O FENÓMENO ADAM KOTAS: QUANDO O SAGRADO SE APROXIMA DO HUMANO

LUÍS SILVA CARDOSO 

O que acontece em torno de Adam Kotas talvez não possa ser explicado apenas pelo humor, pela popularidade das redes sociais ou pela curiosidade que a sua personalidade desperta. Há algo mais profundo nessa relação que ele estabelece com os fiéis: uma espécie de intimidade que aproxima o homem comum de uma figura que, tradicionalmente, representa o sagrado.

O sacerdote, na imaginação religiosa, ocupa um lugar singular. É uma figura revestida de autoridade espiritual, associada à castidade, à consagração, aos sacramentos e à Palavra de Deus. Existe, portanto, uma distância simbólica entre o padre e o fiel. Mas Kotas parece reduzir deliberadamente essa distância. Ele fala de Deus, mas também fala das pequenas misérias humanas; aborda questões sérias sem medo do humor; toca em assuntos que muitas vezes permanecem escondidos atrás de uma linguagem religiosa excessivamente formal.

É precisamente nessa combinação que talvez esteja uma parte do seu fascínio: o sagrado não desaparece, mas ganha rosto humano.

Ele não parece interessado em apresentar uma figura sacerdotal inacessível, imponente e protegida por uma linguagem solene. Ao contrário, expõe-se de maneira espontânea, muitas vezes desarmada, permitindo que o fiel perceba não apenas o ministro religioso, mas também o homem. E essa exposição produz uma proximidade que pode ser profundamente reconfortante.

Há uma verdade humana nessa maneira de comunicar: as pessoas não são feitas apenas de grandes questões espirituais. São feitas também de vergonha, desejo, medo, fracasso, dinheiro, família, solidão, relacionamentos, dúvidas, pequenas alegrias e contradições. Quando alguém consegue falar dessas coisas sem transformar imediatamente o interlocutor em pecador ou culpado, cria-se um espaço de confiança.

Talvez seja justamente por isso que a generosidade dos fiéis mereça uma interpretação que vá além da simples obrigação de contribuir com a Igreja. A esmola, nesse contexto, pode ser vista também como uma forma de reconhecimento. O fiel não estaria oferecendo apenas dinheiro para sustentar uma instituição ou uma actividade religiosa; poderia estar, consciente ou intuitivamente, dizendo: “continue fazendo isso, porque precisamos disso”.

Precisamos dessa exposição humana. Precisamos de alguém que fale de coisas que normalmente não são ditas. Precisamos de alguém que consiga tocar no sagrado sem transformar a fé em uma sucessão de formalidades. Precisamos, talvez, de uma figura que nos permita rir sem abandonar Deus e que nos permita reconhecer nossas próprias fragilidades sem sentir que, por isso, estamos afastados d’Ele.

Nesse sentido, a generosidade pode carregar uma dimensão simbólica particularmente bonita: o desejo de preservar aquela presença, aquela voz e aquela forma de comunicação. É como se a oferta dissesse que aquilo que está sendo recebido possui valor suficiente para ser mantido vivo.

Há ainda uma circunstância histórica que torna a trajectória de Kotas particularmente singular. Em 2021, ele deixou a estrutura da Igreja Católica Romana e se vinculou à Polish National Catholic Church (PNCC), a Igreja Católica Nacional Polonesa, uma denominação católica independente da jurisdição romana (Diocese of Santa Rosa). Posteriormente, em 18 de Dezembro de 2023, foi formalmente reduzido ao estado laical por decreto do Papa Francisco, deixando, portanto, de ser sacerdote da Igreja Católica Romana (Diocese of Santa Rosa).

Essa trajectória não diminui necessariamente o fenômeno humano que ele representa. Pelo contrário, torna-o ainda mais complexo. Porque a questão que permanece não é apenas a de saber a que estrutura eclesiástica ele pertence, mas compreender por que tantas pessoas sentem necessidade de uma figura como essa.

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que há de paradoxal em Kotas: quanto mais ele abandona a postura convencional de solenidade, mais próximo consegue parecer; quanto mais revela as imperfeições da experiência humana, mais pessoas parecem dispostas a ouvi-lo falar de Deus; quanto mais transforma a comunicação religiosa em conversa, mais a conversa pode adquirir para alguns uma dimensão espiritual.

E talvez seja esse o ponto essencial: as pessoas não procuram somente quem lhes ensine a verdade; procuram também alguém com quem consigam permanecer diante dela.

Kotas parece ter compreendido intuitivamente essa necessidade. A sua força não estaria apenas em falar sobre Deus, mas em criar uma situação na qual o ser humano consegue falar, rir, reconhecer-se e, por alguns instantes, sentir que o caminho para o sagrado não precisa passar pela negação daquilo que ele é.

É possível que seja isso que os fiéis estejam, de alguma maneira, sustentando quando oferecem generosamente: não apenas uma pessoa, nem apenas uma igreja, mas a continuidade de uma forma de comunicação que lhes devolve algo que frequentemente falta na vida contemporânea: a sensação de que é possível aproximar-se do sagrado sem deixar de ser profundamente humano.

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