O VINIL DO IMPÉRIO: ANGOLA A DANÇAR A MÚSICA QUE NÃO ESCOLHEU

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Quem manda no som são sempre os mesmos maestros da komba nacional. Mudam as gravatas, mudam os slogans, mudam os jingles eleitorais… mas o semba da confusão continua exactamente igual.

Sábado é dia de descanso, dizem. Mas em Angola, até o descanso vem com banda sonora oficial. A vitrola nacional não desliga, o vinil gira com uma disciplina exemplar e o DJ do costume continua firme, com aquele talento raro de mudar tudo… para que tudo fique exactamente igual. O país acorda, espreguiça-se e lá está: a mesma música. Não é déjà vu, é política pública.

Angola, é comparada a uma grande kizomba política, onde o DJ controla o som, o povo paga entrada, mas quem dança mesmo são sempre os mesmos kotas do camarote.

E o pior? O vinil já está todo riscado, malembe-malembe, mas insistem em tocar aquilo como se fosse novidade fresquinha saída do Dubai.

Meu irmão… aquilo já nem música é. É sofrimento com batida.

Toda manhã o angolano acorda com o mesmo playlist:

— “Agora é que vai melhorar!”

— “A juventude é o futuro!”

— “Estamos a combater a corrupção!”

— “O povo está no centro das atenções!”

No centro das atenções onde? Porque no centro da cidade já nem estacionamento o povo consegue. Enquanto isso, o cidadão está ali no táxi: gasolina cara, bolso vazio, calor de 40 graus e o cobrador ainda a dizer:

“Chefe, aperta só mais um bocadinho aí atrás.” O angolano já virou especialista em apertar: aperta no táxi, aperta no orçamento, aperta no coração, aperta até na esperança.

Mas calma… segundo os especialistas da banda governativa, “o País está a crescer”. Está crescer onde exatamente?

Porque no bairro o único crescimento visível é: preço do frango, da fuba, do óleo e das igrejas de profeta com Wi-Fi espiritual.

O vinil do império continua a tocar forte. E quem manda no som são sempre os mesmos maestros da komba nacional. Mudam as gravatas, mudam os slogans, mudam os jingles eleitorais… mas o semba da confusão continua exactamente igual. É tipo aquelas festas onde o DJ promete: “Última música!”… mas toca mais 47 minutos. O povo já nem sabe se está numa República ou numa telenovela repetida da TPA Internacional.

E atenção: em Angola, política virou kuduro psicológico. Você acorda pobre… ouve discurso… e vai dormir patriota.

Os “Mbulamatadi” falam de “sacrifício do povo” com barriga cheia de buffet diplomático. Há ministros que já parecem turistas no próprio País: só aparecem para inaugurar placa, cortar fita e desaparecer no ar-condicionado.

Enquanto isso, o povo está no modo sobrevivência: candonga emocional, ginástica financeira e fé nível final boss.

O jovem angolano então… coitado. Mandam-lhe “empreender”. Empreender com quê, malembe? Com saldo Unitel de 100 kwanzas? Hoje em Angola, abrir negócio exige: coragem, milagre, cunha, oração da avó e talvez um tio no ministério. Sem isso, meu kota, podes vender até vento engarrafado que vais falir com dignidade.

E o mais engraçado é o pessoal do comentário político gourmet“Não podemos criticar muito”“Temos de preservar a estabilidade”. “Há avanços”.

Avanços? Claro que há avanços. A dívida avança. A inflação avança. A paciência do povo também já está avançar para área da feitiçaria. Mas ninguém quer desligar a aparelhagem. Porque há muita gente a viver bem dentro da festa.

No camarote do poder tem: ar-condicionado, whisky importado, discurso revolucionário e patriotismo patrocinado. Lá em baixo o povo dança descalço na brita económica.

E mesmo assim o angolano ainda arranja força para rir. Esse é o verdadeiro petróleo nacional. Porque se dependesse só do salário, meu irmão… até a felicidade já estava em privatização.

No fundo, Angola virou aquele baile complicado: a música ninguém escolheu, o DJ ninguém questiona, o povo ninguém ouve, mas no fim ainda perguntam: “Então, camarada… estás satisfeito ou queres destabilizar”?

E nós ali… a dançar semba com conta bancária de kudurista underground.

Mas cuidado. Um dia o povo pode cansar de dançar. E quando o angolano pára de dançar e começa a pensar… até o vinil do império treme na vitrola. 

No entanto, fica uma dúvida incómoda, quase subversiva para um sábado aparentemente tranquilo: e se o problema nunca foi a forma como dançamos… mas sim a música que nos obrigam a ouvir?

Ela pode não tocar no vinil, mas ecoa muito além dele. 

Bom, enquanto o vinil toca, eu vou escolher a música da panela de um bom feijão de óleo de palma, para o final de semana. 

Fuiiiiii! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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