KUPAPATAS: ENTRE A DESORDEM, A SOBREVIVÊNCIA E A INSEGURANÇA

SAMPAIO JÚNIOR

O poder político não deve brincar com o fogo, muito menos tentar gerir a paz social através de tácticas conjunturais ou meramente eleitorais. A segurança também se constrói com emprego, educação, justiça social e oportunidades reais.

Como dizia o meu falecido avô: “Angola já é um Congo!” Uma expressão popular que, infelizmente, ganha actualidade perante o sentimento de insegurança e abandono que se instala em muitas comunidades.

Convenhamos que o próprio Executivo contribuiu para o crescimento desordenado do fenómeno que hoje conhecemos por kupapatas. A actividade expandiu-se por todo o país, mas as autoridades não souberam, mais uma vez, antecipar-se aos acontecimentos, estabelecer regras claras e criar mecanismos eficazes de regulação.

O negócio tornou-se bastante atractivo, até porque a população encontrou no transporte de passageiros em motorizadas uma alternativa acessível para a sua mobilidade, com a vantagem de levar o passageiro até à porta de casa. Contudo, o constante vaivém das motorizadas trouxe consigo uma preocupante desordem nas estradas: motorizadas sem iluminação, veículos em péssimo estado de conservação, excesso de passageiros e desrespeito generalizado pelas regras de trânsito. Mais preocupante ainda, é a postura de alguns motoqueiros quando se envolvem em acidentes. Alegam sistematicamente ter razão pelo simples facto de circularem à direita da faixa de rodagem, como se essa circunstância lhes conferisse imunidade perante as regras do Código da Estrada. É triste ouvir este tipo de argumentação, que revela uma preocupante falta de cultura rodoviária.

E não devemos ignorar esta realidade nem transformar a necessidade de sobrevivência numa licença para colocar em perigo a vida dos outros. Os kupapatas também têm responsabilidades no cumprimento das normas de trânsito.

A sobrevivência

Entretanto, há outro dado que merece reflexão. A actividade não é exercida exclusivamente por jovens desempregados que procuram uma alternativa de sobrevivência. Há relatos de que um número significativo de motorizadas, pertence a pessoas com ocupações profissionais distintas, entre políticos, médicos, enfermeiros, professores universitários, agentes da Polícia Nacional e até oficiais dos serviços de inteligência. São proprietários que colocam as motorizadas ao serviço do transporte de passageiros e, no final do dia, recebem o dinheiro resultante da actividade. Ou seja, o negócio ganhou uma dimensão económica que ultrapassa a simples informalidade e envolve diferentes sectores da sociedade. E por isso encontra conforto à vários níveis, apesar das inúmeras irregularidades que os motociclistas cometem a cada instante.

Por outro lado, todos os dias há notícias que dão conta do assassinato de kupapatas. São jovens que encontraram no transporte informal de passageiros, através de motorizadas, uma das poucas alternativas para sobreviver numa sociedade que parece ter-lhes fechado as portas das oportunidades. Uma parte significativa destes jovens é oriunda do meio rural, de onde saiu, procurando nas cidades melhores condições de vida.

A situação começa a assumir contornos assustadores. Jovens são aliciados com corridas de transporte de passageiros para zonas identificadas como áreas de elevada criminalidade. Chegados ao destino, alguns são assassinados e as suas motorizadas roubadas. Não será exagerado começar a falar numa verdadeira “guerra contra os kupapatas”, tendo em conta a frequência com que estes crimes são relatados um pouco por todo o país?

O ambiente social está profundamente degradado. A fome, o desemprego e a ausência de políticas públicas eficazes de inclusão económica empurram milhares de jovens para a marginalidade. Muitos não encontram espaço no mercado formal de trabalho; outros não têm sequer condições para iniciar uma pequena actividade económica. E, neste vazio de oportunidades, a criminalidade ganha terreno.

O Executivo liderado pelo Presidente João Lourenço não pode continuar a assistir esta realidade, como se não lhe dissesse respeito. Ora, João Lourenço tem o tempo cronometrado no cadeirão da Cidade Alta. As prometidas oportunidades de emprego para a juventude ficaram, como diz o povo, “para inglês ver”.

Há ainda uma dimensão particularmente preocupante: os jovens que conseguem reunir condições para trabalhar, como os kupapatas, acabam por ser vítimas de outros jovens que, sem perspectivas de vida, encontram na violência e no roubo uma forma criminosa de sobrevivência. É o retrato dramático de uma juventude colocada em confronto consigo própria. Temos ou não uma baderna de país?

E quando os assassinatos são cometidos, frequentemente, com recurso a armas de fogo, desde armas automáticas do tipo AK-47 até pistolas orgânicas ligadas as forças defesa e segurança e ordem interna, a pergunta torna-se inevitável: como é que tantas armas circulam nas mãos de criminosos?

O CISP, por mais importante que seja enquanto instrumento de vigilância, não pode representar uma segurança limitada a determinados pontos urbanos, deixando outras comunidades praticamente entregues à própria sorte. E passados vários anos desde que foi instalado, lamentavelmente, nos parece não ter evoluído para um raio de cobertura superior.

Não podemos aceitar que a pobreza continue a produzir vítimas, e que a criminalidade transforme o trabalho honesto numa sentença de morte.

É verdade que nem todos conseguem emigrar. Nem todos têm familiares no exterior, recursos financeiros ou oportunidades para abandonar o país. A maioria fica. E, entre os que ficam, há quem lute diariamente pela sobrevivência, sem qualquer rede de protecção social.

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