
De 1975 até 1989, a então República Popular de Angola (à semelhança de grande parte dos demais Estados independentes de África) foi palco dos efeitos da Guerra Fria. O conflito bipolar envolvendo a antiga URSS e os Estados Unidos da América, foi a disputa entre o comunismo e o capitalismo, facto que influenciou os conflitos internos no continente africano, particularmente em Angola. Outrossim, os contactos que por essa altura o secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, empreendeu não ajudaram a melhorar as relações entre os dois países, no que respeita à política em Angola.
Por outras palavras, podemos dizer que o conflito deflagrado em Angola depois da proclamação da independência, é descrito comummente como a representação, no contexto da Guerra Fria, da rivalidade entre as duas superpotências da época (EUA e ex-URSS). O cenário foi a África Austral, ou como uma manifestação das diligências da África do Sul, dos tempos do Apartheid, para salvaguardar a supremacia da minoria branca em desfavor da maioria negra.
Na base desta interpretação, estão factos como a invasão do nosso país pela África do Sul, após a partida dos portugueses, em meados de 1975; o auxílio militar e técnico prestado pelos cubanos ao MPLA, a partir desse período, e a nova intervenção sul-africana para apoiar as forças da UNITA, na década de 1980, a par da assistência militar disponibilizada por Washington.
Com a chegada do presidente Ronald Reagan ao poder nos EUA, em 1981, ganhou força a luta contra a hegemonia e a preponderância militar soviética e dos seus aliados. Reagan anulou a Emenda Clark, que limitava a ajuda norte-americana às forças anticomunistas, mas engrandeceu o auxílio à guerrilha anti-soviética no Afeganistão. Assim, a presença cubana e a sua retirada de Angola, foi uma questão que deu origem a várias negociações entre Angola, Cuba, África do Sul e os Estados Unidos. No entanto, a conjuntura internacional, bem como a procura de hegemonia durante a Guerra Fria, influenciaram a política angolana, caracterizada pela guerra civil, pela defesa da independência política, proclamada sem sufrágio universal, contrariando o previsto nos Acordos de Alvor.
Convém-nos aludir que a oferta de ajuda dos EUA, em favor da UNITA, foi parte de uma estratégia que visava travar a influência dos soviéticos no continente africano e, em última instância, assegurar a hegemonia de um sistema capitalista liderado pelos americanos à escala mundial. E embora tiremos algumas conclusões sobre o MPLA e a UNITA, na época, com base nas suas ligações internacionais, adianta muito pouco sobre o seu envolvimento com a sociedade angolana, pelo que, o papel da África do Sul afigurou-se mais imparcial. Apesar da sua intervenção externa não ter estado na origem do conflito interno em Angola, não deixou de o promover e ajudou a prolongá-lo no tempo, uma vez que a UNITA recorrera à força e à persuasão para reunir apoios. Mas, algumas dificuldades na fase de investigação, impediram-na de aprofundar as questões relacionadas com a mobilização.
Alguns especialistas reconheceram as limitações de uma atenção exclusiva à intervenção de forças externas no nosso conflito. Enquanto uns constataram que as clivagens políticas em Angola se haviam manifestado ainda antes da chegada das duas superpotências da Guerra Fria, outros, por seu lado, não negligenciaram o peso desta intervenção. Mas, argumentaram que fazer da Guerra Fria o principal factor do conflito angolano significou “perder de vista a perspectiva interna, mas dinâmica”. E ignoraram a actuação dos intervenientes angolanos, em especial a escolha do dirigente da UNITA, Jonas Savimbi, de aceitar o auxílio oferecido por americanos e sul-africanos para promover uma agenda, no centro da qual estava o nacionalismo ovimbundo: “A guerra tornou-se uma guerra civil entre forças nacionalistas angolanas e, em simultâneo, uma guerra por procuração entre inimigos da Guerra Fria”.
Seja como for, a dinâmica interna do conflito, entre 1975 e 1991, e, em particular, o problema da relação entre as elites e a generalidade da população angolana, continua a ser relativamente descurado pelos investigadores. No nosso entender, houve uma profunda combinação de factores que levaram ao despoletar do conflito no nosso país.
Finalmente, cumpre-nos aludir que a compreensão do conflito interno angolano como produto imediato da Guerra Fria, esteve em consonância com a ortodoxia diplomática da época, pelo que, escolhas inevitáveis na aliança com um dos lados contendores (americano ou soviético) se impunha. Esta mesma ortodoxia foi a premissa dos acordos de Bicesse, em 1991, e das eleições de 1992: um acordo que não surgiu por iniciativa dos beligerantes angolanos, sendo antes uma solução desenhada por actores políticos exteriores a Angola, para responder a um complexo conjunto de alterações no equilíbrio de forças militares e políticas no plano internacional.
*Historiador











