As infra-estruturas hídricas do Ndúe e do Calucuve não podem ser vistas como um troféu eleitoral ou uma bandeira exclusiva do partido no poder. Representam uma oportunidade histórica para modernizar a vida no campo, transformar a economia regional, reforçar a competitividade nacional e preparar Angola para os desafios do desenvolvimento agrário das próximas décadas.

As infra-estruturas hídricas do Ndúe e do Calucuve recentemente inauguradas pelo Presidente da República abrem, indiscutivelmente, uma nova era de desenvolvimento para o Cunene. Até aqui, tudo bem. Mas a questão que se coloca agora é outra. Talvez a mais importante: estará devidamente acautelada a sustentabilidade destes projectos, de modo a garantir a sua funcionalidade e manutenção ao longo dos próximos anos?
De acordo com o próprio Presidente da República, foi aplicado na implementação do projecto, uma verdadeira pipa de dinheiro: 4.2 mil milhões de dólares. E andando as nossas finanças de tanga, é igualmente provável que parte significativa dos recursos tenha resultado de financiamento e empréstimos externos. Por isso, as entidades responsáveis pela gestão e condução destes projectos devem ser compostas por pessoas sérias, tecnicamente competentes e genuinamente comprometidas com a causa pública. Obras desta dimensão não podem ser entregues à improvisação, ao compadrio ou à lógica da distribuição partidária de cargos como tem sido regra.
A agricultura constitui um dos mais importantes pilares do desenvolvimento económico e social de qualquer país. Para além de garantir a produção de alimentos e contribuir para a segurança alimentar, gera empregos, reduz a pobreza e dinamiza as economias rurais.
O Cunene, como tantas outras regiões de Angola, possui potencialidades que precisam apenas de condições para serem plenamente aproveitadas. Existem terras, necessitam de mais recursos humanos e, agora, começam a existir infra-estruturas hídricas capazes de reduzir a histórica dependência da chuva. Os agricultores e criadores de gado do Cunene deixam, finalmente, de olhar exclusivamente para o céu à espera das chuvas. Passam a ter canais construídos, é verdade, a preço de ouro. O que resta agora, é saber se esse ouro será devidamente transformado em desenvolvimento.
As infra-estruturas hídricas instaladas devem cumprir uma missão muito maior do que simplesmente transportar água. Devem constituir-se num instrumento estratégico de desenvolvimento regional e nacional.
A governadora Gerdina Didalelwa convidou investidores nacionais e estrangeiros, a juntarem-se ao Governo na concretização desta nova etapa de desenvolvimento económico da província, impulsionada pela expansão das infra-estruturas de abastecimento de água. A iniciativa merece aplausos. Mas seria igualmente útil garantir, que a cedência de terras e espaços agrícolas não obedecesse à filiação partidária. Esse critério já contribuiu demasiadas vezes para afundar a economia nacional.
Durante anos, oportunidades económicas foram entregues a círculos de familiares, de amigos e de militantes ligados ao partido no poder. O resultado foi desastroso: empresas improdutivas, projectos abandonados, crédito malparado e um país que, apesar de possuir enormes recursos, continua excessivamente dependente das importações.
Façam-se concursos públicos e transparentes. Abram-se oportunidades para os jovens agricultores, técnicos, empresários e cooperativas. Há muita juventude que tem dado provas de saber trabalhar a terra. Concedam-lhes o apoio e o acompanhamento fundamental para o arranque, até que possam caminhas com os “próprios pés”. O Dombe Grande e quiçá o desempenho de outras regiões, podem constituir boas referências a multiplicar. Há exemplos que atestam que, quando existem dedicação, conhecimento e condições adequadas, a agricultura pode transformar e gerar riqueza para o bem-estar das comunidades. A fertilidade das suas terras e o empenho dos seus agricultores fazem daquela região, um exemplo do enorme potencial agrícola que Angola possui, mas que continua, infelizmente, longe de ser plenamente aproveitado.
O Dombe Grande ensina-nos uma lição simples. Que o desenvolvimento não nasce apenas do petróleo nem das grandes cidades. Também germina no campo, nas mãos de quem lavra a terra, semeia esperança e transforma o esforço diário em alimento, emprego e progresso.
Pelo investimento realizado nas infra-estruturas hídricas do Cunene, 4.2 mil milhões de dólares, é indispensável que o projecto seja acompanhado por financiamento adequado, tecnologia, investigação científica, assistência técnica aos camponeses, mecanização e boas vias de acesso. A criação de cooperativas, o acesso ao crédito, a mecanização, a construção de estradas. As infra-estruturas hídricas do Ndúe e do Calucuve não podem ser vistas como um troféu eleitoral ou uma bandeira exclusiva do partido no poder. Representam uma oportunidade histórica para modernizar a vida no campo, transformar a economia regional, reforçar a competitividade nacional e preparar Angola para os desafios do desenvolvimento agrário das próximas décadas.
Se bem aproveitado, este projecto poderá constituir uma das grandes imagens de marca do consulado de João Lourenço, a par da construção de hospitais e de outras infra-estruturas que impactam directamente na vida das populações. Mas, para que esse investimento produza resultados duradouros, deve existir ética republicana na concessão das parcelas de terra do perímetro irrigado do Cunene, e no acesso às oportunidades económicas geradas pelo empreendimento. A terra, a água e os benefícios resultantes deste projecto não podem obedecer a critérios partidários, familiares ou de compadrio. Devem servir o interesse público, a produção nacional e todos aqueles que, com competência e capacidade de trabalho, estejam dispostos a transformar o potencial agrícola do Cunene em riqueza e desenvolvimento.
É preciso, igualmente, proibir rigorosamente que governantes, deputados e outros titulares de cargos públicos façam negócios com o Estado enquanto exercem funções, seja directamente ou através de familiares, amigos ou terceiros. Este facilitismo e esta promiscuidade entre o poder político e os interesses privados, estão entre as principais causas do insucesso empresarial em Angola.
A crise económica afecta a todos. É por isso que os grandes rumos da economia não podem ser tratados como troféus partidários, mas como uma verdadeira Agenda de Estado.
Quando o Presidente João Lourenço chegou ao poder, em 2017, prometeu ser diferente. Prometeu combater a corrupção e diversificar a economia. O povo acreditou. Chamaram-lhe reformador. Mas o tempo passa e népias!
Infelizmente, a corrupção não desapareceu, em muitos casos, apenas mudou de figuras e os papões formaram um pequeno grupo que se distribui entre si.
O desafio do Cunene, portanto, vai muito além da construção de canais e barragens. A verdadeira prova começa agora. Saber se a água será transformada em desenvolvimento, ou se as infra-estruturas acabarão capturadas pelos mesmos interesses de sempre.











