
A insegurança não vem apenas dos criminosos comuns. Vem também dos criminosos com farda municipal, criados pelo próprio Estado. Se esta praga não for eliminada, ela continuará a corroer a legitimidade institucional, até que nada reste além de ruínas e medo.
O que hoje se chama segurança em Angola, não passa de uma ficção mal escrita. O país afundou‑se numa desordem tão grotesca, que até os órgãos de direito parecem espectadores impotentes de um teatro de violência e de incompetência. A verdade nua e crua é simples: o Estado criou os seus próprios predadores — e soltou‑os nas ruas.
Os fiscais das administrações municipais são a prova viva de que o Estado angolano perdeu o controlo sobre a sua própria arquitectura institucional. Não são agentes públicos; são subprodutos da negligência estatal, jovens sem formação, sem disciplina, sem moral, sem qualquer estrutura emocional. São, como diria Hannah Arendt, “a banalidade do mal em versão administrativa”.
Estes indivíduos não foram preparados para servir o público — foram atirados para a rua como cães vadios com crachá, legitimados para destruir, intimidar e roubar.
O país assiste, dia após dia, a um espectáculo de brutalidade:
- Zungueiras atropeladas por operações selvagens;
- Mercadorias saqueadas à luz do dia;
- Extorsão institucionalizada como método de trabalho;
- Desvios de fundos transformados em negócio pessoal;
- Agressões físicas justificadas como “cumprimento de ordens superiores”.
Como escreveu Nietzsche, “quem combate monstros deve cuidar para não se tornar um”. O Estado angolano não cuidou — e tornou‑se exactamente isso.
A situação atingiu um nível de absurdo que roça o criminoso: fiscais que prendem cidadãos, que os arrastam para escombros, que aplicam “justiça” sem lei, sem supervisão, sem qualquer legitimidade. E o mais grave: muitos actuam em conluio directo com administradores municipais, criando uma cadeia paralela de poder que substitui a autoridade legítima.
Como alertou Franz Kafka, “a lei que não é aplicada com justiça transforma‑se num instrumento de tortura”. Em Angola, esse instrumento está nas mãos de lumpens com uniforme.
Os veículos usados pelos fiscais tornaram‑se símbolos de terror urbano. Circulam como máquinas de pilhagem, roubando mercadorias das zungueiras, intimidando vendedores, destruindo a confiança pública. São a prova material de que o Estado não apenas tolera a violência — ele a institucionalizou.
Este fenómeno não é um detalhe administrativo: é uma ameaça directa à segurança pública, à ordem social e à própria ideia de Estado.
Os órgãos de direito têm de agir com brutalidade proporcional ao caos instalado. Se necessário, extinguir estes fiscais, desmantelar as brigadas municipais, investigar administradores cúmplices, punir exemplarmente quem transformou a administração pública num antro de delinquência.
Como escreveu Thomas Hobbes, “onde não há autoridade, há guerra”. E Angola vive uma guerra silenciosa — uma guerra entre o Estado legítimo e o Estado degenerado que ele próprio alimentou.
A insegurança não vem apenas dos criminosos comuns — vem dos criminosos com farda municipal, criados pelo próprio Estado. Se esta praga não for eliminada, ela continuará a corroer a legitimidade institucional, até que nada reste além de ruínas e medo.
*Investigador em Segurança e Defesa











