DIA MUNDIAL DO AMBIENTE. GANÂNCIA E EXPLORAÇÃO SEM LIMITES

RECADOS DA CESALTINA ABREU (95)

Consumismo, poluição, desflorestação, degradação ambiental e procura desenfreada de lucro compõem um cenário preocupante. O ser humano continua a agir como se fosse a medida de todas as coisas, ignorando os limites do planeta.

Hoje, 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, recordo duas reflexões que permanecem extraordinariamente actuais.

“A natureza criou um tapete sem fim que cobre a superfície da Terra. Dentro da pelagem desse tapete vivem todos os animais, respeitosamente. Nenhum o estraga, nenhum o rói, excepto o ser humano”.

A frase do escritor brasileiro Monteiro Lobato destaca, de forma poética, a harmonia inerente das espécies com o ambiente, contrastando com o impacto destrutivo da acção humana.

Já em 1984, Carlos Drummond de Andrade escrevia: “De cada cem árvores antigas restam cinco testemunhas acusando o inflexível carrasco secular. Restam cinco, não mais. Resta o fantasma da orgulhosa floresta primitiva”.

As palavras de Lobato e Drummond continuam actuais. O dinheiro, na medida certa, é indispensável: financia o progresso, a educação, a cultura e o bem-estar. Porém, a busca incessante por riqueza, poder, prestígio e glória alimenta a ganância e uma lógica de exploração sem limites.

Consumismo, poluição, desflorestação, degradação ambiental e procura desenfreada de lucro compõem um cenário preocupante. O ser humano continua a agir como se fosse a medida de todas as coisas, ignorando os limites do planeta.

Este ano, a Terra entra em sobrecarga ecológica a 30 de Julho. A partir dessa data, a humanidade terá consumido todos os recursos naturais que o planeta consegue regenerar num ano, passando a viver “a crédito”.

Segundo a Global Footprint Network, estamos actualmente a utilizar os recursos naturais 73% mais depressa do que a capacidade de regeneração da Terra, o equivalente a consumir 1,73 planetas. Trata-se do nível mais elevado de sobrecarga ecológica da história humana.

As consequências são visíveis: desflorestação, erosão dos solos, perda de biodiversidade, acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, fenómenos climáticos extremos mais frequentes e crescente pressão sobre a produção alimentar.

Em 2026, a Global Footprint Network convida-nos a olhar para a forma como os países se preparam para um futuro marcado pela disrupção climática e pela crescente escassez de recursos, avaliando até que ponto as políticas públicas e os modelos económicos incorporam a sustentabilidade como prioridade efectiva e não apenas como discurso. Trata-se, no fundo, de avaliar se estamos a corrigir o rumo ou apenas a acelerar na direcção errada.

Dia Mundial do Ambiente é, por isso, mais do que uma data comemorativa. É um alerta. Um lembrete de que a prosperidade construída à custa da exaustão dos recursos naturais é uma prosperidade ilusória. A questão já não é saber se teremos de mudar os nossos padrões de produção e consumo, mas se seremos capazes de o fazer a tempo. A natureza tem limites; a nossa capacidade de os ignorar é que parece não os ter.

Enfim, o Dia Mundial do Ambiente recorda-nos a verdade simples de um provérbio africano : não herdámos a Terra dos nossos antepassados, tomámo-la emprestada às gerações futuras . E, perante a velocidade com que consumimos o capital natural do planeta, a pergunta torna-se inevitável: que mundo lhes devolveremos?

Saúde, cuidados e coragem para continuar a luta por um estilo de vida assente num sistema de produção, distribuição e consumo que seja economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente sustentável! 

Kandando daqui!

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