.
Mas existe uma coisa perigosa nessa gargalhada colectiva: às vezes o povo ri tanto da desgraça que acaba por normalizá-la. E, nessa altura começa a metafísica da visão perdida. Porque perder a visão física é acidente. Agora perder a capacidade de distinguir o absurdo da normalidade… isso já é tragédia filosófica.
O cidadão vê o hospital sem medicamentos e ainda agradece pela tinta nova na parede. Vê o jovem licenciado a vender recarga das operadoras de telefonia na rua e chama isso de “empreendedorismo”. Vê o corrupto milionário a discursar sobre moralidade e ainda bate palmas. Em Angola já chegámos ao ponto onde o escândalo dura menos que bateria de telemóvel chinês.
Hoje há indignação no Facebook. Amanhã já estamos todos a discutir fofoca de kudurista. E o poder agradece. Porque povo distraído é igual criança com chupeta: faz barulho, mas não morde. Até as igrejas, algumas delas, entraram na epidemia da cegueira. O pastor com o relógio que custa um bairro inteiro. Fiéis sem almoço, mas a financiar “campanha de prosperidade”. E quando alguém questiona, respondem: “Não toque no ungido!” Meu irmão, ungido assim até petróleo fica com inveja.
A verdade é que Angola não sofre apenas de crise económica. Sofre de anemia moral. O problema não está só no bolso. Está na consciência nacional.
A visão perde-se antes dos olhos. Perde-se quando o cidadão troca dignidade por fuba. Quando a juventude acredita que mérito é ter padrinho. Quando os intelectuais vendem silêncio por convite em conferência. Quando os jornalistas confundem verdade com contrato de publicidade. Quando o povo começa a achar corrupção “normal porque sempre foi assim”.
Não. Nem tudo que dura muito tempo vira normalidade. Às vezes vira apenas vergonha prolongada. Mas apesar de tudo, ainda há esperança. Porque o mesmo povo que hoje ri da tragédia também pode despertar dela.
O angolano é inteligente, criativo e resistente. Sobreviveu à guerra, à fome, ao medo e aos discursos de cinco horas sem conteúdo.
O problema nunca foi falta de capacidade. Foi excesso de resignação. Talvez tenha chegado a hora de recuperar a visão colectiva. Não a visão dos olhos, mas a visão da consciência. Aquela que permite distinguir patriotismo de fanatismo. Liderança de oportunismo. Serviço público de negócio familiar.
Um povo consciente incomoda. Faz perguntas. Exige prestação de contas. Recusa viver eternamente de promessas recicladas. E talvez seja esse o verdadeiro contrário da cegueira descrita por José Saramago: não apenas enxergar, mas compreender. Porque enquanto continuarmos a rir de tudo sem mudar nada, Angola continuará a ser uma nação onde até os cegos andam a guiar outros cegos. E já sabemos como termina essa viagem. Balumuka! Pracata ! Tauas!
E, como em Angola, “Todo o Mundo Vê… Mas Ninguém Quer Ver”, vou curar a minha cegueira com um bom prato de Calulu de Carne Seca, com um bom vinho tinto, e se for da longínqua terra do kota José Saramago, melhor ainda.
Bom final de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu










