POR UM PAÍS PARA TODOS: O NATAL DO POVO

Somos vítimas da traição da verdade, da dignidade, da hereditariedade, da consciência e da gramática. A liderança perdeu o rumo, o horizonte, a abnegação, o conteúdo, o pretexto e, por isso, vivemos na subcave do bem-estar social.

ALEXANDRA SIMEÃO

Angola é um Estado frágil onde o lugar do povo é a periferia do lado maís longínquo do centro da cadeia alimentar. O país que em 2017 viu nascer uma esperança foi derrotado pelo amadorismo, a falta de visão, a ausência de ética, a sede de vingança irracional, a incapacidade para contruir pontes e a intolerância à diferença. A mesmice da estratégia que comprovadamente se mostrou incapaz de resolver os graves e inadiáveis problemas, que já nem temos vontade de falar deles pela falta de paciência que o discurso acarreta.

Neste Natal, milhões de angolanos não terão nenhum motivo para festejar. Entre os óbitos provocados pelo abandono de um Estado incapaz de prover saúde com qualidade e para todos, a ausência de esgotos que permitiu que a chuva levasse o pouco que conseguiram na batalha do dia-a-dia, o salário que se tornou indigno, os incómodos eleitores que só se tornam visíveis em ano eleitoral continuam fora dos muros do palácio, sem que nenhum tipo de alívio os proteja.

O povo está farto de sobreviver. O povo merece ter uma vida com dignidade. O povo que vos elege merece ser tratado com respeito. Continuamos sem ver um programa de distribuição equitativa de riqueza. O que vemos é o gasto supérfluo, o exagero faraónico e ridículo, as viagens presidenciais que, espremidas, são uma mão cheia de nada, mas que devoram milhões que deviam ser empregues no crescimento do ensino pré-escolar, já que o governo se comprometeu, em 2015, com a sua universalidade até 2030, com os Objetivos do Desenvolvimento do Milénio, e ainda hoje continuamos a ter apenas 11% de atendimento.

O mandato das grandes decisões teve o efeito do fermento fora de prazo, que azeda o pão de quem só pode comer pão. A nossa sociedade está desregulamentada. Os velhos são uma raridade. Os que têm outra fé política foram proscritos. O país vive de mão estendida e aceita qualquer oferta, mesmo aquelas que no futuro se voltarão contra a próxima geração. Uma governação feita por selfies, onde se mostra o glamour, o brilho e se esconde a dor e a fome real e que aleija milhões de estômagos, de adultos e crianças, que não entram nas estatísticas.

A democracia é um lugar difícil para os egoístas. A democracia não é um estado de alma despersonalizado e sem referência, sinónimo de “posso, quero e mando”. Deturpar o valor da democracia e em seu nome vermos serem cometidas arbitrariedades oportunistas, alterando o sentido das coisas, é deprimente. O fortalecimento do Estado Democrático de Direito foi abandalhado, basta olhar para a fotografia subjugada dos tribunais superiores.

A democracia é só uma. Pretender inventar uma “democracia” para acautelar os interesses do governo e à medida dos seus fins é desonestidade. Angola não precisa desse modelo democrático desajeitado. Somos hoje um projecto egocêntrico, desenraizado, sem magnanimidade, sem altruísmo, com fins inconfessos. Somos um mau pressentimento. Perdemos o passado e estamos a perder o futuro.

Este Natal, a melhor prenda que o governo nos podia dar era um Plano Nacional Emergente de Proibição do Erro (PNEPE). Neste plano, o povo (que vos elege) tinha de ser ouvido em todas as decisões que falam de si. Tinha de ter poder para decidir entre o investimento num estádio ou em habitação social. Entre um metro de superfície e um hospital oncológico moderno e eficiente. Entre ter o maior aeroporto de África ou ter uma rede de saneamento nacional robusta. Entre fazer um museu ou um centro profissional em tecnologias de informação para jovens desempregados. As escolhas são infinitas. Mas, raramente priorizam o povo.

Neste Natal olhamos para as nossas crianças e continuamos chocados com a certeza de que o seu futuro está ameaçado pelo analfabetismo, pois não basta aprenderem a ler, é imprescindível que estendam o que leem. Somos vítimas da traição da verdade, da dignidade, da hereditariedade, da consciência e da gramática. A liderança perdeu o rumo, o horizonte, a abnegação, o conteúdo, o pretexto e, por isso, vivemos na subcave do bem- estar social.

Este Natal pedimos dignidade. A dignidade da paz no prato. A dignidade que tire das costas das mulheres o peso que ela deve salvaguardar no ventre cheio de uma nova vida. A dignidade salarial. A dignidade da eficácia da avaliação da governação. A dignidade de impedirmos que se continue a vender o país a retalho. A dignidade de deixarmos um futuro para os nossos filhos, sem que sejam traídos pelo peso de uma dívida que pode significar a perda da soberania. A dignidade pela dignidade de viver em segurança, com acesso a um serviço nacional de saúde que salve vidas, e com uma educação para todos com qualidade e pertinência.

27 de Dezembro (In Novo Jornal online)

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