A TENSÃO SOCIAL NA ÁFRICA DO SUL PASSA AO LARGO DAS LIDERANÇAS AFRICANAS

O intervenção de grupos como o Dudula, que aparece nesse cenário de instabilidade como movimento cívico contra emigração ilegal, é, no fundo, uma questão de procura e afirmação de uma identidade pós-apartheid sustentada pela má governação e falta de resposta do ANC aos anseios da sua população

NGALULA MUKUBA

A África do Sul tem sido palco de um dos maiores conflitos sociais que desafiam não só a sua governação, mas também a dos países vizinhos, cujos cidadãos estão a ser alvo de perseguição registam-se casos de agressão, morte e destruição de património. Os estrangeiros, sobretudo africanos e negros vivem uma situação desesperada fruto da abordagem violenta de que têm sido vítimas. O cenário tornou-se desolador para todos aqueles que escolheram esse país como a sua segunda pátria, contribuindo para a construção de uma nova nação, livre da discriminação do antigo regime do apartheid, que por mais de 40 anos subjugou a maioria da população negra, excluindo-a de direitos essenciais. 

O continente africano não ficou indiferente ao que se passava na África do Sul. Ciente da brutalidade do regime, tomou uma decisão histórica, até porque a maioria dos países africanos se libertava do jugo colonial. Logo, em uníssono e por razões de justiça, afinidade, no quadro do espírito panafricanista e de solidariedade à luta dos movimentos anti-apartheid, o continente envolveu-se e apoiou as organizações que lutavam contra o sistema. Destacam-se, especialmente, o Congresso Nacional Africano (ANC), liderado por Albert Luthuli e Nelson Mandela, que pregava a resistência pacífica e mais tarde abraçoua luta armada; o Congresso Panafricano (PAC), sob a liderança de Robert Sobukwe e o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), encabeçado por Joe Slovo. Foram sobretudo estes movimentos que estiveram na vanguarda da luta, mobilizando e moralizando a consciência do povo para a resistência ao regime do apartheid.

Contudo, com a derrota do apartheid não foram resolvidos os principais problemas que afectavam sobretudo a população negra, e eclodiu a violência e a afrofobia  contra os imigrantes, a quem se atribiu a ocupação de postos de trabalho que deviam ser ocupados por nacionais. Detalhe importante: os imigrantes são cidadãos de países vizinhos, designadamente do Zimbabwe, de Moçambique, do Malawi, mas também da Nigéria e da República Democrática do Congo, países que empenharam a sua solidariedade, com recursos financeiros, humanos e até da sua soberania e abertura das suas fronteiras para abraçar os sul-africanos, sem qualquer limitação. 

É bem verdade, que essa situação não é nova e já ocorreu em outras ocasiões, igualmente de extrema violência, diante da pacividade ou cumplicidade de instituições públicas como a Polícia Nacional. As causas históricas como o sistema de segregação racial (apartheid) que durante décadas excluiu a maioria negra sul-africana de quase tudo, da educação, do emprego e renda, dos direitos políticos, saúde e, principalmente, da dignificação humana, já não têm sustentação agora. Porque decorridos 40 anos, a gestão sob direcção do ANC, é tida como tendo falhado, razão pela qual, tem vindo a perder a sua influência junto dos eleitores. 

Ao ser derrotado pelo movimento libertador, o apartheid deixou um legado nefasto de miséria e exclusão. Mas, apesar do avanço democrático que o país conhece, graças ao papel unificador de Nelson Mandela, isso não foi suficiente para reduzir as profundas desigualdades económicas e sociais do país, traduzida nos seguintes números:

Desemprego e pobreza – em 2026, a taxa de desemprego corresponde a 32% e passa dos 60% entre os jovens e é já uma das maiores no mundo;

Desigualdade – a África do Sul é o país de grande potencial económico mas inegra o grupo dos mais desiguais do mundo, segundo dados do Banco Mundial. A maioria negra ainda vive mal na periferia onde vivia antes e em bairros sem serviços básicos, 30 anos depois da era do apartheid;

Promessas e frustração – os políticos prometem vida melhor mas como não acontece, o insucesso da governação tem a emigração como o bode expiatório e os estrangeiros africanos tornam-se os alvos a ‘abater’. Daí a razão de toda essa agitação contra o imigrante; 

Política e discursos dos líderes – alguns políticos locais usam discursos inflamatórios e de insitamento para ganhar votos.  O rei Zulu, em 2015, disse   que os estrangeiros deviam “fazer as malas”, e em seguida, após esse pronunciamento, o país explodiu numa aspiral de violência sem igual.

O intervenção de grupos como o Dudula, que aparece nesse cenário de instabilidade como movimento cívico contra emigração ilegal, é, no fundo, uma questão de procura e afirmação de uma identidade pós-apartheid sustentada pela má governação e falta de resposta do ANC aos anseios da sua população pelos seguintes aspectos:

•⁠  ⁠Nacionalismo: depois de décadas de opressão, criou-se uma identidade forte do “Nós sul-africanos”, e os estrangeiros africanos começaram a ser vistos como “os outros”, não como o irmão que acolheu exilados dos vários movimentos de luta anti-apartheid (ANC, PAC, NSCP), e que suportaram ataques destrutivos da máquina que os discriminava;

• Afrobia: o pobre sul-africano tem agora como alvo o pobre negro africano, em detrimento dos imigrantes proveniente da Europa e e da China que raramente são alvos desses movimentos anti-imigração. Dados oficiais indicam que são entre três e quatro milhões de imigrantes, que estão a abandonar o país, não sendo de todo verdade que essa saída em massa, venha a beneficiar os nacionais e sobretudo a economia, que não é imune à influência de factores externos.

Para muitos observadores africanos da região, o verdadeiro motivo desses ataques é a frustração desse povo com a sua própria governação, já que, decorridos  30 anos do fim  do apartheid, parte considerável da população, sobretudo jovens, continuam na pobreza, sem emprego, sem serviço e sem perspectiva. E há retrocessos na qualidade do ensino e da condição das escolas, mas também no acesso a saúde e à formação técnico-profissional competente. O Estado tornou-se uma máquina corrupta, incapaz de atender as necessidades dos cidadãos e os desafios de sustentação e estímulo do crescimento económico, que são condição incontornável para a geração de mais postos de emprego. 

Mas, a população em vez de cobrar aos políticos medidas económicas consagradas para satisfação dos seus  anseios, olha à sua direita e culpa os estrangeiros pobres do que supõe ser a causa das suas ‘desgraças’. 

Grupos como Dudula organizam campanhas afrofóbicas e lançam toda sua bílis contra o imigrante indefeso, como se a África do Sul pudesse viver isolada do resto do continente. 

A crise afrofóbica na África do Sul tonou-se entretanto, num desafio para o  continente que tarda em abordar a questão com a urgência que o momento exige. Provavelmente, porque parte considerável das responsabilidades devem ser distribuídas pelos líderes dos países de onde esses emigrantes são originários. Porque ninguém abandona a sua casa onde beneficia de condições e de dignidade, para viver noutro país em busca de melhores condições. E na generalidade, quase todos os países da região que apoiaram a luta dos movimentos sul-africanos contra o apartheid, ainda têm um desenvolvimento e crescimento económico muito inferir, para além da qualidade e oferta de alguns serviços e produtos.

É a África no seu ‘melhor’.

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