A ALTERNÂNCIA POLÍTICA NÃO CONSTITUI PERIGO PARA A NAÇÃO

Angola precisa de construir uma atmosfera política mais positiva, porque o ambiente político tem reflexos directos na economia e em diversas outras cadeias de valor que dependem das decisões do poder público.

SAMPAIO JÚNIOR

Angola é um país que precisa, urgentemente, de melhorar o seu clima psicoemocional e político. Em vez de cultivarmos o senso crítico, a serenidade e o debate construtivo, alguns cultores de opinião pública parecem preferir abordagens excessivamente negativas, capazes de alimentar o medo, a desconfiança e a tensão social.

É neste contexto que se enquadra a recente afirmação do jurista David Mendes, segundo a qual, caso a UNITA chegue ao poder, haverá “terror”. Não, senhor David Mendes, não haverá necessariamente terror. Não devemos antecipar cenários de catástrofe sempre que se fala de alternância política.

O caminho que o líder da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, tem vindo a percorrer está longe de sustentar essa previsão. Pelo contrário, em várias ocasiões, o líder do “Galo Negro” tem enfrentado resistências dentro do próprio partido, inclusive entre sectores da cúpula do antigo movimento rebelde, que nem sempre se reveem no seu discurso de abertura, inclusão e renovação.

Basta observar algumas das escolhas feitas pela UNITA para a nova composição da Comissão Nacional Eleitoral, entre elas António VenturaWilliam Tonet e outros nomes. O conhecimento técnico, a experiência e o perfil interventivo dos indicados podem contribuir para um maior escrutínio do processo eleitoral, e para a defesa da transparência, da imparcialidade e da lisura.

Aliás, não deixa de ser curioso que o próprio David Mendes tenha chegado pela primeira vez à Assembleia Nacional com o apoio da UNITA. A história política raramente é feita de linhas rectas, por isso, exige de todos nós alguma prudência nas análises e, sobretudo, responsabilidade nas palavras.

Angola precisa de construir uma atmosfera política mais positiva, porque o ambiente político tem reflexos directos na economia e em diversas outras cadeias de valor que dependem das decisões do poder público. O poder político tem capacidade para influenciar ou mesmo impor decisões sobre grupos, gerir recursos colectivos e organizar a vida em sociedade. Está ligado ao funcionamento das instituições do Estado, ao uso legítimo da força e à aceitação das regras por parte da população.

Por isso mesmo, o poder político deve ser um instrumento terapêutico da sociedade, e não um mecanismo permanente de tensão, intimidação ou repressão.

Não se pode pretender construir uma democracia sólida recorrendo à força para reprimir simples actos de cidadania e de manifestação pública, sejam eles pequenos ou de massas. A UNITA já não possui braço armado. É, hoje, um partido político e o maior partido da oposição em Angola. Deve ser tratado como tal, dentro das regras do Estado democrático.

Nesta segunda-feira, 17 de Agosto, o ministro do Interior, Manuel Homem, afirmou que a Polícia Nacional é republicana. Tomara que assim seja, porque ainda há um longo caminho a percorrer para que essa afirmação seja plenamente reconhecida na prática por todos os cidadãos. Que o digam os “maninhos” e outros sectores da sociedade civil que, em diferentes momentos, foram confrontados com o uso de balas reais, balas de borracha e gás lacrimogéneo durante manifestações.

E então, ainda devemos considerar plenamente republicana uma polícia que, perante determinados actos de cidadania, responde desta forma?

Angola precisa de pensar Angola. Precisamos de trabalhar com a contribuição de todos, independentemente das suas filiações políticas. Precisamos de recuperar a esperança, reconstruir a confiança e encontrar caminhos capazes de regenerar este território de cerca de 1.246.700 km² de área, com 1.650 km de costa marítima, sem esquecer o seu vasto espaço aéreo, e com mais de trinta milhões de habitantes, uma população que, em muitos sectores, parece ter perdido a esperança num futuro melhor.

É necessário olhar para o futuro sem medo da alternância política. Uma alternância feita dentro das regras democráticas, com respeito pelas instituições e pela vontade popular, pode ser saudável para Angola. Nenhum partido deve ser eterno no poder, assim como nenhum partido deve ser condenado à eterna oposição.

O mais importante é que a mudança, quando acontecer, seja feita através das urnas, com maturidade, responsabilidade e respeito pela Constituição.

Angola não deve abrir espaço para ditadores, independentemente da cor partidária. O país precisa de preparar novas gerações para o exercício do poder, jovens com conhecimento, sentido de Estado, clarividência e capacidade de compreender que governar não significa possuir o país, mas servir os cidadãos.

O futuro de Angola não deve ser construído pelo medo do outro. Deve ser construído pelo diálogo, pela tolerância, pela inclusão e pela confiança nas instituições.

Precisamos, acima de tudo, de pensar Angola.

Luaty Beirão, em frente ao edifício da Comissão Nacional Eleitoral

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