Como é possível que, na “terra de Madiba” (Nelson Mandela), as manifestações e as consequências da xenofobia revelem um aparente esquecimento do espírito de Sawabona? A persistência da xenofobia na África do Sul evidencia um trágico afastamento dos princípios do Ubuntu e de Sawabona. A violência e a intolerância contra outros povos africanos parecem ter ‘atropelado’ essa profunda filosofia de humanidade e interdependência.

RECADOS DA CESALTINA ABREU (115)
“Sawabona” é uma saudação africana que significa: “Eu te vejo, você é importante para mim e eu te valorizo”. A resposta é “Shikoba”: “Então, eu existo para você”.
Mais do que uma palavra, é uma expressão de respeito, empatia e reconhecimento do outro, lembrando que cada pessoa tem valor. Reflecte uma filosofia cultural assente no reconhecimento mútuo e no bem-estar colectivo. Faz parte de um ritual praticado por algumas comunidades: quando alguém comete um erro ou prejudica o bem-comum, a comunidade reúne-se para lhe recordar as suas qualidades e as boas acções que realizou, em vez de a punir. O objectivo é reconectá-la à sua natureza e à comunidade. Durante o ritual, os participantes dizem “Sawabona”: “eu respeito você, eu valorizo você, você é importante para mim” e, quem errou, responde “Shikoba”, “então, eu existo para ti”. É um ritual regenerativo de reconhecimento, aceitação mútua e solidariedade, em que o perdão abre caminho à transformação.
Esta prática ancestral pode inspirar-nos como contraponto à cultura do “cancelamento”, da exclusão e do “bloqueio”, hoje tão presente nas relações mediadas pelas redes sociais. Antes do ‘mundo das redes sociais’, quem nos dizia que estávamos errados eram os pais, os professores, os amigos… os influencers de então. O “cancelamento” do afecto era temporário e acontecia num contexto de amor, cuidado e respeito. Hoje, o julgamento é exercido por milhares de desconhecidos, num processo permanente de monitorização, avaliação e condenação.
Do Ubuntu a este ritual, as culturas ancestrais oferecem-nos múltiplas filosofias de vida em comunidade. Pergunto-me, por isso: porque não as valorizamos mais? Porque não procuramos conhecê-las e incorporá-las nas nossas relações familiares e sociais? Porque sentimos tanta necessidade de copiar formas de viver e organizar o quotidiano centradas no individualismo e na maximização do lucro, para obter reconhecimento daqueles que detêm o poder de definir os padrões do mundo?
Outra interrogação, porém, impõe-se: como é possível que, na “terra de Madiba” (Nelson Mandela), as manifestações e as consequências da xenofobia revelem um aparente esquecimento do espírito de Sawabona?
A persistência da xenofobia na África do Sul evidencia um trágico afastamento dos princípios do Ubuntu e de Sawabona. A violência e a intolerância contra outros povos africanos parecem ter ‘atropelado’ essa profunda filosofia de humanidade e interdependência.
Há quem argumente que a crise socioeconómica, o elevado desemprego e a pobreza extrema geram um ambiente de frustração que grupos anti-imigração convertem em discursos inflamados contra os estrangeiros, alimentando a falsa percepção de que estes são responsáveis pela escassez de recursos e pelos problemas actuais.
Os recorrentes ciclos de violência têm provocado destruição de bens, agressões físicas, perda de vidas e repatriamentos forçados de cidadãos de países vizinhos. O legado de Mandela, assente na reconciliação, na compaixão e na unidade, colide frontalmente com a exclusão e a hostilidade que marcam estes episódios.
Precisamos reaprender Sawabona. Não como uma palavra bonita ou uma curiosidade cultural, mas como uma prática quotidiana, um compromisso ético com a nossa própria humanidade! Porque entre Sawabona e xenofobia não existe apenas uma contradição! O contrário de Sawabona não é o ódio, é deixar de ver!
Bom início de semana, saúde, cuidados e coragem para nos colocarmos em diálogo com os problemas contemporâneos do mundo a partir das nossas filosofias e experiências.
Kandando daqui!










