Há uma lição que o tempo nunca deixa de ensinar, ninguém é dono do futuro. A roda da política gira com uma velocidade surpreendente e, muitas vezes, aqueles que hoje celebram a queda de um companheiro acabam por experimentar o mesmo destino.

O mundo animal é complexo. Em muitos casos, é a sobrevivência que dita as regras, levando os animais a devorarem-se entre si para garantir a continuidade da espécie. No entanto, é no universo humano que essa lógica parece assumir contornos mais inquietantes. Quando o objectivo é conquistar ou preservar o poder, muitos deixam pelo caminho princípios, lealdades e até a memória colectiva. Maquiavel continua a ser citado porque, infelizmente, a realidade insiste em dar-lhe razão.
O que actualmente se observa em torno do pré-candidato Higino Carneiro, também conhecido por muitos como “General 4×4 ou Peito Alto“, é apontado pelos seus apoiantes como um retrato das contradições que atravessa o MPLA. A disputa política interna parece ter substituído o confronto de ideias por estratégias de isolamento, descredibilização e silenciamento, revelando que, por vezes, os adversários mais implacáveis surgem dentro da própria casa.
A elite do chamado “bando vermelho”, que hoje procura empurrar Higino Carneiro para a margem da vida política, faria bem em recordar que o poder é transitório e que a história raramente é generosa com aqueles que acreditam ser donos do destino dos outros. O mesmo partido que hoje aplaude determinados protagonistas poderá, amanhã, erguer outros. Porque a política é um terreno onde as certezas têm sempre prazo de validade.
A política não pode transformar-se numa arena onde antigos camaradas passam a ser tratados como adversários irreconciliáveis, apenas por ousarem disputar espaços de liderança. Um partido com a dimensão histórica do MPLA fortalece-se quando promove o debate interno, respeita os seus regulamentos e aceita a pluralidade de opiniões. A exclusão sistemática de vozes incómodas transmite uma imagem de insegurança, e não de força.
A história recente de Angola oferece exemplos suficientes para recomendar prudência. Figuras outrora consideradas intocáveis acabaram por conhecer o peso da mudança dos tempos e das circunstâncias. O percurso de antigos dirigentes demonstra que nenhuma posição é eterna, e que o julgamento da história nem sempre coincide com o entusiasmo das conjunturas políticas.
Por isso, o debate em torno de Higino Carneiro deveria ser conduzido com respeito institucional, observando rigorosamente os regulamentos internos do partido, e valorizando o direito de qualquer militante participar na vida política. Divergências são naturais em qualquer organização. O que não fortalece um partido é transformar diferenças políticas em campanhas de ostracização, ou em tentativas de eliminar adversários internos. Esse caminho apenas fragiliza a imagem de uma instituição, que sempre se apresentou como um espaço de unidade, disciplina e coesão.
Há uma lição que o tempo nunca deixa de ensinar, ninguém é dono do futuro. A roda da política gira com uma velocidade surpreendente e, muitas vezes, aqueles que hoje celebram a queda de um companheiro acabam por experimentar o mesmo destino. A humildade continua a ser uma virtude escassa nos corredores do poder.
Termino como comecei. No reino animal, a sobrevivência explica muitos comportamentos. Já na sociedade humana, espera-se que a razão, a justiça, o respeito pelas instituições e que as regras prevaleçam sobre os impulsos do momento. A política deve ser exercida com sentido de responsabilidade, memória histórica e maturidade democrática. Deixem o candidato Higino Carneiro apresentar as suas ideias e disputar o seu espaço dentro das regras estabelecidas. No fim, será o tempo e não a paixão das circunstâncias a ditar o verdadeiro veredito.










