
– JAcQUEs TOU AQUI!
Quem diz a verdade não merece castigo
Ditado popular comum na tradição oral
O prometido é devido. Cumprindo promessa da semana passada, volto ao “Entre Verão e Cacimbo”, oferecendo aos leitores, mais um capítulo, o décimo-quinto da série:
1-Para um cidadão africano pouco habituado à grandeza e à sua frequência, não podem deixar de assombrar as manifestações que têm ocupado as ruas e largos de várias capitais europeias – incluindo Lisboa –, impulsionadas pela crise da habitação, pelas reivindicações no campo da educação e pela subida acentuada do custo de vida e do poder de compra das populações. É uma experiência impressionante, direi mesmo assustadora, para quem vem de uma realidade onde o protesto público é visto e gerido de forma diferente. A diferença cultural, a forte presença policial e a imprevisibilidade dos confrontos são os principais motivos que geram essa sensação de assombro.
É sob esse clima que observo os dias a passarem e os acontecimentos a serem espontaneamente esquecidos. Inclusivamente o comportamento dos políticos e dos analistas, que só viram notícia, na medida do necessário e do eventualmente possível. As emoções arrefecem ao sabor da temperatura fresca do findar dos dias, fazendo convites à reflexão. Tudo a surgir natural e inevitavelmente. Nos relacionamentos interpessoais, lamentam-se as maka que nascem de conclusões apressadas. Mas obrigam a questionar-se. Porquê e para quê o dispêndio de energias, ignorando análises detalhadas de factos reais e verdadeiros? A precipitação que substitui a reflexão cuidada por meras suposições, gera impactos negativos em várias áreas da nossa vida sentimental. Conclui-se que inventar rótulos sobre pessoas com base em aparências ou dados superficiais, provoca discussões e quebra de laços de afeição. Escusadamente, é fácil e bem de ver.
Numa altura em que cheguei e ultrapasso orgulhosamente a meta da idade longa, vou descobrindo coisas da vida que, apesar de expectáveis, ainda me surpreendem. Por isso, tento, na medida do possível, compreender o outro, qualquer que ele seja, sem nunca deixar de falar, escrever, discutir, na base do que mais respeito. A verdade indesmentível. Falando sempre verdade. Mesmo admitindo que essa, a tal, a indesmentível verdade, por vezes é contrariada e desmentida. Um gesto que é dificilmente conseguido com êxito pelos que só sabem contrariar!
2- Enquanto no Brasil a eleição aqueceu sob o lema “A Democracia ao Vivo” e levou, em campanha inolvidável, à reeleição do Presidente Lula, na Assembleia Geral das Nações Unidas, apelou-se, mais uma vez, ao fim do incrível e desumano embargo económico imposto pelos EUA a Cuba. Será que agora vai? Em Israel, Netanyahu está com a vida empatada, enquanto, em Espanha, um comboio de alta velocidade, abalroou outro estacionado na via. Resultado, enorme tragédia, 69 mortos e um luto de três dias decretado pelo Governo. Na madrugada do dia em se apresenta em Lisboa “A sucessão, a bicefalia e outras histórias” um livro escrito por Luís Costa, em Luanda, faleceu o empresário Riquinho, o homem que, em tempos bons, fez Angola mexer com a música e o desporto que promovia. Paz à sua alma, sentidas condolências aos familiares e amigos! “Tristeza não tem fim, felicidade, sim”. Soa novamente a música imortalizada por Tom Jobim e Vinícius de Moraes! E enquanto há vida, na banda continuam a preparar-se as eleições partidárias visando as gerais, ambas na base de uma Democracia envergonhada. De viés ou de esguelha, vai-se notando o óbvio. Na Tuga, para amargura de certos políticos e seus seguidores, está garantida porta aberta à entrada de Lula em Portugal, enquanto na nossa buala, prevalecem conluios políticos e ligações familiares a fortalecerem poderes políticos e financeiros. Com o bendito kumbú, sempre na liderança! Com alcance dúbio enraizado, as redes sociais promovem casamentos de conveniência, intensificando uma lavagem de roupa suja impressionante. O uso de linguagem descuidada, agressiva e superficial, coloca mal figuras públicas e causa impactos profundos na Democracia, lesando a compreensão que os cidadãos possam ter dela. Quando o discurso político se esvazia de conteúdo programático e se centra em piadas, insultos ou declarações impensadas, a política passa a ser vista como uma triste apresentação ou uma disputa pessoal, muito distante do desejável espaço de governação em que participa o povo.
Palavras agressivas ou preconceituosas ditas de forma leviana são intoleráveis no debate democrático. Declarações mal ponderadas geram condutas emocionais instantâneas, especialmente nas redes sociais. Isso substitui o debate racional por um ciclo contínuo de escândalos e raros pedidos de desculpa, e onde os problemas reais do país ficam por resolver, situados sempre em segundo plano, quase sempre no fim da fila.
3- Tenho pena que o futebol já não seja o mesmo jogo de outros tempos. Daquele que eu sempre gostei só ficou o amor que os adeptos sentem por ele e pelos clubes que o praticam. Continua na mesma. Arrebatador, por vezes incompreensível, mas sempre imortal. Apesar disso, o futebol está diferente. Veja-se o tempo que se vive hoje, onde uma declaração pública menos pensada de Kylian Mbappé referindo nome de um líder imortal, quase cria problema diplomático e a perda, por parte do jogador do Real Madrid, de muito dinheiro em contratos publicitários. Muito diferente do tempo de João Saldanha, o futebolista, militante político, jornalista e escritor que, chegando a técnico do Brasil para o Mundial do México de 1970, não receou falar, em plena época de ditadura militar, do fantasma dos presos políticos torturados e de mais de 300 mortos contados. Sentiu os efeitos e o peso da ditadura e não dirigiu a canarinha! Era tudo muito diferente do hoje, em que se ridicularizam estupidamente treinadores, e em que o dinheiro está na primeira linha e as arbitragens encomendadas se organizam para dar títulos aos seus eleitos. Enfim, de bom só mesmo a euforia que anima a enorme família benfiquista que, a partir dos Açores, abriu esta semana, com grande estilo e capacidade, mais caminho para a rota do 39, rumo ao 40! Carrega Benfica!
Aguardando ansioso pelas boas e prontas melhoras do nosso companheiro Graça Campos, despeço-me dos meus estimados leitores, dos familiares, dos camaradas, companheiros de luta e dos amigos de sempre. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 1 de Novembro de 2026










