DO “SANGUE ENVENENADO” À “REMIGRAÇÃO” NA EUROPA E NOS ESTADOS UNIDOS

A crise estrutural do capitalismo e a gramática fascista transatlântica

JOAQUIM JAIME

1. Introdução

A memória histórica, quando é cuidadosamente preservada, evidencia tendências preocupantes que as novas narrativas frequentemente procuram ocultar. O que outrora se restringia aos círculos mais extremos da política europeia tornou-se, na presente década, um projecto transatlântico coordenado. A ressurreição da linguagem nazi no discurso político – do “envenenamento do sangue” de Donald Trump ao conceito de “remigração” adoptado por alguns partidos políticos que vão da Alemanha a Portugal, passando pela França e pela Áustria – demonstra que o fascismo não é uma anomalia histórica, mas uma gramática política recorrente, reactivada sempre que a ordem capitalista entra em crise aguda.

O presente artigo propõe uma análise estrutural do Manual da Juventude Hitlerista (1937), confrontando os seus postulados com o discurso contemporâneo da extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos, com especial ênfase no movimento apoiador de Donald Trump. A tese fundamental é a de que a ideologia fascista constitui um sistema de crenças transnacional, cujos operadores políticos – do America First de Lindbergh ao Chega português, da AfD alemã ao Reagrupamento Nacional francês – partilham a mesma gramática de exclusão e a mesma instrumentalização do medo, emergindo sempre das mesmas condições materiais: a crise estrutural do capitalismo neoliberal.

2. A gramática racial: do “sangue” de Hitler ao “envenenamento do sangue” de Trump

Manual da Juventude Hitlerista é bastante explícito na sua fundamentação biológica da nação. O Capítulo I estabelece, com pretensão científica, a falta de semelhança entre os homens e a superioridade racial como princípio basilar e absoluto da vida política. O documento afirma que “a base da perspectiva nacional-socialista sobre a vida é a percepção da falta de semelhança entre os homens”. O Capítulo II prossegue detalhando as “raças alemãs”, com especial ênfase na suposta supremacia da “raça nórdica”, que constituiria cerca de 50% do povo alemão.

A função política desta racialização é incontestável: criar um inimigo interno, um “outro” que ameaça a pureza da comunidade. No manual, o judeu é apresentado como o agente da desagregação racial, o elemento estranho que deve ser segregado. A “Lei para a protecção do sangue alemão e do orgulho alemão” é apresentada como medida de defesa biológica.

Este mesmo mecanismo encontra-se no núcleo do discurso contemporâneo da extrema-direita, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Onde o nazismo falava em “sangue”, o discurso trumpista fala em “envenenamento do sangue”. Durante um comício em New Hampshire, em Dezembro de 2023, Donald Trump afirmou que os imigrantes estão a “envenenar o sangue do nosso país”. O termo, como observou Robert P. Jones, presidente do Public Religion Research Institute, é “directamente tirado do Mein Kampf – é retórica nazi. Uma sondagem conduzida pela Brookings Institution e pela PRRI, demonstrou que 34% dos americanos concordam com esta afirmação, incluindo 61% dos Republicanos.

Na Europa, a mesma estrutura discursiva opera através do conceito de “remigração” (remigration), termo cunhado pelo activista austríaco Martin Sellner, antigo neonazi e líder do movimento identitário Generation Identity. Segundo a análise publicada pelo European Journal of Political Research, o conceito de “remigração” designa a deportação em massa de imigrantes e dos seus descendentes, com o objectivo de “limpar etnicamente” os países tradicionalmente brancos. A narrativa de Sellner explora ansiedades profundas sobre a preservação cultural, sugerindo que a promoção da diversidade e da inclusão faz parte de um “plano” para enfraquecer a identidade alemã. Críticos afirmam que a “remigração” é essencialmente uma forma sanitizada de descrever a limpeza étnica patrocinada pelo Estado.

3. “Remigração”: o conceito que se tornou política de estado na Europa

A estratégia do movimento identitário, segundo Julia Ebner, directora do Violent Extremism Lab da Universidade de Oxford, consistia em “provocações controladas e polarização estratégica”, com o objectivo de mover o “Overton window” – o espectro de ideias que o público considera aceitáveis – para incluir noções outrora consideradas extremistas. Esta estratégia foi bem-sucedida. O que há anos era uma ideia marginal tornou-se uma prioridade política em múltiplos países.

3.1. Alemanha: A AfD e a normalização da “remigração”

Na Alemanha, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) incorporou o conceito de “remigração” no seu manifesto eleitoral de 2025, enquadrando-o explicitamente como um “catálogo de medidas para reverter o fracasso da política migratória”. O manifesto utiliza a retórica da Ersetzungsmigration (migração de substituição), denunciando o “crescimento populacional descontrolado” e retratando os muçulmanos como portadores de “conflitos estrangeiros importados” e “antissemitismo”. A proposta inclui a criação de “centros de detenção na fronteira” para permitir deportações em massa. Como observou o especialista em extremismo Peter R. Neumann, esta agenda visa milhões de pessoas com base na sua origem e religião, transformando a ideologia outrora marginal de Sellner num projecto parlamentar.

Em Janeiro de 2024, a investigação do Correctiv evidenciou uma reunião secreta em Potsdam onde membros da AfD e outros grupos discutiram um “plano mestre” de “remigração”, incluindo a deportação de cidadãos não-brancos já naturalizados. A divulgação provocou protestos em massa: mais de 250.000 pessoas manifestaram-se em cerca de 100 localidades em toda a Alemanha, com slogans como “Nazis out”, “Fascism is not an alternative” e “Defend democracy”.

A própria líder do partido Alice Weidel prometeu “repatriações em grande escala” se o partido chegar ao poder. Num acto de provocação, a secção de Karlsruhe da AfD distribuiu 20.000 a 30.000 panfletos a residentes de bairros de imigrantes, com bilhetes de avião fictícios para o “país de origem seguro” e a data de partida marcada para o dia das eleições. O prefeito de Karlsruhe, Frank Mentrup, condenou a campanha, afirmando que “encontrar tais notas na caixa de correio reforça um sentimento de insegurança e medo”.

3.2. Áustria: o FPÖ e a institucionalização europeia

Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ) adoptou a retórica da “remigração” durante a sua campanha parlamentar de 2024. Os líderes do partido advertiram contra uma “invasão bárbara” e o “islamismo importado”. O manifesto eleitoral do partido codificou a doutrina de Sellner como política de Estado, exigindo a criação de um “Comissário da UE para a Remigração” para supervisionar a deportação de “estrangeiros não convidados”. O manifesto amplifica os medos da Ersetzungsmigration ao declarar que a política migratória equivocada “ameaça a identidade cultural da Áustria e a paz social”.

3.3. França: a direita tradicional e a radicalização

Em França, o Reagrupamento Nacional (RN) de Marine Le Pen, obteve 33,2% dos votos no primeiro turno das eleições de 2024, conquistando 142 assentos no Parlamento francês com uma plataforma que incluía o fim do direito de reagrupamento familiar e o fim da cidadania por nascimento para filhos de não-franceses. Contudo, mesmo a direita tradicional, representada por Laurent Wauquiez (Les Républicains) e pelo candidato presidencial Éric Ciotti, adoptou uma retórica cada vez mais radical. Ciotti, que se tornou presidente dos Republicanos em 2022, defendeu a abolição do droit du sol (direito de solo), a redução drástica do reagrupamento familiar e a imposição de condições mais severas para o acesso de imigrantes à segurança social.

Embora Ciotti tenha evitado usar directamente o termo “remigração”, afirmou que “o futuro de África está em África, não na Europa” e opôs-se à migração baseada em razões climáticas. Esta evolução reflecte o que os analistas descrevem como a “normalização” do discurso da remigração, que desloca os limites da linguagem política aceitável nos debates migratórios europeus.

3.4. Portugal: o Chega e a política do medo

Em Portugal, o partido Chega, que emergiu como força política significativa, adoptou o mesmo padrão discursivo. A análise académica publicada na Society revela que o Chega utiliza a imigração como um “significante vazio” em torno do qual agrega diversas demandas políticas, associando a imigração à criminalidade, à insegurança e à percepção de corrupção do sistema político. Em Abril de 2026, o parlamento português aprovou uma nova versão da Lei da Nacionalidade através de um acordo entre o PSD e o Chega (com votos a favor também do CDS-PP e da Iniciativa Liberal), prolongando o período de residência para cidadania de 5 para 10 anos, embora para países da CPLP, incluindo União Europeia, o período máximo tenha sido fixado em 7 anos de residência legal.

O movimento “remigração” na Europa tem sido coordenado através de cimeiras pan-europeias. Em Maio de 2026, uma cimeira secreta em Portugal, na cidade do Porto, reuniu cerca de 500 activistas de extrema-direita, políticos e Gregory Bovino, ex-chefe da patrulha de fronteira dos EUA que se tornou o rosto público da repressão migratória da administração Trump. Estiveram também presentes Jared Taylor, proeminente líder supremacista branco americano, e representantes eleitos da AfD alemã e do Vox espanhol.

4. Os Estados Unidos: a institucionalização da “remigração” como política de Estado

A administração Trump, reeleita para um segundo mandato, transformou o conceito de “remigração” num pilar da sua política externa. O Departamento de Estado estabeleceu formalmente um “Office of Remigration”, e o Departamento de Segurança Interna passou a utilizar o termo nas suas publicações nas redes sociais. Heidi Beirich, do Global Project Against Hate and Extremism, define “remigração” como “a limpeza étnica ou deportação forçada, dos países tradicionalmente brancos, de todos aqueles que não são brancos”.

O Departamento de Estado emitiu uma declaração denunciando a chamada “replacement immigration” e promovendo a “remigration”. David Bier, director de estudos de imigração do Cato Institute, interpretou esta acção como “um endosso à limpeza étnica e um bloqueio total à imigração legal”. A John Birch Society saudou a declaração como prova de que a “Grande Substituição” “não é uma teoria da conspiração, mas uma política da ONU”.

A aplicação operacional deste conceito manifesta-se em operações de imigração descritas como violentas, com relatos de gás lacrimogéneo, armas de impacto e batidas de estilo militar em cidades como Los Angeles, Chicago e Nova Orleães. O antigo Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, e outros aliados de Trump reuniram-se com representantes da AfD e do Vox para discutir a implementação de políticas de “remigração”. A investigação do Correctiv documentou igualmente a presença de investidores e empresários nas reuniões secretas sobre “remigração”, indicando o envolvimento do capital neste projecto político.

5. O apoio histórico aos ideais nazis nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha

A actual ressurreição da retórica nazi nos Estados Unidos não é um fenómeno sem precedentes. O livro Hitler’s U.S. Allies: Americans Who Supported the Nazis, de Norman Ridley, documenta a existência de movimentos fascistas nos EUA desde o século XIX. O autor argumenta que a Ku Klux Klan foi descrita como “a primeira organização fascista do mundo”.

Durante os anos 1930, movimentos como a German American Bund, os Friends of New Germany e a Silver Legion (Liga de Prata), liderada por William Dudley Pelley, advogaram abertamente a favor de Hitler e do nazismo. O Padre Charles Coughlin, um padre de Detroit cujo programa radiofónico semanal era ouvido por cerca de 30 milhões de americanos (numa população de 120 milhões), foi um dos mais influentes defensores das políticas de Hitler.

Charles Lindbergh, o famoso aviador, tornou-se o porta-voz do America First Committee, a organização isolacionista que se opunha à entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. A organização, fundada em 1940, contava com 800.000 membros no seu auge e foi descrita por um oficial da inteligência britânica como “a arma mais eficaz à disposição do inimigo para manter os Estados Unidos fora da guerra”. Lindbergh discursou em comícios do America First e foi uma figura nuclear no movimento de simpatia ao Terceiro Reich.

Na Grã-Bretanha, a situação não foi menos preocupante. Lauren Young, no seu livro Hitler’s Girl: The British Aristocracy and the Third Reich on the Eve of WWII, revela, com base em documentos de inteligência recentemente desclassificados, a pervasividade das simpatias nazis entre a aristocracia britânica durante a década de 1930. Jovens descrevem a formação de uma “Quinta Coluna” que, através de organizações secretas como o Right Club (que contava com o Duque de Wellington entre os seus membros) e o Cliveden Set (que conduzia uma política externa paralela em apoio a Hitler), quase conseguiu derrubar a tradição democrática britânica. A socialite Unity Mitford manteve um escandaloso caso de quatro anos com Adolf Hitler.

6. A crise do capitalismo como condição de possibilidade do fascismo

A compreensão do fenómeno fascista exige uma análise das suas condições materiais de emergência. O Manual é, em si mesmo, um testemunho da crise do capitalismo alemão no pós-Primeira Guerra. A hiperinflação, o desemprego massivo e a humilhação do Tratado de Versalhes criaram o terreno para a oferta nacional-socialista de uma “terceira via” entre o liberalismo (associado ao capitalismo financeiro internacional) e o marxismo (apresentado como instrumento judaico). Os capítulos XII e XIII do Manual, dedicados ao “solo como fonte de alimento” e como “suporte para a indústria”, delineiam uma economia de guerra que subordina os interesses individuais ao projecto nacional, servindo os interesses do capital monopolista alemão.

A análise marxista clássica, recuperada por Ernest Mandel, identifica o fascismo como a forma mais reaccionária da ditadura do capital financeiro, instaurada pela burguesia imperialista para prolongar o seu domínio. O recurso ao fascismo prova que a alta burguesia “já não confia muito em conservar o poder político através da utilização dos meios burgueses ordinários – isto é, através dos meios da democracia parlamentar”.

No contexto contemporâneo, a crise estrutural do capitalismo neoliberal – caracterizada pela precarização do trabalho, pelo desmantelamento do Estado social e pela crescente desigualdade – produz as condições para o ressurgimento do fascismo. A investigação académica sobre o fascismo na América, compilada por Gavriel D. Rosenfeld e Janet Ward, debate precisamente se o “Trumpismo” deve ser visto como uma expressão do conservadorismo americano ou de uma tradição mais sombria – e potencialmente fascista. A conclusão mais plausível é que o movimento Trump representa a reactivação, em condições de crise, da gramática política fascista que sempre esteve latente na sociedade americana.

Tal como na década de 1930, a pequena-burguesia, “atingida duramente pela crise estrutural do capitalismo maduro, de modo a cair no desespero (inflação, falência das pequenas empresas, desemprego maciço de diplomados, técnicos e empregados)”, torna-se o terreno de recrutamento privilegiado dos movimentos de extrema-direita. A colaboração transatlântica entre a extrema-direita europeia e o movimento Trump é agora explícita, com cimeiras secretas em Portugal e reuniões entre aliados de Trump e representantes da AfD e do Vox.

7. A juventude como alvo da cooptação fascista

Manual destinava-se explicitamente à Juventude Hitlerista, reflectindo a convicção de Hitler de que “as crianças e os jovens representavam o futuro da raça ariana”. A educação nazista substituiu o conhecimento crítico pela doutrinação racial, supervalorizando as actividades físicas em detrimento das intelectuais e promovendo a queima de livros “prejudiciais ao regime”.

Este modelo de captura da juventude encontra paralelos preocupantes no presente. O movimento identitário, que popularizou o conceito de “remigração”, recrutou activamente jovens através de provocação e polarização estratégica. Utilizando plataformas digitais como Telegram e TikTok, os líderes identitários procuram mobilizar jovens europeus cépticos em relação aos ideais liberais e multiculturais.

A análise sociológica contemporânea identifica a “juventude zangada” como um segmento particularmente vulnerável à cooptação pela extrema-direita, especialmente em condições de precariedade económica. O simples acesso à educação não é garantia de emancipação: “o nazismo contaminou a Alemanha, país com índices educacionais e de formação nada desprezíveis”. A “rebeldia” juvenil, quando desprovida de um projecto político transformador, pode ser canalizada para o ódio ao sistema, aos políticos e aos imigrantes – transformando-se, assim, em “factor de cooptação” pela extrema-direita.

8. Conclusão

O paralelismo entre o Manual da Juventude Hitlerista e o discurso da extrema-direita contemporânea – da Alemanha a Portugal, da França à Áustria, e aos Estados Unidos – não é acidental. Ambos emergem da mesma constelação: crise do capitalismo, medo do “outro”, instrumentalização política da ansiedade demográfica e captura da juventude.

A ressurreição da linguagem nazi no discurso político – do “envenenamento do sangue” de Trump, que reverbera directamente Mein Kampf, à adopção do conceito de “remigração” como política de Estado na Alemanha, França e Áustria, e à sua institucionalização nos Estados Unidos através do Office of Remigration – demonstra que o fascismo é uma gramática política recorrente, reactivada sempre que a ordem capitalista entra em crise. A cimeira secreta no Porto, com a participação de activistas americanos e europeus, testemunha a internacionalização deste projecto.

A preservação da memória histórica não é, portanto, um exercício académico, mas uma necessidade política. Como advertiu Robert P. Jones, da PRRI, é “verdadeiramente alarmante encontrar este tipo de retórica e este tipo de apoio de um dos nossos dois grandes partidos políticos”. Como observou o ex-ministro da Educação português João Costa, “aquilo que se dizia sobre os judeus no passado será o que se diz hoje sobre alguns imigrantes”.

O fascismo, na sua essência, é uma resposta à crise do capitalismo que oferece a ilusão da comunidade homogénea contra a realidade da diversidade, e a promessa da ordem contra a complexidade da democracia. Reconhecer a permanência desta gramática política é o primeiro passo para a sua desconstrução.

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