MUITA UVA PARA POUCA PARRA NO SECTOR DOS TRANSPORTES

SAMPAIO JÚNIOR
– CRÓNICA AFIADA

Angola não precisa apenas de ser apresentada como futuro hub logístico da África Austral em conferências internacionais. Precisa de demonstrar, na prática, que os seus portos, caminhos-de-ferro, aeroportos, estradas e empresas de transporte estão preparados para desempenhar esse papel.

Até certo ponto, o ministro dos Transportes, Ricardo D’Abreu, tem provocado uma certa disrupção no seu pelouro, sobretudo pela visibilidade que tem dado ao sector através da realização de várias conferências e encontros internacionais. É inegável que estes fóruns podem ser importantes para atrair parceiros, investimentos, conhecimento e novas soluções para os transportes nacionais.

Mas há uma questão que começa a incomodar: quando é que os discursos, as estimativas e os compromissos anunciados, começam a transformar-se em resultados palpáveis para benefício do cidadão?

Ao nosso ver, as conferências internacionais não devem ser avaliadas apenas pelos discursos, pela quantidade de participantes ou pela pompa dos eventos. Devem ser avaliadas, sobretudo, pelo que fica depois: acordos concretos, recursos mobilizados, responsabilidades definidas, prazos estabelecidos e resultados verificáveis.

E é precisamente aqui que parece existir algum desalinhamento, entre o discurso e a realidade que o cidadão encontra na prestação do sector.

Ficamos, por vezes, com a sensação de que há muito marketing e pouca parra, como se estivéssemos perante uma grande montra internacional, mas com os resultados concretos ainda a fazerem-se esperar. Não estamos a dizer que as conferências não sejam importantes. São. O problema é saber o que acontece depois de as luzes se apagarem e os convidados regressarem aos seus países.

Basta olhar para a TAAG. A companhia beneficiou de investimentos significativos na renovação e modernização da sua frota, uma realidade que pode ser vista como um activo importante para a aviação nacional. Porém, persistem problemas operacionais que afectam a experiência dos passageiros e a confiança no serviço.

Nas rotas domésticas, os atrasos e alterações de horários continuam a provocar preocupação. Há passageiros que embarcam sem saber, com segurança, se o voo partirá à hora anunciada. E quando falamos de ligações entre Luanda e Cabinda, uma província de enorme importância económica, a regularidade e a previsibilidade dos voos continuam a ser questões que merecem respostas.

Então, senhor ministro Ricardo D’Abreu: que resultados concretos estão a produzir tantos encontros internacionais?

A pergunta não é provocatória por si só. É uma pergunta que nasce da realidade da prestação de serviço dos operadores do sector que dirige, que afectam de forma significa o passageiro normal, o empresário e  todos aqueles que dependem diariamente de um sistema de transportes pouco ou nada eficiente.

E a montanha, por enquanto, parece estar a parir um kandondo.

No linguajar popular de algumas regiões ovimbundu, kandondo é associado a um rato muito pequeno. Uma expressão que cabe aqui como metáfora: muita expectativa, muita movimentação e, no fim, um resultado ainda demasiado pequeno perante o tamanho da promessa.

E o CFB?

Se há outro exemplo que merece atenção, é o Caminho de Ferro de Benguela (CFB).

O CFB deveria ser uma peça fundamental na ligação do interior de Angola ao Corredor do Lobito, facilitando a circulação de pessoas e, sobretudo, o transporte de mercadorias provenientes do Leste do país. Mas, milhares de cidadãos continuam a queixar-se da qualidade e das condições do serviço.

Circulam nas redes sociais imagens que suscitam preocupação sobre a lotação das composições e as condições oferecidas aos passageiros. Se essas imagens correspondem à realidade operacional, então temos aqui matéria suficiente para uma reflexão séria da direcção do Ministério dos Transportes.

Recentemente, um empresário veio também manifestar preocupação relativamente aos preços praticados pelo serviço ferroviário. Para quem pretende transportar mercadorias, o caminho-de-ferro deveria representar uma alternativa eficiente e competitiva. Mas não. Os nacionais estão a desistir do CFB.

Há ainda uma outra questão curiosa: o próprio CFB dispõe de meios ferroviários antigos que, devidamente recuperados, poderiam eventualmente ganhar uma segunda vida no turismo ferroviário. Em vez de permanecerem a degradar-se nas oficinas, poderiam ser transformados em património histórico e turístico, criando uma experiência diferenciada ao longo de uma das linhas ferroviárias mais emblemáticas de Angola.

Por isso são dirigidas críticas sobre a orientação do pelouro e sobre a mais-valia da quantidade de conferências internacionais realizadas. A crítica não deve ser interpretada como oposição à diplomacia económica ou à cooperação internacional. A questão é outra: quanto está o Estado a gastar para organizar estes grandes encontros, e quanto valor concreto se está a arrecadar para beneficiar o país e o sector?

Do Summit à realidade

Na abertura oficial da 2.ª edição do Angola Hub Transporte e Logística Summit 2026, Ricardo D’Abreu afirmou que o momento era determinante para consolidar a visão estratégica de transformar a conectividade num verdadeiro motor de diversificação económica e integração regional.

O ministro defendeu ainda que o desenvolvimento pretendido vai muito além da construção de infra-estruturas físicas, exigindo a optimização dos corredores logísticos do Lobito e do Namibe, a simplificação de procedimentos e o fortalecimento das parcerias público-privadas, capazes de gerar valor local e postos de trabalho.

Falou também da operacionalização da cadeia de frio e das plataformas logísticas, incluindo o Pólo da Caála, da modernização da cabotagem marítima através da embarcação Tchiowa e da transição energética através do programa Ondjila Green. Tudo isto parece fazer sentido no papel.

Mas o cidadão quer saber: quando é que tudo isto será sentido no bolso, nas estradas, nos comboios, nos portos, nos aeroportos e no cumprimento dos horários dos voos?

O próprio ministro disse que estes projectos devem contribuir para reduzir os custos logísticos, e garantir que a eficiência dos transportes se traduza em benefícios concretos no quotidiano das famílias e das empresas. É exactamente isso que se espera…

Angola não precisa apenas de ser apresentada como futuro hub logístico da África Austral em conferências internacionais. Precisa de demonstrar, na prática, que os seus portos, caminhos-de-ferro, aeroportos, estradas e empresas de transporte estão preparados para desempenhar esse papel.

Ministro Ricardo D’Abreu, o sector dos Transportes precisa de menos efeito de palco e de mais mais respostas efectivas. O senhor é músico, integra o GT7 do país, e os angolanos conhecem aquela música bonita, “Manhã de Domingo”, cujo refrão transmite uma certa leveza e esperança.

Pois bem: trate bem os angolanos para que também tenham uma verdadeira manhã de domingo nos transportes públicos.

Menos conferências como fim em si mesmas. Mais execução. Menos promessas para o futuro. Mais resultados no presente.

Comprometa-se com a causa. Porque o cidadão já ouviu demasiados discursos onde se ‘adoura a pílula’. Agora quer ver a música tocar no terreno.

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