O GENERAL DO WHATSAPP: COMO A POLÍTICA DIGITAL ESTÁ A ATRAVESSAR FRONTEIRAS

De Brasília a Madrid, da mobilização de milhões à disputa pela confiança dos cidadãos, o caso André Janones revela uma transformação profunda nas campanhas eleitorais: já não basta conquistar a atenção do eleitor; é preciso organizar redes capazes de a multiplicar.

POR: LUÍS SILVA CARDOSO

Há uma transformação silenciosa, mas profunda, a alterar a natureza das campanhas eleitorais. Durante décadas, a força política media-se pela capacidade de ocupar os grandes palcos, dominar o tempo de antena, mobilizar estruturas partidárias, financiar propaganda e fazer chegar a mensagem aos eleitores. Hoje, essas capacidades continuam a contar, mas já não são suficientes para compreender a disputa pelo poder.

Uma parte crescente dessa disputa acontece no ecrã de um telemóvel, dentro de um grupo de família, numa conversa entre colegas, numa comunidade religiosa ou num círculo de amigos. É aí que uma mensagem política pode adquirir uma força que ultrapassa a dimensão do seu emissor original.

O caso de André Janones, deputado brasileiro associado à criação e dinamização do chamado «Exército do Lula», tornou-se emblemático desta mudança. A sua relevância não reside na ideia simplista de que um homem terá decidido uma eleição presidencial através do WhatsApp. Reside em algo mais importante: a demonstração de que uma rede digital organizada pode transformar apoiantes em agentes de distribuição de mensagens políticas e ampliar consideravelmente a capacidade de comunicação de uma campanha.

A política descobriu que não basta falar para milhões. É necessário construir uma estrutura que permita a milhões falar, partilhar e fazer circular aquilo que a campanha pretende colocar no centro do debate.

É nesta passagem da comunicação para a mobilização que começa a verdadeira história do general digital.

1- A revolução não está no telemóvel. Está na organização das pessoas

Seria um erro atribuir à tecnologia, por si só, a transformação em curso. O WhatsApp não inventou a militância, a propaganda, a persuasão nem a mobilização popular. Essas práticas são tão antigas quanto a própria competição política.

A novidade está na combinação entre velocidade, escala, coordenação e distribuição descentralizada.

No modelo mais convencional, o partido produz a mensagem, os seus canais divulgam-na e o cidadão recebe-a. Na mobilização digital organizada, o processo não termina na publicação. A mensagem é acompanhada de instruções, desafios ou tarefas que incentivam os apoiantes a reproduzi-la, comentá-la, encaminhá-la e fazê-la chegar a outros círculos sociais.

O apoiante deixa de ser apenas espectador. Passa a poder funcionar como um ponto de distribuição da campanha.

É uma mudança aparentemente simples, mas com consequências importantes. Uma equipa central pode definir os temas, preparar os conteúdos e coordenar os momentos de intervenção, enquanto milhares de participantes ajudam a espalhar as mensagens através das suas próprias redes de contactos.

O resultado potencial é uma estrutura híbrida: centralizada na orientação, descentralizada na distribuição.

Esta é a verdadeira inovação organizacional associada ao caso Janones. Não a invenção de uma nova rede social, mas a utilização de uma plataforma existente como instrumento de mobilização coletiva.

2- O «Exército do Lula» e a política da escala

Os números divulgados durante a campanha brasileira de 2026 ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Segundo reportagens da imprensa brasileira, o canal associado a Janones cresceu de dezenas de milhares de participantes para mais de dez milhões ao longo do segundo turno.

A velocidade desse crescimento é particularmente relevante. A expansão foi noticiada depois do primeiro turno de 4 de outubro, num momento em que a campanha de Lula precisava de disputar a atenção pública e mobilizar os seus apoiantes para a fase decisiva da eleição.

Uma rede com milhões de participantes oferece uma capacidade potencial de difusão que dificilmente pode ser ignorada por qualquer estratega eleitoral. Pode ajudar a distribuir conteúdos, coordenar respostas, manter os apoiantes envolvidos e fazer circular mensagens para além dos canais oficiais de uma candidatura.

Mas é precisamente aqui que começa a obrigação de pensar com rigor.

Dez milhões de inscritos não significam dez milhões de militantes ativos. Dez milhões de participantes não equivalem a dez milhões de pessoas persuadidas. E dez milhões de potenciais distribuidores não representam dez milhões de votos conquistados.

A dimensão de um canal mede a sua audiência potencial. A atividade da rede mede outra realidade. A mudança de opinião exige evidência própria. A influência sobre o voto exige ainda mais.

Confundir estas categorias seria substituir a análise política pelo fascínio dos números.

A importância da experiência brasileira não depende de provar que Janones determinou sozinho o resultado eleitoral. Depende de compreender como uma estrutura de comunicação conseguiu ganhar escala e tornar-se suficientemente visível para despertar interesse para além do Brasil.

3- A força invisível: a mensagem que chega pela pessoa conhecida

O poder do WhatsApp não se explica apenas pela quantidade de mensagens que permite distribuir. Explica-se também pela natureza das relações através das quais essas mensagens circulam.

Uma publicação de um candidato pode ser ignorada. A mesma publicação, enviada por um familiar, um amigo ou um colega de trabalho, pode receber atenção diferente. O conteúdo é o mesmo, mas o contexto social da receção mudou.

A confiança na pessoa que transmite a mensagem pode influenciar a forma como o destinatário a interpreta. Isso não significa que a mensagem seja verdadeira, nem que o destinatário concorde com ela. Significa apenas que a comunicação política não depende exclusivamente do que é dito: depende também de quem transmite, de como transmite e da relação que existe entre as pessoas.

É esta dimensão social que confere às redes de mensagens uma característica distinta dos canais tradicionais de propaganda.

Uma campanha pode tentar chegar a um cidadão através da publicidade. Uma rede organizada pode fazer com que a mensagem chegue através de alguém que esse cidadão já conhece.

A diferença merece atenção, mas não deve ser exagerada. As relações pessoais podem aumentar a atenção ou a credibilidade percebida, mas também podem provocar rejeição, desconfiança ou conflito. Nem todas as mensagens partilhadas se tornam convincentes; nem todas as pessoas que as recebem estão disponíveis para mudar de opinião.

A mobilização digital não elimina a autonomia do eleitor. Procura influenciar o ambiente em que as suas escolhas são formadas.

4- A velocidade tornou-se um recurso político

Na política digital, o tempo adquiriu um valor estratégico.

Uma declaração polémica, uma notícia, uma acusação ou um acontecimento inesperado pode tornar-se o centro do debate em poucas horas. A capacidade de produzir uma resposta, distribuí-la rapidamente e manter os apoiantes envolvidos pode ajudar uma campanha a disputar a interpretação pública do acontecimento.

A vantagem não está necessariamente em falar primeiro. Está em conseguir que uma interpretação chegue a diferentes públicos, seja compreendida, encontre quem a partilhe e permaneça presente na conversa pública.

É aqui que a organização faz a diferença. Uma rede previamente constituída pode reagir mais depressa do que um conjunto de apoiantes dispersos, desde que disponha de coordenação, conteúdos adequados e participantes dispostos a agir.

Mas a velocidade também tem um preço. Quanto menor o tempo dedicado à verificação, maior pode ser o risco de difundir erros, informações fora de contexto ou acusações não demonstradas.

Uma campanha pode ganhar visibilidade ao reagir depressa e, ao mesmo tempo, perder credibilidade se não distinguir informação verificada de especulação.

A rapidez é uma vantagem competitiva; não é um certificado de verdade.

5- De estratega nacional a referência internacional

É neste ponto que o caso Janones ultrapassa a política brasileira.

Em outubro de 2026, a imprensa noticiou contactos relacionados com Pedro Sánchez, em Espanha, e Claudia Sheinbaum, no México. Também foram noticiadas iniciativas digitais na França, em Espanha e na Argentina inspiradas no modelo brasileiro de mobilização.

Estes desenvolvimentos apontam para uma tendência que merece ser estudada: a circulação internacional de conhecimentos sobre organização digital, distribuição de conteúdos e mobilização de apoiantes.

Os partidos não observam apenas os resultados eleitorais dos seus congéneres estrangeiros. Observam também os métodos utilizados, as estruturas de comunicação, as formas de organização e a capacidade de manter comunidades politicamente ativas.

Um estratega que desenvolve uma experiência reconhecida no seu país pode, assim, tornar-se uma referência para organizações que enfrentam desafios semelhantes noutros sistemas políticos.

A internacionalização da política digital não significa que as campanhas passem a ser iguais. Significa que determinadas competências se tornaram transnacionais.

Como acontece noutras áreas, os métodos circulam, são adaptados e entram em contacto com culturas políticas diferentes. A técnica pode ser aprendida; a eficácia depende das condições em que é aplicada.

O interesse internacional em torno de Janones deve ser lido nesta perspetiva. É um sinal de que a experiência brasileira despertou atenção, não uma prova antecipada de que a sua reprodução produzirá os mesmos resultados em Espanha, no México ou noutro país.

A verdadeira exportação não é necessariamente de uma pessoa. É de um método de organização política.

6- A internacionalização também tem limites

A circulação internacional de estratégias digitais pode criar oportunidades de aprendizagem, mas levanta questões sobre a adaptação dos métodos aos contextos nacionais.

Uma técnica desenvolvida no Brasil não pode ser transferida automaticamente para Espanha, México, Angola ou qualquer outro país. As estruturas partidárias, os sistemas eleitorais, as condições de acesso à Internet, os hábitos de comunicação e a confiança nas instituições variam de sociedade para sociedade.

Uma rede que funciona num contexto pode ter dificuldades noutro. Uma linguagem que mobiliza um grupo pode afastar outro. Um estilo de confronto que gera atenção pode, em determinadas circunstâncias, desgastar a credibilidade de quem o utiliza.

Por isso, a internacionalização não deve ser confundida com a universalização de uma fórmula eleitoral.

O conhecimento que atravessa fronteiras precisa de ser acompanhado por investigação, adaptação e avaliação. Caso contrário, corre-se o risco de importar a aparência de uma estratégia sem compreender os mecanismos que explicam o seu funcionamento.

7- O lado obscuro: quando a mobilização ameaça a qualidade do debate

Nenhuma análise séria do poder digital pode ignorar os seus riscos.

Uma rede organizada pode ajudar a divulgar propostas, combater rumores, aproximar cidadãos da vida pública e dar visibilidade a grupos com poucos recursos. Mas a mesma capacidade de distribuição pode ampliar conteúdos enganosos, alimentar hostilidades, multiplicar acusações não verificadas e transformar adversários políticos em alvos de campanhas coordenadas.

O problema não é a existência de militância digital. A mobilização de apoiantes faz parte da democracia. O problema surge quando a coordenação deixa de respeitar a veracidade, a transparência, a liberdade de participação e as regras eleitorais.

O «Exército do Lula» esteve envolvido numa disputa judicial no Brasil, na qual foram levantadas alegações sobre conteúdos desinformativos e a organização da atividade digital. O tratamento deste episódio exige distinguir as acusações apresentadas, as decisões judiciais e as conclusões efetivamente estabelecidas pelas análises das provas.

Essa distinção não é um detalhe jurídico. É uma condição elementar de rigor.

Não se pode declarar culpada uma estrutura apenas porque foi alvo de uma denúncia. Também não se pode concluir que todas as suas práticas foram regulares porque determinada análise não encontrou algumas das publicações contestadas no período examinado.

O debate democrático precisa de evidência, não de veredictos improvisados.

A pergunta fundamental permanece: onde termina a mobilização legítima e começa a manipulação?

A resposta deve depender das práticas concretas. Quem organiza a campanha? Que conteúdos são distribuídos? Existe transparência sobre a coordenação? São difundidas informações falsas? Há mecanismos de responsabilização? As regras eleitorais são respeitadas?

O tamanho de uma rede não é, por si só, um problema democrático. O que importa é a forma como o seu poder é exercido.

8- A lição para África e para Angola

A experiência brasileira merece atenção no continente africano, não porque determine o futuro das eleições africanas, mas porque oferece um caso concreto para refletir sobre a relação entre tecnologia, participação política e poder.

Em Angola, como noutros países africanos, seria importante investigar de que modo os grupos de mensagens e as redes sociais são utilizados por partidos, movimentos cívicos, organizações juvenis e cidadãos comuns.

As plataformas digitais podem reduzir algumas barreiras à participação, permitir que iniciativas com poucos recursos alcancem novos públicos e abrir espaços de discussão que não dependem exclusivamente dos meios de comunicação tradicionais.

Mas as oportunidades coexistem com riscos. O acesso à Internet é desigual, os níveis de literacia digital variam e a circulação de conteúdos sem verificação pode dificultar a distinção entre factos, opiniões, rumores e propaganda.

A resposta não deve ser presumir que os cidadãos são passivos nem tratar toda a mobilização digital como suspeita. Deve ser investir na capacidade de verificar informação, na transparência das campanhas, na educação para os media e na responsabilização de quem promove conteúdos fraudulentos ou práticas ilegais.

Para Angola, a questão relevante não é copiar o «Exército do Lula». É compreender quais os mecanismos de organização e participação que podem fortalecer o debate público e quais as salvaguardas necessárias para impedir que a mobilização se transforme em manipulação.

A experiência brasileira deve servir de objeto de estudo, não de receita pronta.

9- O erro de pensar que a eleição se resume às redes sociais

Há uma tentação, alimentada pela dimensão dos números digitais, de explicar resultados eleitorais complexos através de uma única ferramenta ou de uma única personalidade.

Essa tentação deve ser evitada.

Uma eleição presidencial resulta da interação entre condições económicas, avaliação dos governos, propostas políticas, alianças, participação eleitoral, estruturas partidárias, mobilização presencial e comunicação nos diferentes meios. As redes sociais podem contribuir para esse processo, mas a sua influência precisa de ser demonstrada.

Para avaliar o efeito do trabalho de Janones, seria necessário saber quantos participantes eram efetivamente ativos, que conteúdos partilhavam, que públicos alcançavam e se houve mudanças mensuráveis nas opiniões ou no comportamento eleitoral.

Seria igualmente necessário comparar a sua intervenção com outras atividades da campanha e considerar explicações alternativas para o resultado.

Sem essa investigação, podemos reconhecer a dimensão da mobilização e a relevância organizacional da experiência, mas não atribuir-lhe isoladamente a vitória.

A conclusão rigorosa não é que Janones decidiu a eleição. É que a sua experiência tornou visível uma forma de organização digital cujo alcance e efeitos merecem análise.

10- A verdadeira disputa é pela atenção, pela confiança e pela participação

O caso Janones mostra que a política contemporânea se tornou mais complexa. Já não basta produzir uma mensagem, contratar publicidade ou ocupar espaço nos meios de comunicação. É necessário compreender como as pessoas recebem a informação, em quem confiam, o que decidem partilhar e de que forma participam no debate público.

O poder digital não reside apenas no número de seguidores. Reside na capacidade de organizar relações, sustentar a participação e fazer circular mensagens para além dos canais oficiais.

Mas essa capacidade não substitui a credibilidade, os programas, as alianças ou o contacto direto com os cidadãos. Pode ampliar a presença de uma campanha; não garante a sua aceitação. Pode tornar uma mensagem omnipresente; não pode obrigar todos os destinatários a acreditar nela.

A internacionalização de agentes como Janones demonstra que estas questões ultrapassaram as fronteiras brasileiras. A mobilização digital tornou-se um domínio de aprendizagem e competição entre organizações políticas de diferentes países.

O desafio está em compreender esse poder sem o romantizar e sem o demonizar.

A democracia não deve temer a participação organizada dos cidadãos. Deve, sim, exigir que a disputa pela sua atenção respeite a verdade, a transparência e a liberdade de escolha.

André Janones pode ser visto como um dos rostos desta transformação, mas a mudança que representa é muito maior do que a sua pessoa. É a passagem de uma política que procurava apenas falar ao eleitor para uma política que procura organizar o próprio eleitor como participante na circulação das mensagens.

O futuro das campanhas não será definido apenas por quem dispõe dos maiores recursos ou ocupa mais tempo de antena. Será também influenciado por quem consegue construir redes ativas, comunicar com credibilidade e transformar atenção em participação.

Mas permanece uma fronteira que nenhuma estratégia digital deveria ultrapassar: a diferença entre convencer e manipular.

Porque, no fim, uma democracia não se mede pelo número de mensagens que consegue fazer circular, mas pela qualidade das escolhas que os cidadãos podem fazer depois de as receber.

E é precisamente aí que se decidirá se o poder das redes sociais será uma força de renovação democrática ou apenas uma nova forma de disputar o poder sem melhorar a qualidade da vida pública.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR