ANGOLA: MUTATIS MUTANDI PRECISA-SE!

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

O País precisa de dirigentes que saibam ouvir mais e falar menos. Que saibam descer do ar-condicionado e subir para a realidade. Que conheçam o preço do pão sem consultar assessores. Que saibam quanto custa uma corrida de táxi sem pedir relatório técnico.

Devo confessar que era leigo sobre o significado da expressão: “Mutatis Mutandi”. Agradeço a gentileza do Professor Doutor Paulo Carvalho, que numa sessão das tertúlias da Academia Angolana das Letras, usou-a. Suscitou interesse em mim e fui pesquisando no dikelengo dos muatas Júlio e Augusto César da banda de Roma antiga, e daí entendi o recado.  

Em latim, os mais estudados dizem: Mutatis Mutandi. No musseque, o puto traduz sem dicionário: “Kota, muda o que está estragado, deixa o que está a funcionar e para de inventar confusão”.

Angola acordou mais uma vez com a mesma rotina revolucionária. O sol nasceu, os galos cantaram, os políticos prometeram, os funcionários reclamaram e o povo improvisou. Nada de novo. Apenas a continuação do capítulo anterior da novela nacional chamada “A Esperança Morre de Fome, Mas Continua Viva”. O angolano é um ser extraordinário. Consegue sobreviver a coisas que fariam um camelo pedir baixa médica.

O País aproxima-se de duas grandes provas de fogo: o Congresso do MPLA, em Dezembro de 2026, e as Eleições Gerais de 2027. E a pergunta que ecoa desde o Mussulo até ao Luau é simples: Vamos mudar mesmo ou vamos apenas trocar os bancos da sala e chamar aquilo de reforma? 

No MPLA já começaram os campeonatos internos. Os camaradas estão divididos em várias equipas. Temos os “Camaradas GPS”, que só sabem para onde ir depois de ouvirem a direcção do vento. Temos os “Camaradas Retrovisor”, que acham que tudo era melhor antigamente. Temos os “Camaradas Selfie”, que passam mais tempo nas redes sociais do que junto das bases. E temos os “Camaradas Posição de Sentido”, que concordam com tudo porque discordar pode causar alergias políticas. 

O Congresso do MPLA deveria ser uma oportunidade para uma reflexão séria. Não uma competição de bajulação olímpica. Porque bajular não constrói escolas. Não produz empregos. Não reduz o preço do peixe. Não tapa buracos. Não faz nascer energia eléctrica. O País precisa de dirigentes que saibam ouvir mais e falar menos. Que saibam descer do ar-condicionado e subir para a realidade. Que conheçam o preço do pão sem consultar assessores. Que saibam quanto custa uma corrida de táxi sem pedir relatório técnico.

E depois vem 2027. A grande final. A Liga dos Campeões da política angolana. Onde o MPLA, a oposição e os eternos indecisos vão disputar o campeonato da confiança popular. Mas também aqui o Mutatis Mutandi é obrigatório. A oposição precisa igualmente de mudar. Não basta acordar de cinco em cinco anos para pedir votos. Não basta fazer directos no Facebook com cara de indignação permanente. Não basta transformar cada problema nacional numa oportunidade de propaganda. É preciso apresentar soluções. Projectos. Equipas. Competência. Porque governar não é fazer lives. É resolver problemas.

O cidadão acorda às quatro da manhã para chegar ao serviço às oito. Enfrenta trânsito, candongueiros possuídos pelo espírito do Grande Prémio de Fórmula 1, buracos capazes de engolir uma Toyota inteira e ainda encontra energia para dizer: “Estamos a andar…” A andar para onde? Só Deus e o Ministério do Planeamento sabem. Enquanto isso, os camaradas continuam especialistas em inaugurar obras já inauguradas. Há estradas que receberam mais fitas de inauguração do que camadas de asfalto.

O povo olha e pergunta: Mas essa escola não foi inaugurada em 2022? Respondem: Sim, mas agora estamos a reinaugurar a inauguração. É desenvolvimento sustentável da tesoura.

Nas redes sociais a situação também merece estudo científico. Temos os patriotas de Facebook. Defendem Angola com tanta força que parecem ministros sem pasta. Quando aparece uma crítica, saltam logo: Vocês só sabem falar mal! Mas quando a luz falta durante três dias, o mesmo patriota é encontrado na esquina a carregar o telemóvel no gerador do vizinho.

Do outro lado estão os profetas da desgraça. Para eles, se chover é crise. Se fizer sol é crise. Se o dólar sobe é crise. Se desce, também é crise porque pode voltar a subir. Vivem em permanente estado de “eu avisei”.

No meio desta guerra ideológica, o povo vende quissangua, faz biscate, abre quitanda, fecha quitanda, reabre quitanda e continua a sustentar o País sem aparecer nas estatísticas. É o verdadeiro herói nacional.

Já os jovens continuam especialistas em empreendedorismo de sobrevivência. Hoje são motoqueiros. Amanhã influencers. Depois de amanhã consultores internacionais de coisa nenhuma. O importante é parecer ocupado.

Em Angola, muitas vezes o currículo pesa menos que o famoso “Conheces quem?” Há quem tenha diploma. Há quem tenha competência. Mas quem tem cunha normalmente chega primeiro. O elevador social continua a funcionar a gasóleo. Contudo, seria injusto dizer que nada mudou. Mudaram os telemóveis. Mudaram os carros dos dirigentes. Mudaram os logótipos dos projectos. Mudaram os slogans. Mudaram os discursos.

Só há uma coisa que continua teimosamente igual: o cidadão continua a fazer contas antes de entrar no supermercado e orações antes de chegar à bomba de combustível. Por isso, neste sábado de Junho, não precisamos apenas de reformas cosméticas. Não precisamos apenas de tinta nova na parede. Não precisamos apenas de novos slogans para problemas antigos. Precisamos de Mutatis Mutandi. Mudar o que deve ser mudado. Corrigir o que deve ser corrigido. Premiar quem trabalha. Punir quem rouba. Valorizar quem produz. Respeitar quem paga impostos. E sobretudo deixar de confundir paciência popular com felicidade nacional.

Porque o angolano ri de tudo. Mas não porque está satisfeito. Ri porque, se não rir, acaba por chorar. E como diz o Kota Kafundanga, filósofo honorário da esquina: “Meu filho, quem fica muitos anos sentado na mesma cadeira começa a pensar que nasceu mobiliário”. E é exactamente por isso que: MUTATIS MUTANDI PRECISA-SE!

Por isso, quando Dezembro de 2026 chegar e quando 2027 bater à porta, o recado do povo será simples: Não estraguem o que está bom. Consertem o que está mau. Substituam o que já não funciona. Premiem quem produz. Afastem quem só ocupa cadeira.

E, como o fim de semana, é também uma metáfora de Mutatis Mutandi, vou trocar água de múcua da semana por uma boa sangria de zolamiongo e um bom funge com o molho de carne de pacaça. 

*Menga-Ma-Kimfumu

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