POVO MARAVILHOSO (2)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

1 – Abordo outra vez Chico Anysio. Como tinha prometido, na esperança de imitar o que só ele sabia fazer em monólogo. Claro, sem sucesso. Aí vai esta tentativa escrita, brincadeira na letra M, para vossa apreciação:

Mostram muita maluquice! Movem maquinaria, motores, mares, marés, música malvada, mais membros. Mesmo mentindo, mandam manifestos, mensagens. Mais máximo, menos mínimo, momentos memoráveis. Malambas malucas manobram minorias, mil malandrices mesquinhas mescladas, mau-olhado mudando meios. Mujimbus manietam multidões marginalizadas. Mambos? Marcas, memorandos, mandatos mudos. Malvadas? Magníficas missões! Mentiras? Maledicências? Makas, mostrando mundo maquiavélico. Mentes mortas, mirando milagres, moldando museus, montras, mexendo missas mentirosas, manipulando milhões. Máscaras, mãos milagrosas moldam, meias-mangas. Mendigos mirrados, molhando muros, manuais malvistos, marcando mossas, magoando mudanças, mascarando misérias meio-mortas, murmurando mentiras, matando madrugadas. Moradias? Mussulo? Maravilha! Mulatas? Melhoral melhora melhor! Mingo, Mariquinha mestiça, Ministro manchado, mordendo mãos, mostrando medos. Menino, morde menos, meu. Magnífico! Muita mescla mimosa, matando moscas, maltratando malta, meteorologia mentirosa, miseráveis…

2 – Não fiquei insensível à intervenção de Luaty Beirão, esta semana, no “Oslo Freedom Forum” em Oslo, capital da Noruega. Falou, acertadamente. Deu para glosar. Chico Anysio, outra vez, agora na Escolinha do Professor Raimundo. Gosto muito dos meus, mas gostaria de ter um filho como ele!

3 – Prometi, vou cumprindo. Seguem excertos de A GRANDE FARRA, um dos vários capítulos do livro que lançarei em Setembro próximo.  

         “– Joyce, querida! Já escolheste a música para a abertura do salão”? – Kátia Kalóji, mais conhecida por Kapakapa, uma das melhores amigas da noiva do ano, perguntou, curiosa.

         – Ainda não, mas vou pensar nisso. Terei de consultar o Felizardo – respondeu a prometida.

Joyce era filha de um alto muhata, considerado dos homens mais prósperos do País. 

Gilberto Kifuquissa, o tal alto muhata, era homem jovem, recatado apesar do seu sucesso. Tornou-se milionário do pé para a mão e passou a ser muito respeitado. Com ele, a exemplo de outros, funcionaram as jogadas da sorte! Nesse particular das fortunas inesperadas, Angola continuava a surpreender. 

Joyce, a segunda filha do homem em causa, entregava-se com afinco às tarefas da festa. Impressionavam o empenho e o rigor com que preparava o seu casamento. Com todos os cuidados. Tudo idealizado há mais de três meses. Pensou numa valsa de Strauss para a abertura do salão, mas a ideia não estava consolidada. Havia coisas mais importantes para tratar. Faltava definir o local da festa, o cenário, essas coisas. As peças mobiliárias, mesas, louças e talheres, toalhas e guardanapos, enfim, todos os enfeites, inclusivamente os convites, para tudo se adaptar e ficar nos conformes. Ah! A divulgação na imprensa e na televisão! Esse pormenor era importante, não podia ser esquecido!

Não queria envolver o noivo nessas tarefas. Ainda não se habituara a certas coisas, ele não dava importância a muitas delas. Provavelmente nem estaria preocupado em dançar a valsa. Felizardo era um homem simples e prático, tão atencioso quanto desprendido, certamente entenderia a exigência da noiva. A sua família era modesta. Pai operário reformado e mãe doméstica. O irmão mais velho, militar, um simples coronel na reserva, e duas irmãs mais novas, por sinal, muito assanhadas, sem tento na língua. Uma família normal, sem grandes referências. No entanto, com a marca de tradicional, como muitas, tinham raízes na luta armada de libertação. Agora era difícil não ter essas raízes. Um bom cartão-de-visita! Era militante do Partido há muitos anos, passou pela Jota, aguardava pelo próximo Congresso. Tinha hipótese de ser escolhido para o Comité Central. Era só uma questão de tempo. 

É o primeiro passo, pensava a noiva ansiosa.”

“Em Angola, como noutros sítios, a abertura do salão do baile é dos momentos sublimes de uma festa de casamento. Tudo o que envolve o seu início é preparado com muito cuidado. Há obrigação de oferecer festa condigna à família e aos seus convidados. É evidente que isso não se coloca a todas as famílias angolanas. Só para algumas. Ali onde a magnitude da boda se mede por parâmetros que abarcam do cerimonial à ementa, passando pela música, até à posição social dos convidados. Roupas e ornamentos são fundamentais. Devia definir-se tudo, até a categoria do celebrante. O funcionário tinha de ter estatuto elevado na Igreja ou no Cartório. A posição económica e social dos convidados, uma dessas coisas de enfeitar, era também um pormenor importante. Fundamental para as relações que se estabeleciam nas sociedades milionárias. 

No sucesso de uma festa de casamento, estavam em jogo o prestígio e a reputação das famílias envolvidas. Podiam, eventualmente, promover negócios e oportunidades para consolidar poderes. Não foi por acaso que Joyce pediu aos pais para ser ela mesma a encarregar-se da parte social da cerimónia. O kota confiava em Joyce, a miúda mostrava classe e crescimento, apresentava-se com bastante nível na sociedade. Ela era a sua menina, o seu xodô. No entendimento de Kifuquissa, e ao contrário do que parecia, o casamento poderia trazer bons dividendos à família. 

         – Tem de ser lembrado como dos mais lindos e originais já realizados em Luanda – falava a noiva para a mãe, esta absolutamente rendida.

         – Terá de ser na Igreja da Sé e devemos limitar o número de convidados – continuou no seu sonho. 

A mãe pensava em mil, mas ela achava que quinhentos convidados eram suficientes, só faltava mesmo decidir o local do copo-de-água.

         – Na Marginal, como o da filha do falecido Nandó? – Sugeriu Kátia.

         – Não. Detesto imitações, estou a pensar na Floresta da Ilha, aproveitar o verde da relva e das árvores no contraste com o azul do mar ali, a dois passos. Tenho de saber se o meu pai já falou com o Governador – Joyce parecia sonhar com a boda. Não podia admitir, de modo nenhum, quaisquer cenas de pancadaria entre famílias, como acontecia na maior parte dos casamentos em Luanda.

Totalmente tomadas por imagens fantásticas, do outro mundo, as mentes das jovens pairavam em redor da festa, da chegada dos convidados. Da volúpia das roupas finas e dos perfumes caros. Dos batons e vernizes de marca. Da competição, a minha é, tem de ser, melhor que a tua. Da disputa por um lugar ao sol na sociedade rasca, tão bera quanto ridícula, da entrada triunfal no mundo das vaidades da elite angolana. 

A boda da Joyce seria capaz de suplantar a da filha do poderoso e já finado Nandó? Que festa aquela! Sumptuosa, badalada no País e no estrangeiro. Nem no tempo do Zedú se viu coisa igual! Mas atenção, a noiva não queria imitações.”

“Ah! Essas vidas palacianas! Nada faltava ali. Lá fora, nas ruas, na sociedade reles e miserável, distante do ambiente milionário, aconteciam coisas extraordinárias. Os emergentes faziam esforços para apagarem da memória os tempos dolorosos do Bê Ó, Rangel, Sambizanga, do Bairro Indígena, dos bairros marginais de outrora. O novo-riquismo não deixava pensar, perceber a miséria que assolava o seu antigo meio. Não se davam conta da atmosfera impregnada de variáveis impressionantes, nem sequer da chuva, mais impiedosa que nunca, a não parar de cair e a causar danos impressionantes. Cegueira estranha impedia-os de observar a cidade suja, emporcalhada, como o povo a via diariamente. Com lixo acumulado e as águas podres estagnadas a encherem áreas residenciais e a criarem nelas focos de doenças perigosas e mortais. Os ricos só a viam magnífica e festeira, mesmo quando entoava ao ritmo da bátega o seu mais dolente canto fúnebre. Contrariamente, os pobres sentiam, todos os dias, dolorosamente, na pele e na alma, os seus efeitos mais nefastos.”

Com os meus melhores cumprimentos, despeço-me dos meus leitores, parentes, amigos e companheiros de luta. Vai aquele abraço para todos, esperando por todos, como sempre, no próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 7 de Junho de 2026 

P.S. – Morreu Manuel Augusto. Não sabia dele, há muito. Partilhamos bons momentos, alimentamos esperanças. Os meus sentimentos à família. Que descanse em paz!

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