A CÉLULA AFRICANA DO ELISEU: O CORAÇÃO OCULTO DA FRANÇAFRIQUE

Durante mais de meio século, operou como um centro de poder paralelo, capaz de instalar e derrubar governos, manipular economias e travar guerras por procuração.

ALBÉRICO LUPITO

“Célula Africana do Eliseu” foi muito mais do que um simples gabinete presidencial. Durante décadas, funcionou como um verdadeiro “Estado paralelo” francês, um centro de poder informal e secreto que definiu o destino político, económico e militar de grande parte da África subsaariana. A sua história é a espinha dorsal do sistema conhecido como Françafrique.

1. Origens e arquitectos do poder

A génese da célula remonta a 1960, no rescaldo das independências africanas. O General Charles de Gaulle, determinado a manter a influência francesa no seu “quintal”, criou um Secretariado-Geral para os Assuntos Africanos e Malgaxes. Para o liderar, escolheu Jacques Foccart (1913-1997), um resistente e gaullista histórico que se tornaria a personificação do sistema.

Foccart não era um diplomata convencional; era um “fazedor de reis” que operava nas sombras. A sua célula, instalada no Palácio do Eliseu, não respondia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (Quai d’Orsay), mas directamente ao Presidente. Este era o “gabinete sombra” que decidia o destino de nações inteiras com uma autonomia quase absoluta.

2. O modus operandi:

Uma engrenagem de controlo

O modus operandi da célula era um sistema complexo que misturava apoio incondicional, ingerência política e, quando necessário, operações militares encobertas. O modo:

  • Clientelismo e “fazedor de reis”: o pilar do sistema era a lealdade pessoal; Foccart cultivava relações estreitas com líderes africanos, garantindo-lhes apoio militar, financeiro e diplomático em troca de lealdade e acesso privilegiado a recursos; esta lógica de “favor e desfavor” visava a “estabilidade” através de chefes de Estado “docilizados”.
  • Uma “mão invisível” militar: a célula usava as forças armadas francesas como um “martelo” para instalar ou proteger líderes amigos; isto incluía operações de mercenários franceses, que funcionavam como o “braço armado” da França em conflitos no continente; estas operações recebiam frequentemente um “feijão verde” (autorização) da própria célula.
  • Rede de corrupção e negócios: o sistema foi alimentado por uma teia de corrupção e negócios ilícitos; casos como o envolvimento da petrolífera Elf (empresa estatal francesa) revelaram como a célula e os seus aliados utilizavam redes financeiras para consolidar o poder e enriquecer.

3. Os presidentes e países sob a alçada da célula

A influência da célula estendeu-se por toda a “África francófona”, com exemplos paradigmáticos de como o sistema operava:

  • Gabão e Omar Bongo (1967-2009): é o caso mais emblemático; Omar Bongo foi “entronizado” à frente do país directamente por Jacques Foccart; Foccart convenceu o presidente cessante a escolher Bongo, que se tornaria um dos aliados mais fiéis e duradouros de Paris.
  • Togo e Gnassingbé Eyadéma (1967-2005): Eyadéma, um sargento do exército francês, chegou ao poder através de um golpe que resultou no assassinato do presidente eleito, Sylvanus Olympio; este acto foi cometido “com o favor de Jacques Foccart, um exemplo do apoio a líderes que serviam os interesses franceses.
  • Zaire (actual RDC) e Mobutu Sese Seko (1965-1997): Mobutu foi outro “cliente” central da célula, visto como o “chefe de polícia” da região dos Grandes Lagos; Foccart foi o principal interlocutor de Mobutu até à sua morte e chegou a convencer o governo francês a continuar a apoiar o ditador mesmo no fim do seu regime.
  • Costa do Marfim e Félix Houphouët-Boigny (1960-1993): conhecido como “o Velho”, foi um aliado de longa data e uma peça chave das redes da Françafrique; Foccart contribuiu activamente para consolidar a sua imagem de “ditador tolerante”.
  • Congo Brazzaville e Denis Sassou Nguesso (no poder desde 1979): outro “dinossauro” da política africana, cuja longevidade no poder vem sendo sustentada pelo apoio francês, com laços que remontam à era Foccart.
  • Chade e Idriss Déby (1990-2021): Déby foi outro pilar da estratégia francesa na região do Sahel, mantido no poder com o apoio de Paris, e cujo nome está ligado à esfera de influência da célula.
  • Camarões e Ahmadou Ahidjo (1960-1982): foi apoiado pela célula como o “candidato” francês para liderar o país após a independência.

Para além destes, a célula teve um papel activo no Ruanda (apoio ao regime de Habyarimana), no Burquina Faso (envolvimento no golpe que matou Thomas Sankara), e na Guerra no Biafra (1967-1970), onde apoiou os Igbos.

4. A longa sombra da célula

O poder da célula transcendeu presidentes. Jacques Foccart serviu até 1974 com Pompidou, mas a sua influência perdurou muito depois, com os seus sucessores a manterem o modus operandi:

  • Valéry Giscard d’Estaing: a célula foi dirigida por René Journiac.
  • François Mitterrand: teve quatro conselheiros, incluindo o seu próprio filho, Jean-Christophe Mitterrand(1988-1992).
  • Nicolas Sarkozy: tentou “integrar” a célula no corpo diplomático, mas sem sucesso total.
  • Emmanuel Macron: a célula sobrevive, agora sob a liderança de Franck Paris.

Conclusão

“Célula Africana do Eliseu” foi/é o motor do sistema neocolonial francês. Durante mais de meio século, operou como um centro de poder paralelo, capaz de instalar e derrubar governos, manipular economias e travar guerras por procuração. Embora o seu modus operandi tenha evoluído e a sua existência oficial tenha sido dissimulada, o legado da célula, com as suas redes de influência e a sua visão paternalista de África, continua a moldar as relações entre a França e o seu antigo “império”. A história da célula não é apenas um capítulo da política francesa, mas uma parte fundamental da história política e das lutas pela soberania de várias nações africanas.

Referências sobre Jacques Foccart e a Célula

Fundos documentais e fontes primárias

Os arquivos da célula estão disponíveis para consulta, sendo a principal fonte primária:

  • Fonds Foccart (Archives nationales de France): o fundo de arquivo do Secretariado-Geral para os Assuntos Africanos e Malgaxes, com a base documental mais completa sobre o período de 1958 a 1974.
  • Archives diplomatiques (La Courneuve): contêm telegramas e notas diplomáticas complementares ao fundo principal, como os dossiês sobre Camarões, Gabão, Chade e Congo.

Artigos e análises complementares

  • Artigos de imprensa: publicações como “Le Temps” e “The Globe and Mail”  documentam casos concretos (ex: o caso Jean-Christophe Mitterrand) e o debate público sobre o sistema.
  • Cairn.info / Assemblée nationale: estudos académicos e relatórios parlamentares  que analisam o “síndrome Foccart” e o papel das redes na política francesa para África.

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