
RECADOS DA CESALTINA ABREU (90)
“O que nos faz ser pessoa não é o bilhete de identidade, o que nos faz ser pessoa é aquilo que não cabe no bilhete de identidade”
Mia Couto
Esta reflexão do escritor moçambicano Mia Couto, destaca a diferença entre a nossa identidade formal/jurídica — o documento de identificação — e a nossa identidade existencial, o ser humano real.
O Bilhete de Identidade (BI) representa um rótulo, uma etiqueta: reúne os nossos dados biográficos e atribui-nos um número na série nacional. Através dele, passamos a integrar a lista dos “nacionais” de um país. Mas, e o “nós”, a essência?
Essa essência — aquilo que realmente nos torna pessoas — não cabe no documento e escapa completamente a qualquer lista.
Aí, estão:
• A nossa história e memórias; as experiências vividas, os lugares visitados, as dores e alegrias que moldaram quem somos; também os sonhos, as aspirações e os receios que nos travam;
• A empatia que desenvolvemos, as emoções que sentimos e a forma única como olhamos para o mundo;
• A consciência e o livre-arbítrio: a capacidade de fazer escolhas, de cultivar valores e agir com responsabilidade.
E há, ainda, pelo menos mais dois elementos:
• A nossa imperfeição, a nossa incompletude;
• a nossa complexidade.
É nisso que se constrói a natureza humana: um processo contínuo, repleto de contradições, em busca de sentido e propósito. Tudo isso não cabe num BI — um documento numerado, estático e fixo.
O BI identifica o indivíduo perante o Estado; é a vida que revela a pessoa a si mesma e aos outros.
Bom sábado, saúde, cuidados e coragem para continuar, em frente.
Kandando daqui!











