
Depois de longo silêncio, com especulações à meio, o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, regressou ao país. Apesar da ‘longa’ ausência, em viagem privada que se supõe, merecidas férias, as imagens à chegada, trazem-nos um Presidente regressado igualzinho ou parecido com aquele que partiu: com um andar lento (ou pachorrento) e parecendo cansado, que se tornou sua marca (ou estilo), semblante desgastado e com ar de poucos amigos. Provavelmente, apenas reflexo do cansaço de uma longa viagem nocturna e dos efeitos da diferença de fuso horário. Nada mais.
Mas esse regresso veio demonstrar, que afinal não era necessário tanto silêncio, sobretudo, se não se justifica. Porque o silêncio também é uma forma de comunicar (o que está bem ou o que está mal). Principalmente quando não há nada para dizer, ou o que há para dizer, se tornou demasiado complicado. E pelo menos no momento, não foi tido ou achado como importante, sobre uma figura que, pelas suas responsabilidades, se torna incontornável para a vida do país e tem as atenções focadas dos governados. Até porque, quando se sabe comunicar, não é preciso muito. Bastava uma foto ou um vídeozinho feito com recurso a um telefone ‘laranjinha’, mostrando-o, acompanhado ou não, no jardim do hotel onde esteve instalado. A exemplo daquelas fotos que rodaram pelas redes sociais, nos jardins do Palácio e no meio da família, quando assinalou o seu aniversário. Ou quando pedala por aí na Cidade Alta, na Marginal, ou na visita que realizou à Huíla, faz tempo, ao Namibe, ou indo mais a fundo do nosso baú de recordações, quando esteve em Moçambique.
Por essas e por outras razões e exemplos, se considera que, desta vez, a comunicação institucional palaciana voltou a meter água. Provavelmente por excesso de zelo ou confusão no exercício do seu papel. Este caso transporta-nos para o consulado de José Eduardo dos Santos.
O que ficou patente, é que a ausência do Chefe de Estado em visita privada por um período menos ou mais prolongado, para os órgãos oficiais de comunicação, o que ele faz deixa de constituir matéria informativa. Mas esse silêncio significa a violação de um direito constitucional de informação. É desinformação. E é esse desinformar, que abre caminho ao burburinho, às especulações e aos inevitáveis rumores, incluindo sobre o estado de saúde do Presidente. Funciona como se nos estivessem a dizer, “que se lixe o que dizem por aí”. Porque tratando-se do Presidente da República que se ausenta do país por largos dias, ele sai e entra, e todos devem manter-se de bico calado. Ou o Presidente da República foi transformado num “João Ninguém”? Não é ele quem exerce o mais alto cargo de gestão da Nação, e tem responsabilidades acrescidas para com mais de trinta milhões de angolanos, que merecem, no mínimo, informação clara, respeito institucional e transparência?
Se a razão da deslocação foi para férias, para uma consulta médica ou para tratar de assuntos estritamente pessoais, de facto, são questões que pertencem à esfera privada. Mas o problema que se cria, começa no momento em que a viagem é anunciada, em horário nobre, pelos órgãos públicos de comunicação social, e apesar do seu carácter privado, contar com o envolvimento de meios, recursos e de logística excessiva (ou abusiva) de âmbito institucional. Logo, a partir daí, a viagem privada deixa de ser apenas um assunto da vida pessoal do Presidente da República, assumindo-se como matéria de interesse público. Não teria certamente o mesmo tratamento, se tivesse ido para uma das suas fazendas que produz e vende repolho, tomate e alface para as grandes superficies comerciais, enquando os jovens ‘desbundam’.
Por outro lado, constatou-se que durante a ausência do Presidente da República no estrangeiro, os comunicados oficiais da sua agenda continuaram a ser divulgados, a um ritmo quase diário. Ora felicitando este ora aquele Chefe de Estado, assinalando efemérides, o que transmitiu a ideia de que tudo decorria na mais absoluta normalidade. Como se Sua Excelência estivesse em pleno exercício das suas funções, porque em boa verdade, nem foi designado substituto, até para rubricar uma mensagem por sua delegação.
Por que razão faltou então um simples comunicado, claro, objectivo e oportuno, para evitar metade da novela a que assistimos?
Infelizmente, por aquelas bandas lá do alto da colina, o silêncio continua a ser confundido com estratégia de comunicação. E o problema é que, em política, o silêncio raramente esclarece. Quase sempre alimenta dúvidas. E as dúvidas, como se sabe, não precisam de convite para ganhar asas. E logo numa sociedade como a nossa, em que a desinformação também conta com o patrocínio do próprio sistema, que também gosta de tirar proveito de algumas dessas situações, para medir a pulsação da sociedade e o que vai na sua alma.
Então, que haja ao menos respeito por aquele que um dia foi tido como Patrão do Chefe. Porque, numa democracia, o Patrão não é chamado apenas para votar. Tem, igualmente, o direito de ser informado com seriedade, com respeito e com transparência. Dessa forma, o país não fica refém de rumores sempre que o Presidente decide desaparecer do radar. Até porque, mesmo com o país na desgraça e os flagelados das cheias do rio Cavaco dormindo ao relento ou em tendas surradas com todo esse frio, não temos mesmo como impedir que o Presidente vá de férias para o Brasil ou para a Conchichina.
Mas é só mesmo, nossa opinião, que, logicamente, será ignorada por quem manda ao “diabo que nos carregue”.










