Quem vive para aparecer desaparece depressa. Mas quem vive para servir aparece na memória do povo para sempre. Quem sobe ao palco só para ser visto acaba por esquecer por que razão lá subiu…

Há uma espécie que nem a seca do Cunene conseguiu extinguir, nem a chuva de Benguela conseguiu afogar. É uma criatura rara, mas ao mesmo tempo abundante. Está em todo lado. Onde houver uma fotografia, uma câmara, um microfone, um casamento, um funeral, uma inauguração, uma palestra, uma panela de mufete ou uma simples distribuição de gasosa… lá está ela.
É o famoso “Mana Madó”.
Em Angola, quando alguém diz: “Aquele aí é Mana Madó!”, não está necessariamente a falar de uma mulher chamada Madó. Está a falar daquela pessoa que sofre da doença do “aparecimentismo crónico”. O problema não é participar. O problema é aparecer. Se possível, na primeira fila. E se não houver primeira fila, inventa uma.
O Mana Madó chega atrasado de propósito. Não porque perdeu o táxi, mas porque sabe que toda a gente já está sentada. Assim, entra devagarinho, cumprimenta em voz alta:
• Boa tarde, minha família!
Mesmo que ninguém responda.
Depois procura a cadeira mais visível. Se não existir, muda-a de lugar. Afinal, aparecer também é uma arte.
No bairro dizem:
— Eh pá… esse kota nasceu para fotografia.
No Roque Santeiro antigo, no São Paulo, no Catinton, no Golf, no Cazenga, no Sambizanga, no Benfica ou até na Mutamba, sempre existiu um Mana Madó. É aquele que, quando vê um jornalista, imediatamente começa a endireitar a camisa, limpa o suor da testa e fica atrás do entrevistado a fazer pose, como se fosse ministro sem pasta.
Há Mana Madó na política. Há Mana Madó na igreja. Há Mana Madó na associação. Há Mana Madó na família. Até no grupo do WhatsApp existe o Mana Madó digital, que comenta tudo, reage a tudo, envia “bom dia” com flores cintilantes e faz questão de dizer:
— Eu já sabia.
Mesmo quando descobriu cinco minutos antes dos outros.
O mais engraçado é o Mana Madó dos funerais. Enquanto uns choram, ele está preocupado em saber quem está a filmar.
No casamento, em vez de desejar felicidade aos noivos, quer é saber onde está o fotógrafo.
Na igreja, durante a oração, abre um olho para confirmar se a câmara da transmissão ao vivo está apontada para ele.
Quando o pastor diz:
— Fechem os olhos.
O Mana Madó fecha só um. O outro fica de vigia. Porque humildade, sim. Mas invisibilidade… nunca!
Existe também o Mana Madó das inaugurações. A obra pode ter sido construída por cinquenta pessoas. Mas quando chega a hora da fotografia oficial…
…ele já está ao lado da fita para cortar. Nem o mestre de cerimónias sabe como apareceu ali.
É como o funge bem mexido: ninguém viu quando entrou na panela, mas já faz parte da refeição.
Há ainda o Mana Madó intelectual. Não leu o livro. Não assistiu à conferência. Não conhece o assunto. Mas quando o microfone aparece…
Meu Deus!
Fala durante quarenta minutos sem dizer absolutamente nada. Sai aplaudido apenas porque terminou.
E o povo comenta:
— Kota falou bonito… Bonito, sim. Mas ninguém percebeu patavina.
O mais perigoso é quando o Mana Madó confunde visibilidade com importância. Pensa que aparecer é o mesmo que servir. Que posar é o mesmo que trabalhar. Que estar na fotografia é o mesmo que fazer parte da história. Esquece-se de que a mangueira não faz barulho quando produz manga.
O rio não anuncia a própria água. E o sol nunca precisa de publicidade para nascer.
Os nossos mais velhos sempre ensinaram que “a panela que cozinha bem não precisa bater na tampa”. O verdadeiro valor não vive da exibição, vive da utilidade.
O povo angolano também tem outro provérbio, dito à moda dos mwangolés:
“Quem sobe ao palco só para ser visto acaba por esquecer por que razão lá subiu”.
Num tempo em que as redes sociais transformaram qualquer telemóvel num estúdio de televisão e qualquer esquina num palco, talvez seja altura de recordar uma velha sabedoria da banda.
Nem tudo o que brilha é ouro. Nem toda a fotografia conta uma história. Nem toda a presença significa importância.
Porque, no fim das contas, quem planta sombra raramente aparece na fotografia da colheita. Mas é justamente debaixo dessa sombra que todos descansam.
Por isso, meus irmãos e minhas irmãs, menos síndrome de Mana Madó e mais espírito de serviço. Façamos o bem mesmo quando ninguém estiver a filmar. Trabalhemos mesmo quando não houver aplausos. Porque o respeito conquista-se pelas obras, não pelas poses.
E como diria qualquer kota sentado à porta de casa, abanando a cabeça enquanto bebe o seu café:
“Filho, quem vive para aparecer desaparece depressa. Mas quem vive para servir aparece na memória do povo para sempre”.
E, eu quem tenho a sogra com o apelido de Tia Madó! Faço então o quê ? Estou paiado, yah!
Bom fim de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu










