CULTIVAR O PENSAMENTO LIVRE, LENTO E QUESTIONADOR

O último acto de verdadeira resistência e autonomia. Não é um luxo intelectual nem um privilégio de poucos. É a base da nossa capacidade de imaginar o futuro, de propor alternativas, de transformar a nossa própria realidade e o mundo.  

RECADOS DA CESALTINA ABREU (116)

O Dia Mundial da Liberdade de Pensamento, celebrado em 14 de Julho, relembra a Queda da Bastilha e o início da Revolução Francesa em 1789. A data convida à reflexão sobre a defesa do direito inalienável de formar opiniões, crenças e expressar ideias sem censura. O Iluminismo consagrou a liberdade de pensamento e expressão como um direito natural do ser humano, enunciada por Voltaire“Ouse pensar por si mesmo”.

Liberdade de pensamento (de consciência, de opinião ou de ideia) é a liberdade de manter e defender uma posição sobre um facto, um ponto de vista ou uma ideia, independente das visões dos outros. Consta na Declaração Universal dos Direitos Humanosartigo XVIII, garantindo a cada cidadão o direito à livre consciência, opinião e religião, pilares essenciais para a construção de sociedades democráticas e justas pelas quais lutamos. Expressamente: “todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”.

É um direito diferente e não deve ser confundido com a Liberdade de Expressão, devido aos limites a esta impostos. Embora a liberdade seja absoluta no plano interno da mente, a sua manifestação pública exige responsabilidade para não violar os direitos e a dignidade de terceiros.

De uso corrente, a expressão ‘parar para pensar’ é profundamente subversiva porque rompe com a aceleração, a superficialidade e a autocensura que dominam a vida actual. Num mundo movido por respostas automáticas, algoritmos e slogans polarizados, cultivar o pensamento livre, lento e questionador é o último acto de verdadeira resistência e autonomia.

O peso do ruído e a urgência da pausa

Vivemos submersos numa enxurrada de informações e entretenimento contínuos. Essa dinâmica condiciona-nos a reagir impulsivamente em vez de analisar. A supressão de ideias ‘indesejadas’ e a autocensura, por medo de julgamento público, limitam a nossa liberdade interior. Diante disso, a decisão de fazer uma pausa e reflectir com clareza torna-se um acto de coragem e de inconformismo.

O pensamento como ferramenta de transformação

Pensar livremente não é um luxo intelectual nem um privilégio de poucos. É a base da nossa capacidade de imaginar o futuro, de propor alternativas, de transformar a nossa própria realidade e o mundo.  

Pensar por conta própria – como aconselhava Amílcar Cabral -, exige que se questionem as narrativas impostas, se encarem as ambiguidades e se aceite que nem tudo precisa de uma resposta imediata, pois é através do recolhimento e do exercício reflexivo que conseguimos:

Imaginar alternativas, ou seja, mudar o próprio rumo quando o caminho já não faz sentido;

Reconhecer limites, abandonando a ilusão de controlo sobre tudo o que está à nossa volta, e canalizar a nossa atenção e energia para aquilo que podemos mudar;

Evitar o conformismo, recusando as verdades absolutas e cultivando a capacidade de questionar e manter a autenticidade perante os dogmas;

É preciso entender que a subversão não está na violência ou na rebeldia cega, mas na coragem de usar a própria mente de forma independente. Saúde, cuidados e coragem para pensar pela própria cabeça e andar com as próprias pernas (Amílcar Cabral).

Kandando daqui!

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